A caixinha de surpresas (por Gustavo Krause)

O povo quer um país onde não existam muitos pobres e poucos ricos?

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1 de 1 Imagem colorida da bandeira do Brasil, ao lado de notas de real - Metrópoles - Foto: Getty Images

É o título do livro de autoria do jornalista Luiz Fernando Bindi, falecido em 2008, vítima de um enfarte fulminante. Apaixonado pelo futebol, criativo e com apurado senso de humor, ele nos legou a obra “O Futebol é uma caixinha de surpresas”, usando a linguagem figurada para reforçar o aleatório e a emoção que encantam o esporte das multidões.

Na verdade, o que é previsível nas nossas vidas? A rigor, o inesperado é nosso companheiro de viagem. Daí, o fascínio do humano em desvendar o futuro utilizando os mais diversificados fatores desde a superstição, crenças que nos asseguram a eternidade e, até mesmo, a futurologia que não advinha, busca, com o auxílio de múltiplos saberes, as tendências, os cenários, de modo a indicar prováveis caminhos e ações estratégicas.

No caso da tomada de decisões, quanto mais amplo são seus efeitos mais valiosos se tornam a capacidade de antevisão e as possibilidades de acerto. São indispensáveis como suporte da ação planejada no caso de decisões políticas. A tarefa de governar, na essência uma responsabilidade pública, é cada dia mais complexa o que torna necessário obedecer ao jargão “prever para prover”.

Esta breve reflexão tem por objetivo registrar que, a previsão dos governantes e governados, as autoridades e os especialistas têm frequentemente se deparado com “surpresas”. A propósito, o primeiro trimestre do corrente ano é um caso exemplar. Com a força da safra recorde no setor agropecuário (12%), a economia acelerou o ritmo de crescimento para 1,4% (dados do IBGE) no primeiro trimestre do corrente ano o que coloca o PIB no maior patamar da série histórica, iniciada em 1996.

Segundo a lista elaborada pela empresa de classificação de risco, a Austin Rate, entre 61 países que divulgaram seus resultados dos trimestres, o Brasil ficou na quinta posição, 0,5% acima da média dos países avaliados. Outro dado surpreendente, entrando pelo mês de abril é a queda na taxa de desemprego para 6,1%, enquanto uma taxa de formalização atingiu o recorde de 62%. Por sua vez, a recente decisão do COPOM de reduzir o ritmo do corte de juros sinalizou para um cenário externo afetado por elevada incerteza e os riscos da redução do desempenho das economias.

Importante não sair do radar o expansionismo fiscal acelerado com a realização das eleições de 2026 e uma firme posição de política monetária convergindo com o rumo estratégico compatível com as políticas públicas.

E por falar em eleições, está dada a oportunidade histórica para o debate  de um projeto nacional que reúna forças capazes de aliviar o cansaço da sociedade exaurida pelas promessas vãs da retórica populista; reafirme a disputa eleitoral como o momento propício para assumir o compromisso de atender as prioridades do cotidiano da população; enfrente os desafios estruturais de modo que o Brasil se transforme, pelo diálogo e pelo entendimento, numa nação capaz de encarar o futuro, liberta da sensação de insegurança e vulnerabilidades.

Sempre que se fala em eleições, há um certo desânimo em expressões “faltam lideranças”, “falta um projeto de nação”. Lideranças somente se formam enfrentando a peleja democrática, processo que será guiado pelas mãos do eleitor. Projeto de nação pode até ser encomendado pelos sábios de plantão. Mas não vai funcionar. Pergunte ao povo o que ele quer: qualquer Instituto de pesquisa com credibilidade e um entrevistado sincero vão citar, prioritariamente, quatro problemas que afetam o cotidiano de suas famílias: saúde, segurança pública, educação e custo de vida. Os candidatos chegarão com programas, propostas e soluções devidamente arrumadas. Desde que seja honesto e convença que se preocupa com os mais pobres, pode ganhar eleição. Fazer acontecer são outros quinhentos.

E o povo tem uma visão estratégica de pais? Tem. É só perguntar corretamente. Você prefere viver numa democracia ou numa ditadura? O povo adora a liberdade, de barriga cheia. Quer ser um cidadão trabalhador. Quer ser igual a todos prante a lei. E quer polícia para proteger. Logo, a democracia, assegurada pelo Estado Democrático de Direito, é um pilar estratégico.

O povo quer ir à feira escolher o que vai comprar a quem vende mais barato? Claro! O povo quer uma economia de mercado. Quer ser empresário, empreendedor e ficar rico? Quer. No Brasil, basta dar oportunidade e preparo. Começa de baixo e pode chegar a ser o dono do negócio. Quer oportunidade e que se respeite a lei. Sem burocracia. Este é o outro pilar da sociedade desejada.

O povo quer um país onde não existam muitos pobres e poucos ricos? O povo quer um país mais justo. Onde todos ganhem conforme seu merecimento profissional. E tenham o suficiente para viver com dignidade. Outro pilar do país: a equidade social.

O povo quer um país em que não se roube o dinheiro do contribuinte? Atualmente, a primeira virtude exigida dos candidatos, segundo dados de pesquisas, é ser honesto. Ética pública. O bom exemplo da ética pública.

O povo quer um país, que já é “bonito pela própria natureza” e que tem “palmeiras onde canta o sabiá”, cuide da natureza? O povo e a natureza são uma coisa só. O Brasil é uma Pátria Ambiental, com vocação para o protagonismo global.

Mas falta uma coisa que não foi perguntada: e a Educação? Educação é tudo porque sem ela não somos nação. Não existe vida para ser vivida em sua plenitude.

Enfim, o Brasil não é uma “caixinha de surpresas”: é uma gigantesca arca repleta de possibilidades e oportunidades.

 

Gustavo Krause foi ministro da Fazenda 

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