A bola quadrada (por Gustavo Krause)

Por que não limitar a uma reeleição as presidências das Federações e da Confederação Brasileira de Futebol (CBF)?

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Pedro Vilela/Getty Images
Foto colorida de Neymar, durante jogo da Seleção Brasileira contra a Colômbia, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo - Metrópoles
1 de 1 Foto colorida de Neymar, durante jogo da Seleção Brasileira contra a Colômbia, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo - Metrópoles - Foto: Pedro Vilela/Getty Images

“Futebol se joga no estádio?/ Futebol se joga na praia/ futebol se joga na rua/ futebol se joga na alma. A bola é a mesma: na forma sacra/para craques e pernas-de-pau”. Autor? Ninguém mais, ninguém menos do que  Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) no livro Quando é dia de futebol, uma antologia de textos sobre o futebol, selecionados pelos netos Luís Maurício e  Pedro Augusto Graña Drummond (Rio de Janeiro: Record, 2002) com prefácio de Edson Arantes do Nascimento.

Era tão poeta que a gente esquece outras dimensões do ser humano: um torcedor, sensível às emoções esportivas, acrescidas do olhar poético assim como João Cabral de Melo Neto (1920-1999) que foi, além de torcedor do América (Pe), campeão juvenil em 1935, pelo Santa Cruz, time do coração materno. Nos deixou um poema insuperável sobre o estilo de jogar de Ademir da Guia.

Desconfio que, se Drummond ainda estivesse entre nós, não qualificaria a bola de “forma sacra”. Um objeto mágico que me faz recorrer mais uma vez a outro intelectual de dimensão universal, o uruguaio Eduardo Galeano que explora inúmeros aspectos, reais e simbólicos do futebol “como festa dos olhos que o olham e como a alegria do coro que o joga e registra com destaque a resposta da teóloga alemã Dorothee Sölle, indagado por uma jornalista: “como a senhora explicaria a um menino o que seria a felicidade? “Não explicaria – respondeu – Daria uma bola para que jogasse” (Futebol ao Sol e à Sombra. Porto Alegre: L&PM, 1995, p. 243).

Muito cedo, comprovei a resposta da teóloga ao viver felicidade na relação do “menino moleque” com a “bola de meia” na bela composição de Fernando Brant e Milton Nascimento “Bola de meia, bola de gude”; que se prolongou com a bola de borracha e a bola de couro, artesanal e barata, feita por Fon-Fon, morador da rua Marquês de Maricá, bairro da Torre. Gomos costurados à mão, a esfera, quando chovia, escorregava que nem sabão e pesava que nem chumbo. Um castigo para os goleiros e uma pancada no cabeceio que doía na hora e com o passar do tempo deixava sequelas neurológicas, comprovadas pelos estudos, por exemplo, da célebre vítima, o zagueiro Bellini, capitão da equipe campeã do mundo na Suécia em 1958.

Definida na regra dois, a bola vem sendo aperfeiçoada, mas a forma é “esférica”. Redonda!

Pois bem, foi com grande tristeza vi uma bola quadrada no jogo em que a seleção brasileira, mais uma vez, desrespeitou um passado glorioso, na humilhante derrota para a seleção argentina. A bola do orgulho, tratada com respeito, carinho, redondinha, agora chega quadrada e sai quadrada: é a bola da vergonha.

Seria uma tolice formular soluções mágicas buscando o belo currículo dos técnicos estrangeiros que, historicamente, sempre foram melhores do que os brasileiros. Este mágico não existe no mercado. Mas é possível especular as razões de uma derrocada coletiva, em contraste com êxito e prestígio de que desfrutam, individualmente, nossos atletas: nós vencíamos os brancos, ricos e ditos “desenvolvidos” porque tínhamos “safras” de jogadores com qualidades técnicas excepcionais que forjaram, ao longo do tempo, o que chamo de “cultura da seleção”.

Chegar à seleção brasileira era o sonho de todo jogador. A fama e o dinheiro viriam como uma justa recompensa. A quantidade e a qualidade dos jogadores eram tão expressivas que nós derrotávamos os times dentro do campo e grandes adversários fora do campo: os dirigentes/cartolas encastelados no modelo oligárquico de poder.

De repente, aparece uma solução mágica de três letrinhas: SAF. Uma espécie do “emplasto Brás Cubas” do incomparável Machado de Assis. Cura tudo. De coceira a espinhela caída. Porém, o malvado capitalismo não perdoará a incompetência que está nas raízes da má gestão e outros males pouco decentes. .

Por que não começar as mudanças pela ampliação do colégio eleitoral e limitação a uma reeleição para as presidências das Federações e para a Confederação Brasileira de Futebol (CBF)? Sobre o assunto, recomendo a leitura da reportagem especial, edição mês de abril, da  “Revista piauí” (com letra minúscula). O conteúdo é assustador.

Enquanto isso, a bola quadrada no esporte de alto rendimento começa a ser deformada na base com a precária formação dos atletas que, ainda assim, “verdes” e, precocemente virtuosos, migrarão para os clubes do exterior; alcançarão, merecidamente, visibilidade, fama e riqueza; a antiga “cultura da seleção” não é mais o objetivo a ser alcançado.

Afinal de contas, na bola dividida não dá para seguir uma das frases famosas ao atribuída filósofo/mito do nosso futebol Neném Prancha: “ O jogador tem que ir na bola com a mesma disposição de quem vai num prato de comida”.

 

Gustavo Krause foi ministro da Fazenda

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