A Amazônia rica e a Amazônia pobre (por Roberto Caminha Filho)

É exatamente aqui, na Amazônia, que estão os mais valiosos sólidos, líquidos e gasosos da Terra

atualizado

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Rafael Vilela for The Washington Post via Getty Images
Curvas dos rios Ituí e Itaquaí, nas Terras Indígenas Vale do Javari - Metrópoles
1 de 1 Curvas dos rios Ituí e Itaquaí, nas Terras Indígenas Vale do Javari - Metrópoles - Foto: Rafael Vilela for The Washington Post via Getty Images

A nossa querida e amada Amazônia é, sem a menor dúvida, a região mais rica deste planeta. Tem de tudo, da água doce em abundância, minérios estratégicos, biodiversidade incomparável, pescado, madeira, petróleo, gás, energia a terras férteis de várzea. É exatamente aqui, na Amazônia, que estão os mais valiosos sólidos, líquidos e gasosos da Terra.

Os gabinetes bem refrigerados de Brasília, servem para enganar os nossos dirigentes. Entre num barco recreio em Manaus e chegue em qualquer cidade do nosso interior. Então, olhe a realidade, da proa para trás, para perceber o grande truque brasileiro: o amazônida continua pobre dentro de uma riqueza trilionária. E todos os dias chegam mais pobres para essa grande convenção: de todos os lugares do mundo.

É como morar dentro do cofre do Tio Patinhas e não ter dinheiro nem para comprar o amendoim do Super Pateta.

Todos querem salvar a Amazônia e a unanimidade é que a deixem como Deus a criou. Esquecem que o Homem também colocou, aqui, além do Curupira, uma figura muito próxima ao Curu: o amazônida.
Mas alguém precisa avisar ao mundo que o amazônida continua morando aqui.

A região possui algumas das maiores reservas minerais do planeta. O mundo, que já não fala do tão roubado nióbio, no dia a dia, agora, discute o potássio amazônico porque fertilizante virou arma geopolítica. A água doce da Amazônia virou ativo estratégico global. O açaí saiu das latas do interior para virar comida fitness nas finas porcelanas novaiorquinas. A pesca do tucunaré é uma commodity invisível e traz para os nossos lagos, milhares de pescadores.

O cacau amazônico já ganhou o mercado internacional e terá selo nacional. O pirarucu, tratado antes como “comida de pobre”, hoje aparece em restaurante chique, com nome francês e prato do tamanho de uma tampa de panela. O tambaqui, colega do pirarucu, vendido em costelas, já é peixe chinês, há muitos anos.

O raciocínio é muito mais simples e perverso do que podemos imaginar: “Vocês fiquem aí brincando de proteger as “nossas árvores” e nós seguiremos cortando as nossas florestas e sendo os países mais industrializados desse mundão de meu Deus”. Só falta dizer: continuem torcendo pelo Búfalo Bill, o nosso herói que matava bisões e cobrava por tiro. Ele ensinou a exterminar os nossos bisões, fazendo casacos dos bichos.

O amazônida assiste, pela televisão, países ricos explorarem petróleo, carvão, madeira, proteína animal e minério em escala gigantesca, enquanto, por aqui, até abrir ramal já vira debate planetário, estrelado pela Greta Tin Tin Thunberg.

O resultado é um Céu trilionário cercado de uma pobreza de dar inveja ao capeta.

E aqui mora um perigo enorme, porque nenhuma sociedade preserva riqueza natural vivendo eternamente na pobreza. O homem que não consegue alimentar os filhos não pensa em crédito de carbono que o amazônida jamais viu ou sentiu. Pensa no almoço de amanhã.

O senador Jeferson Peres passou a vida dizendo, nas suas aulas, que a miséria destrói mais a natureza do que o desenvolvimento inteligente.

Sem emprego, sem indústria forte, sem infraestrutura e sem segurança jurídica, sem eira e nem beira, a Amazônia continuará exportando matéria-prima barata e importando pobreza cara. Só resta o Polo Industrial de Manaus.

E aqui entra outra piada pronta do Brasil: falam muito em bioeconomia, mas até agora o amazônida viu mais seminário do que prosperidade.

Existe reunião sobre floresta. Congresso sobre floresta. Fórum sobre floresta. Painel sobre floresta. Festival sobre floresta. A floresta, ao ver suas árvores derrubadas por ventos e raios, nos presenteava com madeira para as nossas carteiras escolares. Hoje, as carteiras são de plástico e quebram-se três vezes por ano. Ao lado, estão as velhas carteiras, com trinta e cinco anos, cheias de músculos para mais trinta e cinco aninhos.

A grande e mais inconveniente verdade é que a Amazônia não precisa virar um museu ecológico, habitado por pobres e contemplativos e ridículos sonhadores. A região pode preservar e prosperar ao mesmo tempo.

O amazônida não quer destruir a sua floresta. Quer escola decente, hospital funcionando, estrada transitável, porto eficiente e oportunidade para os filhos. Quer beber a sua cachaça com um bom caju e uma cajarana em pitadas de sal. Quer deixar de ser figurante exótico em documentário americano que torce por um escalpo apache.

No fundo, a maior tragédia amazônica talvez seja esta:
o planeta descobriu o valor da Amazônia antes do próprio Brasil descobrir o valor do terrível e inescrupuloso amazônida. O Brasil não permite que se asfalte uma estrada para o brasileirinho se conectar com o Brasil. E isso, meus amigos, é muito cruel. Só temos o Vorcaro, o novo Macunaíma, o herói sem caráter, para resolver essa parada.

O mundo inteiro quer salvar a nossa rica e sempre bela Amazônia.
Excelente. Mas talvez esteja chegando a hora de salvar o amazônida também.

Roberto Caminha Filho, economista, ainda verá a Amazônia exportando para a China, Coréias e Japão, muito mais que para as Américas.

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