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Seu avô preso! O que aconteceu? Recebeu a ligação do avô dizendo para ir até a delegacia buscá-lo. Chamou um uber. Começou a demorar e prontamente o aplicativo ofereceu uma opção de viagem mais cara. Obedeceu à lei do “tá com pressa paga mais” e em 5 minutos entrou afobado no carro. Após os protocolares “tudo bem? Tudo bem”, comentou com o motorista sobre os preços das corridas e ele respondeu: “Só tá bom pra Uber. O que tá todo mundo pagando a mais nesse fim de ano não tá chegando no nosso bolso”.
Dario enfrenta o trânsito paulistano há cinco anos. Disse que chegou a trabalhar doze horas por dia, mas que fez as contas, refez estratégias e agora trampa em dois períodos, das 5h às 10h e das 17h às 22h. “Faço 300 reais por dia e tenho um pouco de vida. Não vale trabalhar 12 horas por 100 reais a mais”.
Entraram no assunto tabu dos motoristas. Ser ou não ser CLT, eis a questão. Ao contrário da maioria dos condutores, que prefere tomar um cafezinho com o diabo a ter carteira assinada, ele teceu umas propostas. Para ele é inegável que existe um vínculo trabalhista com a empresa. E mais, enxergava uma superexploração, já que todos os custos são dos trabalhadores. “Quanto custa pra manter o aplicativo? Será preciso cobrar 30%, 40% de cada corrida?”, ironizou.
Lembrou de um colega motorista que teve um problema nas costas e ficou quase dois meses acamado. Ele já havia marcado uma cirurgia para acabar com as dores crônicas, mas nesse tempo inativo atrasou as parcelas do plano de saúde. Resultado: a cirurgia foi desmarcada e ele continuou dirigindo com essa agonia. “Deveria ter um auxílio-doença, a Uber pagar uma média dos ganhos para o cara se recuperar”. E continuou: “Que tal uma participação nos lucros, afinal somos nós que bancamos a empresa. Deveriam ter alguns benefícios, não sei quais, mas os motoristas deveriam ter algum bônus, não só o ônus no ânus”.
Parou em frente à delegacia e o neto do avô preso desceu. O lugar estava lotado de idosos, o clima na realidade era de festa. Encontrou o avô rindo com uma amiga. “Que aconteceu?”, perguntou, “A polícia estourou nosso bingo, um absurdo. Se as bets podem ganhar bilhões online, qual o problema de um monte de velho se juntar pra lembrar dos velhos tempos? Ok, tinham umas máquinas de caça-níqueis também, mas eu só tava no bingo.”
O neto teve um flashback. Quando criança, vez em quando acompanhava o idoso em um bingo perto de sua casa. Eram tardes regadas a números, doces e refrigerantes. Tinha a impressão que dava sorte pro velho. Não se recordava o porquê da proibição dos bingos, e se perguntava porque não se fazia o mesmo com as bets e tigrinhos da vida. Está óbvio o problema social, de saúde mental que esses jogos trazem. Ninguém sabe direito quem lucra com isso e, ainda que não houvesse denúncia, a coisa cheira a lavagem de dinheiro e crime organizado. Lembrou que o centrão estava de mão dadas com os jogos de azar.
O neto era advogado. Resolvida a burocracia, pediu outro Uber. Seu avô apenas disse: “Bico fechado hein, não vai contar nada pra sua avó nem pro seu pai”.


