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A cortina de fumaça de Milei

Conflito diplomático com Espanha desvia foco dos problemas sociais da Argentina

atualizado

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Marcelo Endelli/Getty Images
O presidente da Argentina, Javier Milei, faz um discurso após sua cerimônia de posse no Congresso Nacional em 10 de dezembro de 2023 em Buenos Aires, Argentina
1 de 1 O presidente da Argentina, Javier Milei, faz um discurso após sua cerimônia de posse no Congresso Nacional em 10 de dezembro de 2023 em Buenos Aires, Argentina - Foto: Marcelo Endelli/Getty Images

Quando a recessão vira tema principal de discussão no país, que tal um conflito diplomático para voltar a dominar o noticiário? Junte-se a isso, um investimento pesado em conteúdo nas redes sociais para manter os devotos alinhados. A cartilha da extrema-direita não falha, e Javier Milei a segue com precisão.

Bolsonaro cansou de fazer o mesmo. Chamou de feia a primeira-dama francesa, foi um dos últimos presidentes a reconhecer a vitória de Joe Biden nos Estados Unidos, rompeu com o Fundo Amazônia, financiado pela Alemanha e Noruega. Em visitas ao Chile, elogiou Pinochet, no Paraguai, enalteceu Stroessner. Nota-se que o ataque é pessoal, jamais é uma polêmica em defesa do país.

Foi o que fez Milei durante evento organizado pelo partido de ultradireita Vox em Madri, ao chamar de corrupta a esposa do Pedro Sánchez, primeiro-ministro da Espanha, intrometendo-se em uma crise política interna. É um assunto que cabe ao presidente de outro país? Nem se fosse perguntado por jornalistas, muito menos em um discurso em solo estrangeiro.

Mas funciona. As capas do Clarín, La Nación e Página 12 repercutem o tema minuto a minuto. Acuado pela economia, Milei consegue manter a imagem de leão frente aos “poderosos espanhóis”.

Nas tabelas de Excel o mundo é lindo, com inflação baixando e superávit primário. Nas esquinas da cidade, o mundo é outro. O resultados para o FMI aplaudir carregam o aumento da pobreza e recessão, com queda recorde de consumo, arrocho salarial, aposentadorias sem aumento e cortes em programa sociais

Os salários formais tiveram uma perda de 20% entre dezembro e fevereiro. Houve aumento no preço de serviços essenciais como energia, gás e combustíveis,  A pobreza cresce e alcança mais de 22 milhões de pessoas.

E nem tudo é sonho da motosserra. Economistas não descartam a possibilidade de uma nova desvalorização do peso, já que o valor do dólar não tem acompanhado o ritmo da inflação.

Por isso mesmo, o governo Milei dobra a aposta e afirma que não pedirá desculpas ao governo espanhol. “Não haverá pedidos de desculpa porque não há nada para pedir desculpa. Apelamos ao Governo espanhol para que nos peça desculpa”, afirmou o porta-voz da Presidência, Manuel Adorni, ao citar críticas de aliados de Sánchez.

Apesar das críticas de empresários e analistas, Milei vai bater o pé o quanto puder. Enquanto isso, conclamará seus cidadãos a passar esse momento difícil ao seu lado, até o futuro glorioso e liberal desembarcar na Argentina, não importando os custos sociais e a viabilidade de seu projeto.

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