A anatomia do cerco ao STF: o método da provocação deliberada

Como a política da extrema-direita converte a indignação popular em combustível para acuar as instituições, como o STF, e ferir a lei.

atualizado

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Não há, nos anais da política recente, peça de desonestidade intelectual tão cristalina quanto o relatório final da CPI do Crime Organizado. O senador Alessandro Vieira, cuja trajetória como delegado o desautoriza a alegar desconhecimento, produziu um texto provocativo. Ele sabia, por ofício e dever, que o pedido de indiciamento de ministros do Supremo Tribunal Federal por suas interpretações jurídicas era um natimorto técnico.

O objetivo, contudo, não era investigar, mas sim colocar em pratica um método.

Vemos uma engenharia de manipulação que cativa o público para, em seguida, acuar as instituições. A estratégia é manjada, mas persistente: utiliza-se o descontentamento legítimo do cidadão com as cortes superiores – alimentado por pesquisas de opinião que tentam transformar o Judiciário em um palanque de popularidade – para pavimentar o caminho do arbítrio.

É preciso que o leitor atento não se deixe converter em fantoche do radicalismo: a justiça não foi criada para agradar e ser popular, mas sim para ser a roda civilizatória e isenta das sociedades.

A confirmação da prática eleitoreira deu-se no palco iluminado do Congresso. Vieira, ao ver seu parecer rejeitado por absoluta falta de substância, não buscou o refúgio da técnica. Ao contrário, posicionou-se no proscênio ao lado de Flávio Bolsonaro para entoar o mantra persecutório contra Alexandre de Moraes.

Ao emprestar sua biografia para servir de escada ao bolsonarismo estridente, o senador deixou claro que o alvo da CPI nunca foi o crime organizado, mas a independência da toga, ou seja, sua remoção como obstáculo para a “liberdade” de tomar o controle e não sofrer consequências.

Não, não estamos aqui falando de defesa de ministros do STF, nem os colocando como acima de tudo. Caso a investigação da PF volte com provas do que for contra algum nome do Supremo, cruzaremos então essa ponte. É preciso agora não se deixar distrair pelas cortinas de fumaça, pelo excesso de “informação” em uma espiral visceral e sedenta do jogo de poder.

O perigo reside na sedução pelo aplauso fácil. Quando líderes utilizam o sistema para corroer as regras que sustentam a própria democracia, o colapso não se dá por tanques, mas por decretos e provocações orquestradas.

Essas provocações ao STF manifestam-se, por exemplo, no descumprimento deliberado de ordens judiciais e na teatralização do desacato em praça pública.

O banquete dos insaciáveis exige que a verdade seja o primeiro prato sacrificado. Sempre. O alvo final dessa encenação não é apenas o Supremo, é a percepção do cidadão, convidado a acreditar que a mordaça na Justiça é, de alguma forma, um ato de limpeza do “mal”.

Desculpa, mas já vimos esse filme antes. Gilmar Mendes, goste ou odeie o mensageiro, explicou muito bem a repetição do cenário aos que não têm memória e àqueles que fazem da alienação, uma escolha.

Passou da hora de parar de gritar aos quatro ventos clichês do seu político de estimação e perceber que o método de te incitar pela emoção está em movimento.

O que importa no momento é ter em mente que não existem heróis ou salvadores enviados por Deus (isso é tentativa de consolidar uma guerra Santa). E que as decisões do presente podem significar uma sociedade acuada em um futuro próximo.

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