
A aliança de Abdias e Juruna na Câmara
Em 1983 líderes do movimento negro e indígena foram pioneiros das lutas sociais na Câmara

Lembre do número de deputados conservadores eleitos e a cena parece de série: conversando pelos corredores da Câmara, lá estavam Abdias do Nascimento, intelectual e militante negro, vestindo suas roupas africanas, e Mário Juruna, liderança do povo xavante, de terno e cocar. Em 1983 a ditadura começava a rastejar de volta aos quartéis; a democracia era a filha mais linda de uma geração.
Vamos voltar à campanha, porque a união começou ali. Em 1982, a redemocratização se impunha e foram marcadas eleições para governadores, senadores, deputados federais e estaduais. Essas trajetórias distintas se uniram no mesmo partido, o PDT carioca, de Brizola. Lançaram o manifesto O negro e o índio, unidos na libertação. Mais que uma dobradinha eleitoral, a iniciativa propunha aproximar duas lutas historicamente marginalizadas e questionar as estruturas de poder herdadas da colonização. Era recriar o convívio de Palmares e tantos outros quilombos em que negros e indígenas dividiam o tempo e a terra.
A trajetória dos dois ajuda a compreender a dimensão do encontro. Nascido em Franca (SP), em 1914, Abdias construiu uma vida dedicada ao combate ao racismo. Fundou o Teatro Experimental do Negro, em 1944, e criou o jornal Quilombo, além de se tornar escritor, dramaturgo e artista plástico. Perseguido pela ditadura militar, permaneceu no exterior entre 1968 e 1981, período em que denunciou o racismo brasileiro e dialogou com movimentos negros internacionais.
Juruna nasceu em 1943, em uma aldeia xavante no Mato Grosso. Ganhou notoriedade nacional ao percorrer gabinetes de autoridades em Brasília para cobrar a demarcação de terras e o cumprimento de promessas feitas aos indígenas. Seu gravador, utilizado para registrar conversas com políticos e funcionários públicos, era símbolo de quem aprendeu a desconfiar de um Estado que falhou em garantir seus direitos.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesNa campanha de 1982, Juruna levou ao debate público as reivindicações indígenas. Eleito com mais de 30 mil votos, tornou-se o primeiro indígena a ocupar uma cadeira na Câmara. Abdias adotou o lema “O povo negro no poder!” Obteve 15 mil votos e não se elegeu, mas assumiu o mandato como suplente, após dois deputados do PDT assumirem postos no governo Brizola.
A parceria teve uma sessão solene em 19 de abril de 1983, durante as homenagens ao Dia do Índio. Os dois criticaram o tratamento dispensado pelo Estado aos povos indígenas e a atuação da Fundação Nacional do Índio, a Funai. Abdias relacionou a luta indígena à resistência negra contra a exploração e a exclusão.
Em seu mandato, Juruna procurou transformar suas denúncias em mudanças institucionais. O Projeto de Lei 661/1983 propunha que comunidades indígenas participassem da escolha dos integrantes do conselho diretor da Funai e fiscalizasse a administração do órgão. A proposta avançou em comissões, mas acabou arquivada. Uma conquista foi a criação da Comissão do Índio na Câmara, em 1983, que permitiu ampliar o espaço parlamentar dedicado às reivindicações indígenas.
Abdias foi pioneiro. Apresentou o PL 1.332/1983, com medidas de ação compensatória para promover a igualdade racial, incluindo propostas de oportunidades no emprego e na educação. Também defendeu o reconhecimento do 20 de novembro como Dia Nacional da Consciência Negra. Seus projetos não foram convertidos em leis durante seu mandato.
As propostas silenciadas revelam os limites da época e a relevância daquelas discussões para sociedade brasileira. Não diminui sua importância histórica. Abdias ajudou a formular políticas de ação afirmativa décadas antes de elas ganharem maior espaço institucional; Juruna levou a representação indígena ao centro do debate nacional e questionou quem tinha o direito de decidir sobre os povos originários. O manifesto de 1982 permanece como registro de uma possibilidade política: construir solidariedade entre lutas distintas sem exigir que uma delas desapareça dentro da outra.
Juruna não conseguiu se reeleger em 1986 e continuou ligado à política indígena. Morreu em 2002, aos 58 anos. Abdias tornou-se senador como suplente de Darcy Ribeiro, exerceu mandatos entre 1991 e 1992 e entre 1997 e 1999 e continuou atuando na defesa dos direitos da população negra. Morreu em 2011, aos 97 anos.

