Em Intrusos, de Adrian Tomine, o não-dito funciona como matéria-prima

Somente agora, em 2019, esse muitíssimo singular autor volta às prateleiras brasileiras

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atualizado 03/07/2019 19:06

A primeira vez que tive contato com o trabalho do excepcional quadrinista americano (de ascendência japonesa) Adrian Tomine foi, como deve ter ocorrido com tantos brasileiros, na histórica publicação Comic Book – o Novo Quadrinho Norte-Americano, da editora Conrad, num hoje longínquo 1999. Ali, além de outros cobras como os Irmãos Hernandez, Joe Sacco e Peter Bagge, destacava-se a última história,“Dylan & Donovan, amostra das antigas do material de Tomine, sobre uma sutil e conturbada relação entre um par de irmãs que vão perdendo a confidencialidade uma com a outra através do tempo, diante de um pai hippie e abobalhado, incapaz de compreender as demandas das filhas.

Lembro-me de ficar impressionado com a capacidade desta história em valorizar o não-dito, o poder do silêncio interpessoal, e a ruptura esboroante das relações. Passei muito essa trama em sala de aula, como exemplo irreproduzível de um conto perfeito em quadrinhos.

Pois bem, somente agora, em 2019, esse muitíssimo singular autor volta às prateleiras brasileiras. Cortesia da editora Nemo, que publicou Killing and Dying (2015), também de histórias curtas, sob o título de Intrusos. A mudança no nome diz respeito apenas ao conto que iria intitular o gibi. Matando e Morrendo talvez parecesse um pouco forte, e, em minha opinião, Intrusos é uma alcunha que cai como uma luva para descrever a fauna de personagens desarranjados, às vezes tristes, às vezes alegres e alienados de si próprios que habitam as páginas deste quadrinho. Tomine, trabalhando em levas desiguais a estranheza, o humor, a delicadeza e a melancolia, firmou-se como contador de histórias das reminiscências. O não-dito tornou-se sua principal matéria-prima.

Intrusos está dividido em seis histórias bastante distintas entre si, tantos no formato narrativo, quanto nas técnicas de ilustração e no conteúdo humano. O detalhe “quase imperceptível”, mas percebido, é a tônica. São comuns conversas de casais na cama antes do sono, ou perfis de coadjuvantes dos quais se sabe apenas o suficiente para se tracejar um arquétipo americano, ou o delineamento de relacionamentos abusivos, mas felizes, ou equilibrados, mas infelizes. Tomine trabalha (não apenas nas discretas e opacas paletas de cores) em zonas cinzentas, e é aí que talha sua maestria.

O mesmo tipo de abordagem racional, porém com um olho no instintivo, se dá nos formatos utilizados, diferentes em cada história. É preciso dizer que é comum que se compararem seus trabalhos com autores de literatura. Cada crítico escolhe o seu e carimba a testa de Tomine com um “literário” bem legitimador. Ora, por que eu faria diferente? Seus contos me lembram Clarice Lispector: cada história em um ponto de vista, explorando situações efêmeras/infinitas, deixando perpassar dores escondidas que nem mesmo seus personagens sabem que sentem.

Quando o assunto é quadrinho mesmo, porém, em toda sua pureza, Tomine sabe a quem se referenciar. A primeira história, “Hortiescultura”, fala sobre a obsessão de um jardineiro em inventar um novo tipo de arte, e em como isso vai consumindo aspectos triviais de sua vida. Ele a desenvolve exatamente (em tom, estilo e formato) como a clássica comic strip Gasoline Alley (de Frank King), típica, melancólica e nostálgica versão da vida americana da primeira metade do século 20. O mimetismo gráfico e conceitual é acadêmico e inteligente. Impressiona tanto quanto a história “Triunfo e Tragédia”, sobre um pai que acompanha, com alta suspeição, a entrada de sua filha desajeitada no mundo do stand-up comedy. Ela é desenhada quase inteira numa grade de 4×5 quadros, dando um ritmo intermitente, interessante para retratar a neurose envolvida.

Tomine também não deixa de antever uma visão sobre os EUA contemporâneos, em uma discreta, porém bem pontuada, alusão ao trumpismo e o discurso redneck numa comovente e humana história de um casal de alcoólatras cujo encanto está justamente na soma de seus vícios. Ou nas imagens anônimas, quase sem pessoas, de uma América desfalecente (impossível não pensar em um falido Edward Hopper), a partir da visão de uma mãe japonesa que relata suas primeiras visões desterradas, enquanto seu casamento desmorona.

Lendo este autor mais uma vez (vale indicar também seu ótimo romance gráfico Shortcomings), é impossível não pensar naquela melancolia indecifrável de “Dylan & Donovan” como um tropo, ou seja, um motivo do qual o autor vai se aproveitar ao máximo – vai se embebedar totalmente dele – para fazer nada menos que transformá-lo em fina obra de arte. Todo o resto mora nas entrelinhas.

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