Cármen Lúcia cita conto de Clarice Lispector em sessão no STF. Conheça obra
Cármen Lúcia recorreu a uma referência a Clarice Lispector ao iniciar voto em sessão que discute supostas mensagens entre Moraes e Vorcaro

A ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia recorreu a um trecho de Clarice Lispector ao iniciar seu voto na sessão extraordinária que analisa a abertura de uma investigação contra Alexandre de Moraes. O julgamento, que trata de supostas mensagens trocadas entre o ministro e Daniel Vorcaro no âmbito do Caso Master, ocorre nesta terça-feira (15/9).
“Esses dias dizia a alguns colegas, conversei com o ministro Alexandre, com o ministro André, com vossa excelência [Fachin]… Eu bebi da lição de Clarice Lispector: ‘Eu não me perdi, mas experimentei a perdição’“, disse ela.
A ministra afirmou estar triste não apenas pelo tema em discussão, mas também pelo que classificou como um “mal-estar cívico” provocado pelo Supremo Tribunal Federal nos últimos dias. Ao citar Clarice Lispector, ela disse ter se sentido “perdida” diante da repercussão do impasse envolvendo Alexandre de Moraes e André Mendonça e afirmou que o assunto havia tomado conta das conversas do cotidiano e dos telejornais.
“Eu estou triste, não apenas pelo tema que nos traz aqui, mas porque esse Supremo Tribunal Federal, guarda da Constituição, provocou, acho, um mal-estar cívico em todos os cidadãos brasileiros nos últimos dias”, afirmou.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesNa sequência, a ministra disse que os brasileiros deveriam estar concentrados nas próximas eleições e no futuro do país, mas que, nos últimos dias, só encontrava comentários sobre o que acontecia no STF. “O povo brasileiro deveria estar preocupado, ocupado, focado em ver qual é a eleição geral, qual o seu destino […] E o único assunto que eu via nos lugares que eu entrava, em uma farmácia, padaria, telejornais, era o que estava acontecendo aqui [no STF]”, declarou.
O que Cármen Lúcia citou de Clarice Lispector?
A frase usada por Cármen Lúcia — “Eu não me perdi, mas experimentei a perdição” — faz parte do conto Mineirinho, de Clarice Lispector. Publicado originalmente em 1962, o texto parte da morte de Mineirinho, um criminoso morto pela polícia com 13 tiros, para discutir violência, justiça e a responsabilidade da sociedade diante da brutalidade.
No trecho citado pela ministra, Clarice escreve sobre a identificação da narradora com Mineirinho e sobre a fronteira entre justiça e violência. “Essa coisa, que em Mineirinho se tornou punhal, é a mesma que em mim faz com que eu dê água a outro homem, não porque eu tenha água, mas porque, também eu, sei o que é sede; e também eu, não me perdi, experimentei a perdição”, diz o texto.
O conto é marcado pela reflexão sobre a justiça e pela crítica à ideia de que a violência pode ser simplesmente justificada em nome da ordem. Ao longo do texto, Clarice questiona a chamada “justiça dos homens” e afirma esperar por uma justiça capaz de enxergar o indivíduo antes de reduzi-lo ao crime cometido.
A referência feita por Cármen Lúcia ocorre justamente em um momento em que a ministra afirmou se sentir “perdida” diante do conflito e da repercussão dos acontecimentos envolvendo integrantes do STF.













