Velório de mulher morta por marido na Asa Norte é marcado por revolta

Diva Maria Maia da Silva, 69 anos, foi assassinada a tiros pelo próprio companheiro, que também atirou três vezes no filho

Júlia Bandeira/Especial para o MetrópolesJúlia Bandeira/Especial para o Metrópoles

atualizado 29/01/2019 15:41

Em clima de comoção e revolta, familiares e amigos se despediram de Diva Maria Maia da Silva, 69 anos. A idosa foi assassinada a tiros na manhã de segunda-feira (28/1) pelo próprio marido, o vendedor de carros Ranulfo do Carmo, 74 anos. O velório ocorreu nesta terça (29), na capela 2 do cemitério Campo da Esperança, na Asa Sul.

Coroas de flores brancas e amarelas com mensagens de carinho foram colocadas como adorno na capela. Muito abalados, parentes não quiseram falar com a imprensa e pediram que os jornalistas ficassem afastados.

Enquanto prestavam as últimas homenagens a Diva, eles não tiravam os olhos dos celulares para saber notícias de Régis do Carmo Correia Maia, 47, filho de Diva e Ranulfo. Ele levou três tiros do pai e está internado em estado grave no Instituto Hospital de Base do DF (IHBDF).

Régis não residia no mesmo apartamento em que os pais, mas, de acordo com vizinhos, ia constantemente visitá-los para defender a mãe das agressões de Ranulfo.

A vítima fatal e o filho haviam voltado de Goiânia (GO) na manhã dessa segunda (28). Já no apartamento, os três tiveram uma discussão acalorada. À polícia, Ranulfo justificou ter “perdido a cabeça”. Ele pegou a arma no quarto e disparou cinco vezes contra Régis, que defendia a mãe das agressões do pai.

Assassino frio
Frio e sem remorso algum, Ranulfo do Carmo narrou em depoimento prestado na 2ª Delegacia de Polícia (Asa Norte) os momentos que antecederam os disparos que mataram a companheira, Diva Maia, e feriram o filho Régis do Carmo. Em audiência de custódia realizada nesta terça-feira (29), o autor teve a prisão em flagrante convertida em preventiva. Ele aguardará o julgamento encarcerado.

Durante o interrogatório à polícia, o homem não perguntou ou demonstrou qualquer tipo de sentimento pela morte de Diva. Antes de ser levado para a carceragem do Departamento de Polícia Especializada (DPE), Ranulfo contou que o estopim para a briga foi dois tapas no rosto que teria levado do filho. Em seguida foi ao quarto, pegou o revólver e abriu fogo contra Régis. O crime ocorreu no Bloco E, da 316 Norte, às 10h25 de segunda.

Diva acabou baleada cinco ou seis vezes após Ranulfo recarregar a arma. “Havia projéteis espalhados pela casa e perfurações de bala em diversos cômodos, como na cozinha e na sala. A perícia irá apontar com exatidão quantos disparos foram dados, mas acreditamos que tenham sido pelo menos 12”, afirmou o delegado-chefe da 2ª DP (Asa Norte), Laércio Rossetto.

Imagens mostram fuga
Imagens do circuito interno do prédio onde o casal morava mostram Diva Maria e o filho chegando ao edifício por volta das 10h.

Veja no vídeo abaixo:

O assassino chega 17 minutos depois e sobe. Em seguida, sai do apartamento tranquilamente e entra no veículo usado para fuga. De acordo com o delegado-chefe Laércio Rosseto, Ranulfo tentaria se esconder no Gama, mas foi preso em seu Cross Fox branco na altura da Quadra 8 do Park Way por uma equipe da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) que patrulhava a região em um helicóptero.

Assista ao momento da prisão:

No Distrito Federal, foram registrados 519 casos de violência contra a mulher neste ano (dados até o dia 19/1). Em 2018, 27 mulheres morreram vítimas de feminicídio.

Medida protetiva
Além de ter convertido o flagrante em prisão preventiva em nome de Ranulfo, a juíza Flávia Pinheiro Brandão Oliveira determinou a aplicação de medidas protetivas para todos os filhos do autor dos crimes.

“De mais a mais, os crimes em análise envolvem violência doméstica e familiar contra a mulher e a prisão se justifica pela necessidade de garantia da execução das medidas protetivas de urgência”, afirma a magistrada em sua decisão.

A juíza ainda estipula que caso o autor ganhe a liberdade provisória ele fica proibido de se aproximar dos parentes. “Fica fixado, desde já, como limite mínimo, a distância de 500 metros, proibição de ausentar-se do Distrito Federal por mais de 30 dias, a não ser que autorizado pelo Tribunal de Justiça”, destacou a magistrada.

 

Neste 2019, o Metrópoles inicia um projeto editorial para dar visibilidade às tragédias provocadas pela violência de gênero. As histórias de todas as vítimas de feminicídio do Distrito Federal serão contadas em perfis escritos por profissionais do sexo feminino (jornalistas, fotógrafas, artistas gráficas e cinegrafistas), com o propósito de aproximar as pessoas da trajetória de vida dessas mulheres.

O Elas por Elas propõe manter em pauta, durante todo o ano, o tema da violência contra a mulher para alertar a população e as autoridades sobre as graves consequências da cultura do machismo que persiste no país.

Desde 1° de janeiro, um contador está em destaque na capa do portal para monitorar e ressaltar os casos de Maria da Penha registrados no DF. Mas nossa maior energia será despendida para humanizar as estatísticas frias, que dão uma dimensão da gravidade do problema, porém não alcançam o poder da empatia, o único capaz de interromper a indiferença diante dos pedidos de socorro de tantas brasileiras.

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