Vídeo mostra policial entrando em prédio para matar servidora

Segundo uma amiga da vítima, Debora já havia sido agredida pelo acusado e se escondia do agente, que tirou a própria vida

Reprodução/VídeoReprodução/Vídeo

atualizado 21/05/2019 6:23

O comportamento agressivo do agente da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) Sérgio Murilo dos Santos, 51 anos, deixou a professora da rede de ensino do DF Debora Tereza Correa, 43, em alerta. Ela chegou a mudar de endereço, trocar o número de celular e o local de trabalho, além de tirar todas as correspondências de seu nome para que o ex não a encontrasse.

As medidas tomadas por Debora, no entanto, não bastaram para evitar que fosse vítima de feminicídio. Na manhã desta segunda-feira (20/05/2019), ela foi morta pelo policial dentro do prédio da Secretaria de Educação, na 511 Norte, onde ela cumpria mais um dia de trabalho. O agente tirou a própria vida logo depois.

No local, funciona a sede da Coordenação Regional de Ensino do Plano Piloto e do Cruzeiro. Imagens do circuito interno do prédio reveladas pelo Metrópoles nessa segunda-feira (20/05/2019) mostram o policial entrando no edifício Bittar III às 9h42. Ele se identifica na portaria, passa o cartão na catraca e tem acesso ao edifício. Não foi revistado, já que este não é um procedimento adotado pela pasta.

De acordo com uma amiga de Debora, Sérgio não aceitava o fim do relacionamento. “Ele chegou a ir na escola onde ela trabalhava, para fazer ameaças. Em um dos episódios, foi agredida durante três horas dentro do carro. Os crimes foram denunciados, mas ele não obedecia às medidas protetivas. Sempre conseguia encontrá-la. Não a deixava em paz”, contou a mulher, que pediu para não ser identificada. Ainda de acordo com a amiga, o relacionamento entre os dois teve início em 2017.

Para a mulher, o agente, que tinha passagens e já havia sido condenado, não poderia andar armado. “A polícia tinha conhecimento de que ele era um assassino em potencial. A Debora era uma pessoa incrível. A gente brincava que íamos envelhecer juntas e amigas”, destacou.

O policial chegou a ter o porte de arma suspenso pela Justiça em janeiro de 2018, mas em abril do mesmo ano ele teve de volta o direito de andar armado.

O crime ocorreu no terceiro andar do prédio, por volta das 10h. Houve pânico e correria quando o policial fez os disparos. “Eles discutiram no corredor em frente à sala dela, momento no qual ela se agachou e ele atirou na professora”, ressaltou o secretário de Educação, Rafael Parente, que foi ao local.

Sérgio deu três tiros em Debora e depois tirou a própria vida. Quatro cápsulas da pistola que o agente usava foram encontradas no terceiro andar.

Governador pede mobilização
Em agenda pública nesta segunda (20/05/2019), o governador Ibaneis Rocha (MDB-DF) assumiu o compromisso de lançar uma campanha de conscientização para combater a violência contra a mulher. Segundo o emedebista, as vítimas de agressões e ameaças, seus familiares e amigos precisam denunciar os agressores com mais rapidez às autoridades.

“Eu fico realmente muito entristecido com essa situação. A polícia está apurando. É um crime bárbaro, cruel. Nós estamos fazendo todos os esforços. Mas, infelizmente, vamos ter que fazer muitas campanhas de esclarecimento, para que tenhamos não só as mulheres fazendo as denúncias e se protegendo mas também os vizinhos e os familiares”, disse o emedebista.

De acordo com o governador, é preciso mobilizar toda a sociedade do Distrito Federal para evitar novas mortes. Ibaneis adiantou que o Executivo vai fazer uma grande campanha publicitária para que as mulheres se sintam encorajadas a denunciarem cada vez mais seus agressores. Além disso, planeja discutir novos mecanismos para enfrentar a violência doméstica junto com o Judiciário.

Testemunhas
Uma testemunha que não quis de identificar disse que estava no segundo andar do prédio quando ouviu o barulho dos tiros. “A cena era de terror. Ninguém sabia o que tinha ocorrido. Houve muita gritaria, e pessoas se sentiram mal. Estamos aqui há uma semana. Uma tragédia”, afirmou.

Os servidores estão muito abalados. Muitos passaram mal e tiveram de ser atendidos pelos bombeiros. “Confirmado que foi um caso de feminicídio. O assassino foi namorado da professora. Faremos tudo para amparar a família e os colegas. Todos terão apoio psicológico”, assinalou o secretário.

“Eu trabalhava com ela [Debora] e estou chocada. Não sabíamos muito da vida pessoal dela, mas acreditamos que estava separada”, disse outra pessoa que trabalha no mesmo prédio. Debora era servidora da Secretaria de Educação desde 2001. Trabalhou como professora, mas não estava em sala de aula no momento.

De acordo com o delegado-chefe da 2ª Delegacia de Polícia (Asa Norte), Laércio Rossetto, os disparos foram feitos com uma pistola calibre .40. “Já tinha outras ocorrências registradas da vítima contra o autor, mas não temos conhecimento se havia medida protetiva”, destacou o investigador.

A polícia faz varredura no prédio para ver se imagens do circuito de câmeras de segurança flagraram o agente entrando no edifício e cometendo o crime. O caso será entregue à Corregedoria da PCDF.

Há, segundo o delegado, pelo menos duas ocorrências contra Sérgio. Uma registrada em 2017 e outra em 2018, por ameaça e perturbação da tranquilidade. Uma delas, feita na Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam).

“Estamos muito tristes. A nossa nova sede foi inaugurada há uma semana. Estou em choque com a situação. Na primeira semana, ocorre esse assassinato. Agora queremos trabalhar para que as pessoas se sintam seguras aqui. Para que isso não continue acontecendo nos órgãos”, assinalou outra testemunha.

Segundo um funcionário da secretaria que estava no andar onde a servidora foi morta, o homem “atazanava” a vítima havia pelo menos dois anos. “Ele já foi em outras sedes da secretaria. Perturbava demais. Até a arma dele já tinham tirado dele, por conta disso”, afirmou.

O servidor ainda reclamou das condições do prédio atualmente ocupado pela pasta. De acordo com ele, os funcionários estão ali instalados desde março em condições precárias. “É um em cima do outro e não tem segurança alguma. Está horrível”, reclama, alegando falta de espaço. O prédio passa por obras, justamente para adequar o local à sua destinação.

Ameaça
No prédio, há câmeras de segurança, mas não detector de metais. Em março deste ano, um professor de violino da Escola de Música de Brasília (EMB) invadiu a sede da Secretaria de Educação, no Setor Bancário Norte. Ele estava armado com uma faca e uma besta (espécie de arco e flecha), mesmo equipamento utilizado pelos atiradores do massacre da Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano (SP). Ele também tinha cinco setas dentro da mochila.

O homem subiu até o 12º andar do prédio, localizado no Bloco C da Quadra 2 do Setor Bancário Norte. No pavimento funciona o gabinete do secretário de Educação, Rafael Parente. O chefe da pasta não estava no momento, pois tinha ido ao Palácio do Buriti para se reunir com o vice-governador do DF, Paco Britto. O professor acabou preso e depois foi internado em um hospital psiquiátrico.

Em nota, a PCDF confirmou o envolvimento de um servidor da corporação no feminicídio seguido de suicídio. “A instituição lamenta profundamente o episódio. As circunstâncias estão sendo apuradas e, posteriormente, traremos mais detalhes”, destacou.

Casos de feminicídio
Apenas neste ano, 13 mulheres foram vítimas de feminicídio no Distrito Federal. Em maio, a PCDF computou quatro casos. O penúltimo deles ocorreu na terça-feira (14/05/2019), em Taguatinga.

Henrique Farley Carneiro de Almeida, 36 anos, matou a companheira a facadas e jogou o corpo dela em uma tubulação de esgoto, na chácara Santa Luzia. Maria de Jesus do Nascimento Lima, 29, foi encontrada após a polícia receber denúncias sobre a existência de um cadáver no local.

Na casa da vítima, os investigadores da 21ª Delegacia de Polícia encontraram as palavras “Culpado. Foi ele quem me matou” escritas na parede com caneta esferográfica azul.

Neste 2019, o Metrópoles inicia um projeto editorial para dar visibilidade às tragédias provocadas pela violência de gênero. As histórias de todas as vítimas de feminicídio do Distrito Federal serão contadas em perfis escritos por profissionais do sexo feminino (jornalistas, fotógrafas, artistas gráficas e cinegrafistas), com o propósito de aproximar as pessoas da trajetória de vida dessas mulheres.

O Elas por Elas propõe manter em pauta, durante todo o ano, o tema da violência contra a mulher para alertar a população e as autoridades sobre as graves consequências da cultura do machismo que persiste no país.

Desde 1° de janeiro, um contador está em destaque na capa do portal para monitorar e ressaltar os casos de Maria da Penha registrados no DF. Mas nossa maior energia será despendida para humanizar as estatísticas frias, que dão uma dimensão da gravidade do problema, porém não alcançam o poder da empatia, o único capaz de interromper a indiferença diante dos pedidos de socorro de tantas brasileiras.

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