Ativista acusa João de Deus de traficar bebês e escravizar mulheres

Sabrina Bittencourt atua junto a vítimas de abusos sexuais e conseguiu unir mulheres para denunciar o médium de Abadiânia (GO)

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atualizado 11/01/2019 15:58

A ativista Sabrina Bittencourt, da força-tarefa Somos Muitas, forneceu, nesta segunda-feira (7/1), informações ao Ministério Público de São Paulo (MPSP) sobre supostos novos crimes praticados por João de Deus. Ela já havia gravado um vídeo divulgado em sua rede social em 3 de janeiro, afirmando que o médium integrava uma quadrilha que traficava bebês e escravizava mulheres há 20 anos.

Segundo Sabrina, foram recolhidos vários relatos de mães adotivas, de países europeus, dos Estados Unidos e da Austrália. Os bebês teriam sido comprados por “20 mil e 50 mil dólares”. A venda era “intermediada por guias turísticas espirituais, ex-funcionárias e cidadãos de Abadiânia que já estão fartos de serem coniventes, de forma coagida, com a quadrilha de João de Deus”, conta a ativista.

Segundo ela, também há mulheres que são utilizadas como escravas sexuais. “Em geral, mulheres negras de baixa renda, tanto em Abadiânia quanto em Anápolis e no norte de Minas, que viviam próximas dos garimpos ilegais de João de Deus”. Sabrina afirma que, em troca de comida para suas crianças, as mulheres eram forçadas a engravidar, para que os bebês fossem vendidos no mercado obscuro de outros países.

Como Sabrina mora fora do país, a conversa com o Ministério Público foi feita por teleconferência. Ela não informou onde está, pois, segundo contou, está sendo alvo de ameaças. Em troca de e-mails com o MPSP, Sabrina autorizou a utilização de relatos e documentos.

Não moro em nenhum país. Vivo em trânsito porque sofro ameaças de morte há meses

Sabrina Bittencourt, ativista

Na tarde desta segunda (7), a ativista também esteve em contato com o Ministério Público de Goiás (MPGO), que comanda a força-tarefa à frente da investigação do caso.

Sabrina Bittencourt ainda acusa o médium de crimes como tráfico de influência, ameaças de morte, abuso, estupro, pedofilia e tráfico de pedras preciosas e semipreciosas.

“Anexei todas as evidências e provas dos relatos que recebi com as devidas autorizações das testemunhas, vítimas, ex-funcionários, voluntários, cidadãos de Goiás. Pelo presente, informo que solicitei a imediata investigação das autoridades do Brasil em cada uma das evidências apresentadas”, afirmou, em vídeo postado no Facebook.

Confira o vídeo:

 

A promotora Gabriela Mansur, do MPSP, disse ao Metrópoles que a ativista apresentou conteúdo relevante sobre o caso e afirmou que as informações serão investigadas pelas autoridades competentes. Como há menção a estrangeiros e a fatos ocorridos em outros países, há possibilidade de que a Polícia Federal seja acionada.

“Foi uma oitiva informal. Ela apresentou alguns fatos, alguns nomes, algumas provas. Tudo isso será encaminhado para os órgãos competentes. Tudo vai ser apurado”, afirmou a promotora.

Procurado pela reportagem para comentar as denúncias, o advogado de João de Deus, Alberto Toron, disse que “são acusações gravíssimas, porém, além de inverossímeis, desacompanhadas de qualquer prova”.

“Assim, não merecem sequer consideração, a não ser, é claro, no que diz com a propositura de uma ação penal para apuração de crimes contra a honra”, finalizou.

Habeas corpus
A defesa de João de Deus protocolou uma petição nesse domingo (6/1) contestando o parecer da procuradora-geral da República, Raquel Dodge, no pedido de habeas corpus feito ao Supremo Tribunal Federal (STF). No sábado (5), Dodge reiterou seu posicionamento contra a prisão domiciliar solicitada pelos advogados, que consideram a prisão preventiva do cliente “desnecessária”.

João de Deus está preso no Complexo Prisional de Aparecida de Goiânia (GO). O pedido de uma nova manifestação da PGR foi feito pelo presidente do STF, Dias Toffoli, depois que o Tribunal de Justiça de Goiás (TJGO) apresentou informações sobre o estado de saúde do médium. Está nas mãos dele a decisão sobre o pedido feito em favor do líder espiritual.

No dia 21, a Justiça determinou mais uma prisão, dessa vez por posse ilegal de arma de fogo, mas o TJGO concedeu habeas corpus liminar ao acusado pelo crime. O juiz substituto Wilson Safatle Faiad ressaltou “questões humanitárias” e reforçou que o réu é idoso e está debilitado por motivo de várias doenças graves.

Denúncia
O Ministério Público de Goiás apresentou à Justiça, no dia 28 de dezembro, a primeira denúncia contra João Teixeira de Faria.

A acusação do MPGO foi feita com base em quatro casos relatados entre abril e outubro deste ano, sendo dois por violação sexual e dois por estupro de vulnerável.

Outros 10 relatos, que prescreveram, são descritos no documento para ajudar a comprovar o modo de agir do médium. Cinco vítimas também constam da denúncia, mas os depoimentos delas precisam de diligências para serem confirmados.

O médium prestou o primeiro depoimento no MP no dia 26 de dezembro. Ele afirmou que não se lembra das mulheres que o acusam de violência sexual, uma vez que atendia aproximadamente 1,5 mil pessoas por sessão. Também negou ter praticado qualquer tipo de abuso contra suas seguidoras, segundo o advogado Alberto Toron.

Bloqueio de bens
O Tribunal de Justiça de Goiás determinou o bloqueio de R$ 50 milhões em bens do médium. A decisão tem o objetivo de garantir eventuais indenizações. O dinheiro será usado para reparação das vítimas, caso o líder espiritual seja condenado por abusar sexualmente das denunciantes, bem como para evitar ocultação e dilapidação patrimonial.

De todo o valor bloqueado, R$ 20 milhões estariam destinados às mulheres, e R$ 30 milhões iriam para danos morais e coletivos. A medida cautelar foi assinada pela juíza Marli de Fátima Naves e determina que sejam bloqueados os veículos e imóveis não apenas do médium mas também da Casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia.

Durante 2019, o Metrópoles se dedicará a escrever todas as trajetórias de vida das mulheres que vão sangrar enlaçadas em relacionamentos nocivos. O olhar feminino e sensível das profissionais envolvidas no projeto irão humanizar as estatísticas frias, incapazes de criar empatia. Só ela pode interromper a indiferença diante das agressões à mulher. Um contador em destaque na capa do portal marca diariamente esses casos a fim de lembrar que há um longo caminho para acabar com esse ciclo de violência.

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