Mãe cria campanha após perder filho em cachoeira

Virgínia Miranda criou a #cachoeirasseguras para evitar que outras mães passem pela dor de perder um filho como aconteceu com ela

atualizado 31/07/2017 20:36

Giovanna Bembom / Metrópoles

Brasília é cercada de convites para o turismo de aventura. São inúmeras trilhas e cachoeiras a poucos quilômetros da capital. Esses locais, porém, nem sempre oferecem a segurança necessária para os frequentadores. Falta sinalização, brigadistas e guias capacitados para orientar os visitantes.

Além disso, os próprios turistas nem sempre respeitam os limites: ultrapassam faixas de segurança e escalam precipícios em busca de uma foto bonita ou da melhor vista. Essa combinação resulta em acidentes e mortes.

Em 2015, 60 pessoas se afogaram no DF em locais como o Poço Azul e o Lago Paranoá. No ano seguinte, foram 68 ocorrências atendidas pelo Corpo de Bombeiros. Este ano, até o mês de junho, 31 pessoas se acidentaram enquanto se divertiam em parques, trilhas e cachoeiras. O CBMDF não informou quantas mortes foram registradas.

As notícias sobre esse tipo de fatalidade estão cada vez mais frequentes. Na segunda-feira (24/7), Daniela Cavalcante, 23 anos, morreu afogada no Salto de 80 Metros, na Chapada dos Veadeiros. Em 3 de março, José Rodrigues de Souza Júnior foi encontrado morto no Poço Azul, próximo ao Núcleo Rural Lago Oeste.

No mesmo local, em julho de 2016, Vinicius Nascimento Silva Parente tentou pegar um chinelo que havia caído na água, escorregou e despencou de uma altura de aproximadamente 20 metros. Ele sofreu múltiplas fraturas e morreu quase um ano depois, ainda internado.

É por todas essas pessoas — e pelas vidas que podem ser salvas — que a brasiliense Virgínia Miranda iniciou a campanha #cachoeirasseguras. A motivação é triste: o filho dela, Carlos Brasileiro Pita, o Cacá, 31, morreu durante uma trilha na Cachoeira Indaiá, na fazenda Citates, a 75 km de Brasília, em 2016.

Cacá era professor de física na rede pública de ensino do DF e jogador de polo aquático, além de adepto ao turismo de aventura. Saiu de casa em 24 de dezembro, no primeiro dia de suas férias, para fazer uma trilha. A família o esperava para a ceia natalina, mas Cacá, que sempre estava presente nessas ocasiões, não apareceu.

Virgínia logo se desesperou. Ligou diversas vezes para o filho e viveu o pesadelo de toda mãe, quando não recebeu resposta do outro lado da linha. No dia 25, ao invés de celebrar o nascimento de Jesus, como planejado, a família passou horas na delegacia, registrando o desaparecimento do filho mais velho.

“Uma amiga do Cacá descobriu que ele tinha convidado um colega para ir à cachoeira, mas acabou fazendo o passeio sozinho. Nós então avisamos os bombeiros”, lembra Virgínia. Em 26 de dezembro, o corpo de Cacá foi encontrado. A perícia apontou que ele escorregou, caiu de um barranco e bateu a cabeça.

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Ao começar o passeio, Cacá preencheu uma ficha a hora de entrada e um contato para emergências. Chegou a escrever nome e telefone da mãe neste campo, mas riscou as informações e as substituiu pelos dados do pai. “Ele deve ter pensado em como eu me sentiria nessa situação”, afirma Virgínia. A saída do físico não foi registrada na lista de visitantes da cachoeira, mas mesmo assim nenhuma busca foi feita.

É uma angústia muito grande saber que ele só foi encontrado dias depois, que o carro dele estava no estacionamento da cachoeira o tempo todo e ninguém foi procurá-lo

Virgínia, mãe do Cacá

Logo após cremar o corpo do filho, Virgínia iniciou uma mobilização nas redes sociais. A #cachoeirasseguras surgiu do desejo de evitar que outras famílias vivam a mesma tristeza. “As cachoeiras são o mar de Brasília, visitá-las é um hábito de muita gente da cidade. As mortes infelizmente continuam. A gente sempre se depara com notícias de que alguém, geralmente jovem, se acidentou durante um momento de lazer”, ressalta.

Virgínia passou a compartilhar nas redes sociais e por meio de panfletos informações sobre segurança no turismo de aventura. Mas pretende ainda desenvolver um selo de qualidade para as cachoeiras do DF e Entorno. Ela sugere, por exemplo, que seja exibido um vídeo com instruções aos visitantes — como já é feito em alguns locais na Chapada dos Veadeiros. Ela também ressalta a importância de ter equipes de brigadistas de prontidão, algo que não ocorre atualmente.

Além disso, ela acredita que os locais mais acidentados, como a trilha onde Cacá morreu, deveriam oferecer passeios guiados e equipamentos de segurança. “Melhorar a sinalização nas trilhas e reforçar os avisos sobre perigos também poderia poupar vidas”, acrescenta.

Há sete meses, Virgínia convive com o luto. Ela faz parte do grupo “A vida continua”, para dar apoio a familiares que perderam algum ente querido. Os sonhos de Cacá ficaram pelo caminho: ele havia acabado de ser aprovado em um mestrado e tinha passagem comprada para a Alemanha, pois amava viajar. Queria seguir sua banda favorita, o Pink Floyd, pelo mundo.

Agora, a mãe espalha as cinzas do filho em várias cidades diferentes. Há partes no Parque Olhos D’Água, na Asa Norte, onde ele gostava de caminhar, outras em uma cachoeira da Chapada dos Veadeiros e uma amiga levou parte das cinzas de Cacá até a Flórida e a Alemanha.

Dicas de segurança

Na água

  • Em água rasa ou desconhecida sempre entre primeiro com os pés
  • Nunca mergulhe de cabeça
  • Evite ingerir bebida alcoólica ou outras drogas
  • Aprenda sobre emergências aquáticas (como prevenir e reagir)
  • Cuidado com o limo e o barro liso
  • Em lugares de serra, fique atento a cabeças d´água
  • Ao primeiro sinal de presença de galhos, mudança repentina de cor da água e aumento súbito na vazão do nível do rio, saia imediatamente da água e da margem do rio
  • Se você cair no rio, não lute contra a correnteza, guarde suas forças, flutue e acene por socorro
  • Não tente entrar na água para salvar alguém, chame socorro no 193, jogue algum material flutuante e aguarde profissionais
  • Se você socorrer alguém, jogue uma corda na água com algum objeto flutuante na ponta, amarre a outra extremidade se possível e a mantenha firme após a vítima segurá-la

Fonte: Sociedade Brasileira de Salvamento Aquático

Em trilhas

  • Nunca vá sozinho
  • Conheça bem o lugar
  • Avise seus familiares (hora de saída, local e hora de retorno)
  • Analise as dificuldades e estude ações para casos de acidente
  • Use equipamentos de segurança
  • Trilhas simples: use calçados, roupas adequadas, mapa, bússola e telefone carregado
  • Trilhas em serras e próximas a cânions: leve os itens anteriores, além de luvas, capacete, cordas, facão, bastão de caminhada. Use coletes se passar pela água.
  • Trilhas dentro de cursos d´água: use todos os itens citados anteriormente, além de faca e lanterna. Comida, sempre um pouco mais do que irá precisar, separando em dois grupos: prontas e as que dependem de água e fogo para preparo.
  • Leve no mínimo quatro litros de água para cada dia, se não houver fontes pelo caminho (nesse caso basta um litro portátil e um purificador de água químico).

Fonte: www.facebook.com/ntrilha por Vinícius Papa

*O Metrópoles entrou em contato por telefone com a Fazenda Citates para falar sobre segurança no local, mas não recebeu retorno das ligações até a publicação desta matéria.

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