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Turismo

Casal embarca em motorhome e conta a experiência de viver sobre rodas

Lucas e Maíra deixaram seus empregos e endereço em São Paulo para conhecer o Brasil de carro, sem data para voltar para casa

11/04/2021 04:45, atualizado 18/06/2021 17:06
Casal embarca em motorhome e conta a experiência de viver sobre rodas
Casal embarca em motorhome e conta a experiência de viver sobre rodas

Viajar pelo mundo com uma casa nas costas pode parecer um sonho inalcançável, exclusivo de almas livres e extremamente corajosas. No entanto, não é segredo que o isolamento social, imposto pela Covid-19, aguçou os desejos de nomadismo até do mais ávido amante da rotina. A liberdade de pegar suas coisas e cair na estrada pode parecer um projeto utópico, mas o casal Maíra Reis e Lucas Sampaio decidiu torná-lo realidade.

A decisão de trocar a rotina caótica em um grande centro urbano para viver a experiência de conhecer o Brasil inteiro sobre quatro rodas virou um plano concreto. Após um bom tempo de reflexão, eles pediram demissão de seus empregos em São Paulo, deixaram o aluguel do apartamento e “se mudaram” para um motorhome, abraçando um novo estilo de vida: com uma “residência móvel”, sem endereço fixo e sem data para voltar para casa.

Com o nome “Adiantes”, o projeto ganhou identidade. Há pouco mais de sete meses na estrada, o casal já visitou 19 estados, no Sudeste, Centro-Oeste, Norte e Nordeste. Em cada passo da estrada, eles cultivam lembranças memoráveis. Depois de deixar o solo paulista, o casal já cruzou Minas Gerais, entrou no Nordeste pela Bahia e explorou paisagens banhadas pelo rio São Francisco.

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Em seguida, partiram para o Norte, onde conheceram as dunas, fervedouros e rios que compõem o leque de atrações do Jalapão, um dos destaques do Tocantins. De lá, partiram para o Centro-Oeste, passando por destinos como o Parque Terra Ronca, a Chapada dos Veadeiros e a capital federal. Agora, eles estão no Sul, e se encantaram pelo litoral e pela serra catarinense.

Desde o início, o modelo minimalista do motorhome era etapa crucial no desenho de conhecer cada pequeno tesouro em território brasileiro. “Os parques nacionais e estaduais espalhados por todo o país foram destinos recorrentes também para conciliarmos os atrativos de beleza natural que buscávamos com o distanciamento social necessário”, compartilhou Lucas.

Em tempos de pandemia

No entanto, quando as preparações para a partida estavam a todo vapor, a pandemia chegou como uma surpresa. Os respectivos empregos já estavam para trás, o carro comprado e em plena adaptação interna (móveis, isolamento térmico, hidráulica e elétrica). A partir dali só havia um caminho a seguir: em frente ou adiante, como o próprio nome do projeto faz referência.

É natural que o projeto tenha necessitado adaptações. A data de início da viagem mudou do início de maio de 2020 para o meio de agosto, enquanto eles acompanhavam o cenário da pandemia no país. O trajeto também sofreu alterações e os planos de desbravar o continente sul-americano foram adiados até segunda ordem. Como resultado, a experiência ganhou mais calma e tranquilidade, em períodos maiores nos diferentes destinos brasileiros.

Moradia adaptada

O casal ganhou um tempo necessário em meio a tamanha lista de desafios e novidades. Entre os aprendizados, Lucas coloca no topo a necessidade de se adaptar a um novo estilo de vida. “Nossa primeira casa própria foi itinerante”, pontua. É no carro que eles dormem, viajam e fazem as refeições — garantindo, inclusive, o distanciamento social tão necessário.

Como a ferramenta mais importante do quebra-cabeças, o automóvel escolhido precisou passar por mudanças para deixar de ser apenas um veículo e ganhar a característica, também, de moradia. A primeira delas foi uma barraca de teto, confortável para as noites de sono. Boa parte da região interna do veículo também foi alterada. Os bancos e o porta-malas deram espaço para um sofá cama adaptável, geladeira, pia, reservatório de água e vários armários para poder estocar alimentos.

O toque final ficou por conta do decór afetivo, orquestrado por eles. “Acompanhamos outros viajantes e discutimos cada detalhe, desde a organização dos equipamentos, cor da madeira, estofado, a parte elétrica e hidráulica”.
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Histórias emolduradas pelo rio

Entre algumas das experiências mais marcantes, Lucas e Maíra relatam os encontros com pessoas de diferentes estados do Nordeste, que tem características diferentes — mas cultivam um relacionamento próximo, cada um à sua maneira, com o rio São Francisco.

“Ao longo da estrada, é incrível admirar as mudanças de paisagens no Nordeste. Uma hora, você se vê cercado por praias de areia fofa. Depois, está no meio de cenários áridos”, relata.

O litoral potiguar também foi um espetáculo à parte, famoso pelas belezas de suas muitas praias, quase sempre de águas cristalinas e mornas. Já em Sergipe, a história ganhou vida em contato com as lendas do cangaço. Lá, fica a Grota do Angico, na área onde Lampião e seu bando foram pegos. Há guias que contam a história em detalhes.

“Você fica verdadeiramente imerso no enredo. Nos ensinaram sobre as plantas do lugar, a história dos cangaceiros e sobre como eles viviam. Ficamos bastante reflexivos — nos questionamos se eles eram revolucionários ou vilões”, compartilha Lucas.

Na Bahia, conhecer as Dunas de Casanova foi uma experiência marcante. Entre as areias brancas, o destino guarda fios de água doce e límpida, em contraste com o calor típico do Nordeste e o vento suave que toma conta do lugar.

Nas cavernas e chapadas

Descendo do oeste baiano, a primeira parada foi o impactante Parque Estadual Terra Ronca. Por lá, descansam algumas das maiores cavernas da América Latina. O nome é uma referência ao som que ecoa dos rios que atravessam as cavernas, e do barulho das cachoeiras que despencam no interior das grutas.

O lugar é um misto de mistério, natureza intocável e um mundo subterrâneo que parece ter se formado à parte do restante do planeta.

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Chapada dos Veadeiros
Chapada dos Veadeiros
Parque Estadual Terra Ronca
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Parque Estadual Terra Ronca

Reprodução/Instagram @adiantes
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Chapada dos Veadeiros

Reprodução/Instagram @adiantes
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Chapada dos Veadeiros

Reprodução/Instagram @adiantes

De lá, partiram para São Jorge, na Chapada dos Veadeiros. “É um cenário impressionante. Desde o tamanho das cachoeiras até a organização e preparo do Parque Nacional para receber os visitantes”, pontua Lucas.

Amigos pelo caminho

Tão importantes quanto as experiências e destinos, Lucas e Maíra destacam a amizade que fizeram com os nativos dos locais que visitaram. Em Minas Gerais, por exemplo, o dono de um camping alegrou-se tanto em recebê-los, que decidiu nem cobrar pela estadia, porque estava feliz apenas em ajudá-los na trajetória.

“Esse encontro com pessoas que estão querendo te ajudar, da maneira mais sincera possível, é uma troca muito marcante. Muitas experiências, momentos, cantos e pessoas já inesquecíveis estão naturalmente vindo ao nosso encontro enquanto caminhamos pelas regiões que sempre sonhamos conhecer no Brasil”.
Reprodução/Instagram
Serra da Capivara (PI)
Viajando neste estilo

Durantes os quase cinco meses de preparação antes de cair na estrada, Lucas e Maíra consultaram diversos sites, redes sociais e aplicativos que reúnem donos de motorhomes, em busca de informações sobre as adaptações no veículo, melhores lugares para acampar, estradas indicadas para percorrer e dicas do que levar a bordo.

Tamanho preparo foi fundamental para garantir a segurança deles durante o longo período de viagem. O casal também fez viagens em trajetos menores, para se adaptar às particularidades do carro, e aprenderam sobre como fazer pequenos ajustes elétricos e hidráulicos. No último fim de semana, eles lançaram um site com dicas.

“Determinar o ritmo de uma viagem como essa é aproveitar tudo de bom que ela traz, com calma e leveza; sem nos pressionarmos com datas, horários e locais pré-definidos. Desta vez, deixamos muito mais espaço para o imprevisto e para o inédito”.

A convivência e a organização também se mostraram exercícios diários na vida sobre rodas. Além de toda a adaptação aos espaços reduzidos e às adversidades e mudanças que se apresentam pelo caminho, também é necessário desenvolver ainda mais as habilidades de convivência.

Eles precisaram se readaptar a um modelo minimalista, sem alguns detalhes da vida cotidiana, que não são para todo mundo. Até na alimentação, foram necessários alguns ajustes até para comer na estrada. Atoleiros, pneus furados e o trato com alguns mecânicos com diferentes modos de enxergar os problemas também são experiências de constante aprendizado, segundo Lucas. Segundo o engenheiro agrônomo, “a experiência é para qualquer um que estiver disposto a vivê-la”.

Embora a lista de desafios seja extensa, os aprendizados certamente compensam. “Muito do que queremos levar é essa simplicidade que você vê nas pessoas — para resolver problemas, enxergar novas visões e ter outras perspectivas. É sobre começar a ouvir de fato. Se sairmos dessa jornada como pessoas melhores, já valeu muito a pena”.