Trend do "bicho na barriga" pode afetar a confiança da criança
Psicóloga alerta para os riscos de estratégias baseadas no medo e na mentira, como a trend que viralizou nas redes

Uma nova trend nas redes sociais tem chamado a atenção por mostrar crianças sendo assustadas pelos próprios pais. Nas publicações, os adultos fingem que há um “bichinho” na barriga dos filhos por meio de um vídeo de ultrassom falso espelhado na TV.

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Ver todasA ideia é fazer com que os pequenos acreditem que comeram muito doce ou algum outro alimento não saudável. Muitos deles, inclusive, reagem com medo ou choro.
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Apesar de ser tratada como brincadeira, a trend levanta um alerta: o uso do medo ou de mentiras para incentivar a obediência de crianças.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles Vida & EstiloO que a psicologia diz
Ao Metrópoles, a psicóloga Leninha Wagner explica que é comum que pais recorram a histórias, ameaças ou “brincadeiras” para tentar fazer os filhos obedecerem. Mas, ao pensar no desenvolvimento emocional e cognitivo, a pergunta que fica é: a que custo?
É justamente essa mudança de perspectiva que ajuda a compreender por que estratégias baseadas no medo ou na mentira merecem uma reflexão cuidadosa.
“Na infância, os pais são a principal referência de segurança e de compreensão do mundo. A criança acredita no que eles dizem porque ainda não possui repertório cognitivo suficiente para questionar criticamente muitas informações. Quando um adulto afirma que há um ‘bicho na barriga’ porque ela comeu muito doce, a criança interpreta isso como real.”
Segundo Leninha, quando uma orientação vem acompanhada de medo intenso, o que tende a ser consolidado não é o entendimento sobre alimentação saudável, mas a experiência emocional de ameaça.
“Em vez de compreender por que determinados alimentos devem ser consumidos com moderação, a criança pode passar a associá-los ao perigo, à culpa ou à ansiedade“, diz a PhD em neurociências.
Confiança entra em jogo
Além disso, estratégias baseadas no engano podem comprometer um dos pilares mais importantes do desenvolvimento infantil: a confiança.
“Quando a criança percebe que foi enganada, algumas riem e seguem em frente; outras podem experimentar vergonha, insegurança ou passar a questionar a credibilidade dos adultos justamente em situações nas quais essa confiança é essencial”, explica Wagner.
Outro aspecto importante é que a obediência obtida pelo medo costuma ser circunstancial. “A criança deixa de fazer algo para evitar uma ameaça, não porque compreendeu o motivo daquele limite. Isso reduz as oportunidades de desenvolver autonomia, pensamento crítico e autorregulação, habilidades que sustentam escolhas saudáveis ao longo da vida.”
Em outras palavras, o medo pode produzir obediência imediata, mas dificilmente promove aprendizagem duradoura.
Como os pais podem impor limites de forma respeitosa?
De acordo com a psicóloga, ensinar com respeito não significa educar sem limites e, sim, construir limites que façam sentido para a criança, preservando sua segurança emocional e fortalecendo a relação de confiança com quem cuida dela.
Abaixo, confira algumas dicas para conseguir impor limites de forma respeitosa:
- Explique os efeitos do excesso de doces de forma simples e adequada à idade da criança.
- Evite recorrer a histórias assustadoras ou mentiras para incentivar a obediência.
- Estabeleça regras claras e previsíveis.
- Acolha a frustração da criança sem deixar de manter os limites.
- Ofereça escolhas dentro de opções previamente definidas para estimular a autonomia.
- Dê o exemplo com hábitos alimentares saudáveis e uma relação equilibrada com os limites e as emoções.
“No fim das contas, educar não é provocar medo para obter obediência. É construir conhecimento, segurança e confiança para que, aos poucos, a criança consiga fazer boas escolhas mesmo quando os pais não estiverem por perto”, finaliza a profissional.













