Off Campus e mais: o sucesso dos personagens escritos por mulheres

A “paixão” por personagens literários pode revelar um cansaço emocional profundo vivido por muitas mulheres, afirmam especialistas

atualizado

metropoles.com

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Divulgação/Prime Video
Off Campus
1 de 1 Off Campus - Foto: Divulgação/Prime Video

O sucesso da série literária Off Campus, disponível na Amazon Prime Video, reacendeu a paixão de muitas leitoras por personagens fictícios. Mas o que explica esse envolvimento emocional tão intenso? A resposta, para muitas pessoas, está no fato de que personagens criados por escritoras e produções dirigidas por mulheres costumam apresentar homens mais sensíveis, emocionalmente disponíveis e atentos às necessidades afetivas das protagonistas.

De acordo com a psicóloga Priscila Gatti, é importante reconhecer que personagens literários, especialmente aqueles escritos por mulheres, carregam um componente de idealização.

Muitas vezes, a autora cria um personagem que reúne características emocionalmente muito desejáveis: atenção, vulnerabilidade, capacidade de comunicação e admiração genuína pela parceira.

Cena de Off Campus (Amores Improváveis)
Cena de Off Campus (Amores Improváveis)

“Quando outras mulheres leem essas histórias e se apaixonam pelos personagens, isso acontece porque elas também reconhecem nesses homens algo que desejam encontrar na vida real. Esses personagens observam a mulher, prestam atenção e percebem detalhes da personalidade… isso toca em algo muito profundo, porque muitas mulheres sentem falta desse tipo de presença nas relações.”

Embora essa tendência esteja cada vez mais forte, Priscila ressalta que isso não significa que homens reais sejam incapazes desse tipo de comportamento. Segundo ela, existe uma socialização masculina que frequentemente desencoraja a vulnerabilidade, a sensibilidade emocional e a comunicação afetiva.

Muitos homens aprendem a desejar mulheres, mas não necessariamente aprendem a admirar mulheres.

Priscila Gatti
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Mulheres não estão exigindo demais

Renata Fornari, especialista em autodesenvolvimento e autoamor, explica ao Metrópoles que esse fenômeno revela, na verdade, um cansaço emocional profundo vivido por muitas mulheres. Segundo ela, o sucesso desses personagens não está ligado apenas à fantasia romântica, mas também ao desejo por relações mais genuínas e emocionalmente disponíveis.

“Mulheres não estão exigindo demais. Elas só estão cansadas de relações superficiais, frias e emocionalmente indisponíveis. Talvez o sucesso desses romances diga menos sobre fantasia e mais sobre a necessidade real de viver conexões mais verdadeiras”, diz a expert.

Para Renata, a ficção muitas vezes vira um espaço seguro para acessar emoções que muitas mulheres aprenderam a esconder para não se decepcionar, não se machucar ou não parecer “sensível demais”.

Preocupação social diante de uma nova idealização masculina

A psicóloga Priscila Gatti acredita que personagens literários podem, sim, influenciar a forma como as pessoas enxergam relacionamentos. Porém, ela afirma ser importante diferenciar expectativa irreal de necessidade emocional legítima.

Além disso, a especialista chama atenção para um ponto importante: existe hoje uma preocupação muito maior quando mulheres passam a desejar homens emocionalmente disponíveis do que havia quando a cultura romantizava homens agressivos, frios, tóxicos ou abusivos.

“Nos anos 2000, vimos uma enorme quantidade de filmes, séries e livros em que o homem idealizado era ciumento, controlador, emocionalmente inacessível e até violento. Isso foi amplamente normalizado. Esses personagens eram vendidos como intensos, misteriosos, masculinos e desejáveis.”

Gatti acrescenta: “Toda fantasia precisa ser acompanhada de senso crítico e maturidade. Mas também acho importante perguntar por que expectativas emocionais básicas, às vezes, são tratadas como irreais, enquanto dinâmicas profundamente problemáticas foram romantizadas durante décadas sem gerar o mesmo incômodo.”

Imagem colorida de Mika Abdalla e Stephen Thomas Kalyn como Allie e Dean na 1ª temporada de Off Campus - Metrópoles
Allie Hayes (Mika Abdalla) e Dean Di Laurentis (Stephen Thomas Kalyn) na 1ª temporada de Off Campus

Homens reagem à idealização dos personagens literários

Priscila Gatti compartilhou um post no Instagram sobre o tema que ultrapassou 45 mil curtidas e reuniu centenas de comentários. Além da identificação de muitas mulheres com o assunto, chamou atenção a comparação feita por alguns homens entre personagens literários e atrizes pornôs.

Segundo eles, esperar que homens reais sejam parecidos com personagens de livros seria o equivalente a esperar que mulheres reais se pareçam com figuras da pornografia.

Para Priscila, essa comparação é problemática. “Quando muitas mulheres falam sobre homens literários, geralmente estão falando de características emocionais e relacionais. Elas não estão dizendo que querem um homem sem defeitos. Já a lógica pornográfica, historicamente, esteve muito mais ligada à objetificação do corpo feminino e à performance sexual feminina.”

Mulheres ainda querem relações reais

Grande parte das mulheres que consomem romances continua desejando relações reais, complexas e humanas. Elas sabem que homens reais terão falhas, limitações e imperfeições.

Segundo a especialista Renata Fornari, é importante lembrar que personagens literários são construídos para provocar encantamento emocional. Já a vida real envolve conflitos, limites, vulnerabilidades e imperfeições naturais das relações humanas.

“O ponto saudável é quando a ficção funciona como inspiração, e não como fuga da realidade. Quando ela ajuda a mulher a reconhecer o que merece sentir, sem perder a capacidade de construir relações reais, possíveis e verdadeiras”, finaliza.

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