Movimento propõe pacto para adiar que crianças usem celular

O movimento visa um acordo entre famílias para adiar o uso de celulares e redes sociais para crianças e adolescentes

atualizado

metropoles.com

Compartilhar notícia

Pexels
criança / celular
1 de 1 criança / celular - Foto: Pexels

O uso excessivo de celulares e redes sociais por crianças e adolescentes tem acendido um alerta entre especialistas em saúde mental e educação. Em meio a esse cenário, cresce o debate impulsionado pelo chamado Movimento Desconecta, que propõe uma reflexão coletiva sobre limites, tempo de tela e o papel das famílias no acompanhamento da vida digital dos jovens.

A discussão ganhou força após documentários e programas de TV exporem como algoritmos são projetados para prender a atenção dos usuários — inclusive crianças. Desde então, pais, educadores e pesquisadores passaram a questionar o impacto desse consumo intenso na formação emocional e social das novas gerações.

A idade em que uma criança ganha o primeiro celular pode influenciar diretamente sua saúde mental e emocional

O projeto começou com a criação de um grupo de WhatsApp na escola dos filhos para conversarem sobre o tema. Desse grupo, seis mães se juntaram e decidiram trazer o tema ao público, com a proposta de motivar a todos gerando um grande acordo entre as famílias: não dar celular para seus filhos, pelo menos até 14 anos e acesso a redes sociais pelo menos até 16 anos.

Pressão social é o que mais afeta

Para Juliana Lobão, que lidera o movimento na escola do filho, o maior desafio não é apenas a vontade da criança — é a pressão coletiva. Mãe de um menino de 6 anos, ela ainda não vive diretamente o famoso “todo mundo tem, menos eu”, mas acompanha de perto o dilema de mães de filhos mais velhos. “Os pais sabem dos riscos, leem pesquisas, entendem os impactos. Mas quando todos os amigos começam a ter celular e a socializar virtualmente, muitos acabam dizendo ‘sim’ por medo da exclusão.”

O objetivo do projeto é evitar que crianças cada vez mais novas fiquem expostas aos riscos da hiperconectividade

“É muito mais fácil adiar se for um combinado coletivo. Em vez de dizer ‘sim’, por que não dizer ‘ainda não’, juntos? Não é proibir. É só adiar.”

Juliana decidiu implementar o Desconecta ainda no ensino infantil justamente para que, quando as crianças atingirem a fase dos 9 aos 12 anos — período em que a pressão costuma se intensificar — a cultura já esteja diferente.

Segundo ela, há comprovação científica de que celulares e redes sociais expõem crianças e adolescentes a conteúdos nocivos e altamente viciantes, com impactos na cognição, memória, relacionamentos e saúde física — incluindo miopia, obesidade e transtornos alimentares — além de ansiedade e depressão.

Pesquisas recentes apontam os malefícios do uso precoce e excessivo de celulares e redes sociais por crianças e adolescentes

Experiência dentro de casa

Já para Manuela Bertoletti, que começou praticamente em “voo solo”, implementar o acordo exige constância e firmeza. “Foi bastante difícil no começo. Mas com muita conversa e troca, nossos filhos foram se conscientizando.”

Na prática, a família estabeleceu regras claras: nada de TVs nos quartos; telas apenas no fim do dia; quatro dias da semana sem telas e três com. A regra vale para todos — inclusive os pais.

Para eles, o tempo livre é preenchido com esporte, atividades ao ar livre, leitura, tarefas domésticas e encontros com amigos. E quando surge o tédio, ele é tratado como parte do processo. “Reforçamos a importância do ócio. Aproveitar o não fazer nada. Dá trabalho? Dá. O tempo todo. Mas educar é isso.”

Dependência de estímulos rápidos (dopamina), dificuldade de controle e irritabilidade

Segundo Manuela, o retorno aparece nos pequenos gestos: filhos que lembram os pais de tirar o celular da mesa ou que percebem quando um colega deixa de brincar para ficar apenas na tela.

O coletivo faz diferença

Manuela admite que, no início, chegaram a duvidar da decisão. “Mas bastava ler as notícias sobre os malefícios do uso precoce que recobrávamos nossa tenacidade.”

A leitura de A Geração Ansiosa foi, segundo ela, um divisor de águas. Hoje, com o crescimento do Movimento Desconecta, ela acredita que o apoio coletivo torna tudo mais leve. “O piano, por mais afinado que seja, ainda é pesado. Fica bem mais fácil carregar juntos.”

Dados indicam que crianças que recebem smartphone antes dos 13 anos apresentam mais queixas de saúde mental ao longo da juventude

Como “apresentar” o uso de celulares

A neuropsicóloga Juliana Gebrim aponta que a idade para ter um smartphone pode variar de acordo com cada família, mas o mais importante não é apenas quando o celular será introduzido, e sim como esse uso será conduzido.

“Sou favorável a um acesso controlado e monitorado pelos pais, independentemente da idade. Isso significa estabelecer limites claros, como horários de uso, tempo diário de acesso e acompanhamento dos conteúdos que a criança ou o adolescente consome”, salienta.

A profissional também destaca que é importante orientar e proteger contra ambientes digitais potencialmente nocivos, como conteúdos violentos, práticas de cyberbullying ou links perigosos que podem aparecer na internet. “Quando existe acompanhamento familiar e limites bem definidos, o uso da tecnologia tende a ser mais saudável e seguro para o desenvolvimento emocional e social dos jovens.”

A exposição exagerada afeta a concentração, molda o cérebro de forma irreversível e vicia devido à alta dopamina

Ficar atento a sinais

Apesar disso, a neuropsicóloga afirma que é importante estar atento(a) sobre sinais que podem indicar que o uso do celular deixou de ser saudável. ”Um deles é quando o adolescente começa a se isolar mais e reduz o contato presencial com familiares e amigos.”

Essas mudanças de comportamento mostram que o uso da tecnologia pode estar ultrapassando o limite do saudável e interferindo na rotina e nas relações do adolescente. “Já existem diversas pesquisas mostrando que o uso sem limites de celulares e redes sociais pode, sim, estar relacionado ao aumento de quadros de ansiedade, depressão e dificuldades de socialização entre adolescentes”, destaca.

Juliana também reforça que isso ocorre porque o jovem passa a interagir principalmente com conteúdos e pessoas que ele escolhe, geralmente aquilo que lhe agrada. “Na vida real, porém, as relações são mais complexas e precisamos lidar com frustrações, opiniões diferentes e situações que nem sempre são agradáveis. Quando a maior parte das interações acontece no ambiente digital, o campo de experiências sociais pode acabar ficando mais restrito.”

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comVida & Estilo

Você quer ficar por dentro das notícias de vida & estilo e receber notificações em tempo real?