Montanhismo: 1ª mulher negra latina a subir o Everest revela desafios
Aretha Duarte, primeira mulher negra latina a subir o Everest, revela como foi preparação e principais desafios
atualizado
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A história de Aretha Duarte vai muito além da conquista de um feito inédito. Primeira mulher negra latino-americana a chegar ao topo do Monte Everest, ela transformou a própria trajetória em um símbolo de resistência, representatividade e mudança social, dentro e fora das montanhas.
A conquista, no entanto, não foi apenas física. Antes de enfrentar o frio extremo e a altitude, Aretha precisou superar barreiras estruturais profundas.
“Como mulher negra, identifico que o maior desafio foi realmente a estrutura social em que estamos inseridos. É perceber que esse esporte ainda é bastante elitizado; é caro para praticar em logística, em curso, em treinamento, em equipamento…”, afirma ao Metrópoles.

Ela reforça que o montanhismo, ainda hoje, é um ambiente de difícil acesso para pessoas periféricas. “Tudo relacionado ao montanhismo é caro para determinadas camadas da sociedade, como é o meu caso, uma mulher negra e periférica”, completa.
Apesar dos obstáculos, a chegada ao topo do mundo ganhou um significado coletivo.
“A minha chegada ao topo do Everest gerou visibilidade e representatividade. Conseguimos estipular que finalmente uma mulher negra tinha competência, capacidade, vontade e interesse de estar lá”, diz. Mais do que um marco pessoal, o feito abriu caminhos para que outras histórias também possam ser escritas.
Esse, aliás, sempre foi o verdadeiro objetivo. “O meu interesse não era ser a primeira, o meu interesse era ser uma de muitas. Eu venho tentando abrir portas e oportunidades para mais pessoas negras ocuparem esse espaço”, destaca.

Para ela, o Everest foi apenas o começo de algo maior. “Chegar ao topo do Everest foi apenas o primeiro passo do meu grande sonho. Meu grande sonho é a transformação social e ambiental.”
A atleta também chama atenção para um ponto muitas vezes ignorado: o papel da mente em esportes de alta exigência. “O montanhismo tem uma exigência muito forte e determinante da questão emocional, pensando em performance, em bom resultado e também em segurança”, explica. Nesse contexto, a experiência de vida pode ser uma aliada.
“Para determinadas áreas do montanhismo, posso afirmar que a maturidade emocional, que é mais comum nas pessoas mais velhas, é uma variável positiva para começar essa atividade”, detalha.

Para quem deseja seguir pelo mesmo caminho, Aretha é direta ao afastar um dos principais medos: o de começar tarde. “Para quem deseja começar, de bate pronto, eu digo: não é tarde. Mesmo que você já esteja na vida adulta, saiba que ainda há tempo.”
Ela reforça, no entanto, que o início deve ser feito com responsabilidade. “Busque profissionais que possam te acompanhar, tendo como premissa a segurança e o interesse de que você realmente cresça e se desenvolva”, orienta. Ela lembra que o montanhismo ainda não faz parte da cultura brasileira, o que exige cuidado. “A atividade do montanhismo demanda dedicação, cuidado, acolhimento e empatia na orientação.”

O primeiro passo pode ser mais simples do que parece. “Comece realizando trilhas e caminhadas curtas em montanhas que não sejam tão altas. No Brasil, tem bastante opção para isso”, aconselha.
Entre desafios físicos, sociais e emocionais, Aretha Duarte mostra que escalar uma montanha pode ser, acima de tudo, um ato de transformação — individual e coletiva.
