
Conceição FreitasColunas

O que o alpinista de escaladas impossíveis pode nos ensinar
Na semana passada, o alpinista norte-americano Alex Honnold, 40 anos, fez mais uma das suas: escalou o edifício mais alto da Ásia
atualizado
Compartilhar notícia

A pessoa é para o que nasce, como no título de um documentário brasileiro de 2017. Ou nasce para o que é. E quando a pessoa cumpre o destino já escrito na nascença tudo parece perfeito, embora absurdamente inexplicável. Tentarei explicar com uma metáfora da vida real. Na semana passada, o alpinista norte-americano Alex Honnold, 40 anos, fez mais uma das suas: escalou o edifício mais alto da Ásia, o Tapei 101, em Taiwan, num “solo em via livre”, ou seja sozinho e sem nenhum equipamento.
Desde os 5 anos de idade, Alex Honnold vem escalando o próprio destino só com as mãos, os pés e a determinação, como se não houvesse outra coisa a fazer, quase como se obedecendo ao mapa traçado no corpo e na mente. Subir quase meio quilômetro de um dos edifícios mais altos do mundo foi uma façanha incrível mas apenas mais uma escaladinha diante do feito mais assombroso de Honnold: ter escalado, sozinho e sem ajuda de nenhum equipamento, o paredão liso e vertical do El Capitan, monólito rochoso de quase um quilômetro (914 metros) no Parque Nacional de Yosemite, na Califórnia (EUA), em 2017. O jornal New York Times classificou essa escalada de Honnold como “um dos maiores feitos atléticos de todos os tempos”.
Honnold é a metáfora semovente que tem muito a dizer sobre a arte de viver. O que ele faz é extremamente perigoso, qualquer imprevisto, uma pedra que se solta, uma ventania mais forte e inesperada, um ataque de pânico, será fatal. Numa escalada de voo livre, Honnold conversa com a morte o tempo inteiro, mas sem nenhum traço religioso, nenhuma transcendência mística. É quase um jogo de xadrez, no qual um jogador é mortal, e o outro, não.
Exames já detectaram que Honnold tem uma extraordinária capacidade neurológica de resistir ao medo, já nasceu com ela. Mas o fenomenal alpinista não se fia só nisso. Ele treina, treina e treina. Honnold reconhece o perigo, entende que pode morrer, mas não entra em pânico. O medo, ele diz, “pode ser treinado, reduzido e eliminado pela repetição absoluta [do que causa o medo]”.
Claro que isso vale pra Honnold, não vale para nós, os pobres mortais que não nascemos com essa característica física e emocional bastante incomum. Desde bem menino, os pais o levavam a parques específicos para a prática de escalada. E o garoto alpinista já se concentrava calma e silenciosamente diante do risco de subir alturas com os próprios pés. E assim foi pela adolescência afora. E seguiu desse modo na vida adulta (durante muito tempo ele morou numa van pra poder viajar de escalada em escalada).
Honnold é a metáfora perfeita não da coragem ou da fé em uma entidade protetora ou do “se você quer, você pode” ou da superação, nada disso. O extraordinário alpinista norte-americano é um exemplo extremo que só serve para ele mesmo, por suas características bastante singulares somadas à sua extrema dedicação àquilo que ele é, de nascença. A metáfora que ele pode evocar, a nós, pobres mortais, é de que não se pode fugir da própria natureza, ou de nossos desejos e talentos, ou do destino para quem nele acredita. Cada um de nós é para o que nasce, nasce para o que é.
* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.
