Conceição Freitas

Sempre é bom lembrar do que nós, brasileiros, temos de melhor

A cultura brasileira brota do desejo quente que o brasileiro tem de festejar a vida. Temos uma alegria singular

atualizado

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Heitor dos Prazeres/Reprodução
Quadro de roda de samba de Heitor dos Prazeres
1 de 1 Quadro de roda de samba de Heitor dos Prazeres - Foto: Heitor dos Prazeres/Reprodução

Tão festejada nos últimos dias, afinal o que é mesmo a cultura brasileira? Agora, o tapete é do cinema premiado de Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura, ano passado foi o de Walter Salles e Fernanda Torres. O cinema que tantos nos ensina sobre nós mesmos é uma das pernas do polvo gigante chamado cultura brasileira.

É tão grande e surpreendente, a cultura brasileira quanto o país de onde ela brota. O verto brotar, aliás, tem a ver com a etimologia da palavra cultura que nasceu para nomear o ato planejado de domesticar uma planta e preparar a terra para dela brotasse o alimento.

Até que, como sempre acontece com as palavras, cultura passou a nomear muito mais coisa. Se da cultura da terra se tira o alimento do corpo, a cultura metafórica alimenta a alma, porque ninguém nasce para planta.

Há no humano um desejo contínuo de dar sentido às coisas, de transformar uma abóbora num ensopado com camarão ou num doce com cravo e canela.

A cultura brasileira brota do desejo quente que o brasileiro tem de festejar a vida. Temos uma alegria singular, uma força interna que reza, canta, dança, inventa e reinventa para dar conta das dores atávicas de nossa história que, querendo ou não, sabendo ou não, vivem dentro da gente.

Nascido da invasão de um território que já tinha donos e do mais escandaloso tráfico de gente da história da humanidade, o povo que surgia precisava encontrar algo que lhe lembrasse do bom da vida. E assim os brasileiros viraram mestres na arte de ser feliz ou de
pelo menos de tentar esquecer por algum tempo as tenebrosas tristezas.

E vieram as rezas, os cantos, as procissões, as folias, as festas, o reisado, a capoeira, os teatros populares. Era preciso se juntar e celebrar para ganhar forças e seguir vivendo. Então, os brasileiros inventaram um ritmo que é muito mais que musical, saído das rodas dos terreiros do nordeste e se modificando nos morros cariocas.

O samba é a expressão poética de nosso modo de ir adiante, é a literatura raiz do brasileiro (o cordel é outra). O samba em feitio de
oração, como cantou Noel Rosa. E, com o samba, o carnaval. E, em outras quebradas, o boi-bumbá, o maracatu, o frevo, as vias-sacras, as festas juninas, tudo incrivelmente musical.

O brasileiro é tão artista que inventou o futebol-arte, nossos Garrinchas e Pelés – o “negão interplanetário”, título da biografia do Antonio Risério sobre o Edson Arantes. Pena que a voracidade dos cartolas nos tenha roubado uma de nossas mais grandiosas, apaixonadas e festivas manifestações culturais.

O rebolado baiano do Wagner Moura é a expressão física de nossa capacidade de, ao mesmo tempo, contar uma história difícil, a dos horrores da ditadura, e de depois sair dançando no meio da rua. E como o brasileiro gosta da rua! Deve ser o Sol que nos chama para escapar da escuridão de um passado tão difícil. Como dizia Darcy Ribeiro, somos um povo feito “na mais terrível máquina de moer gente que já existiu”.

Quando o sofrimento é excruciante, a alegria é água para matar a sede. Talvez por isso sejamos tão festeiros, tão musicais, tão farofeiros, tão exagerados. A caixa de comentários do perfil do Globo de Ouro (@goldenglobes) é de morrer de rir: se os demais posts têm 20, 200 ou no máximo 2 mil comentários, o de Wagner Moura recebendo o prêmio tinha mais de 60 mil nas primeiras horas.

Brasileiros de todos os Brasis festejando a vitória do agente secreto, um carnaval de exclamações, emojis alegres, bandeirinhas verde-amarelas felizes.

Somos um povo formatado numa mistura de raças que até então nunca tinha acontecido na história da humanidade – mistura de etnias que há pelo menos 10 mil anos viviam em terras de pau-brasil, povos africanos arrancados de suas milenares origens e portugueses, com suas raízes mouras e árabes.

Se o futuro do mundo será inevitavelmente mestiço, o Brasil já se antecipou há séculos.

O problema é que a gente ainda não se deu conta, por inteiro, de nós mesmos, de que ser “cordial” no sentido do sentimento, do coração, das fortes emoções, não é ruim, isso é muito bom. Quando a emoção é cultivada, ela se transforma na arte de existir com inventiva alegria, mesmo quando dói.

Claro que temos cicatrizes bem feinhas, somos conservadores, dissimulados, preconceituosos, violentos, mas o melhor de nós é a nossa capacidade de viver de coração aberto e de transformar as dores em arte e cultura. De vez em quando o mundo para, olha, se surpreende e aprende que do limão se pode fazer uma limonada e também uma caipirinha.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

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