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Não bastasse o contracheque das mulheres registrar dígitos inferiores ao dos homens, elas também precisam desembolsar mais por serviços e produtos iguais ou similares aos destinados ao sexo oposto.

No mercado, ainda que nem sempre se perceba, grande parte dos artigos das prateleiras e araras é dividido por gênero. E mais: os produtos também são cobrados de forma diferente: é a chamada Pink Tax (ou “taxa rosa”). Ela faz com que os gastos das mulheres sejam maiores que os dos homens mesmo em compras de itens básicos.

O Metrópoles percorreu lojas de um shopping de Brasília e verificou que uma camiseta branca básica, na Luigi Bertolli, pode sair até R$ 10 mais cara se o consumidor optar pelo modelo feminino.

Letícia Carvalho/Metrópoles

Camisetas da Luigi Bertolli

 

Se a escolha for por uma peça esportiva, a realidade também é a mesma. Uma blusa da Track&Field da nova linha Style, desenvolvida para as mulheres, está na vitrine do centro de compras com as cifras de R$ 149,90.

A masculina da mesma coleção aparece com a etiqueta de R$ 139. E a lista de mercadorias com a “taxa rosa” não se restringe às lojas de departamentos e invade, inclusive, os comércios dedicados aos artigos infantis.

Um kit de xampu com embalagem do Batman vs Superman, de 250ml, da marca Biotropic, na farmácia Drogasil, custava R$ 19,99 em outubro. Já o da Barbie, de 220ml, feito pelo mesmo fabricante, era vendido por R$ 21,90 na mesma ocasião.

Letícia Carvalho/Metrópoles

Kit de xampu da Biotropic

 

Em salões de beleza, a matemática é parecida. Em uma das unidades do Helio Diff, os preços dos cortes de cabelo estão tabelados a partir de R$ 137 (para homens) e R$ 160 (para mulheres).

Após a visita ao local, a reportagem confirmou por telefone os valores. No entanto, quando procurada oficialmente para explicar o porque dessa cobrança diferenciada, a empresa explicou que os funcionários se confundiram ao passar as informações. Na verdade, o serviço é dividido por categoria a depender da experiência do cabeleireiro e não por gênero, segundo a empresa.

A prática de cobrar preços mais altos para consumidoras incomoda feministas e estudiosos. Uma pesquisa divulgada pela revista Marie Claire mostra que todas as brasileiras pagam, em média, 10% a mais do que homens. Os dados preliminares compõem o primeiro estudo que avalia preços e gênero do país, feito pelo professor de cultura e consumo da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) Fabio Mariano Borges, de São Paulo.

Em entrevista à publicação, Borges afirmou: “É uma opressão, uma discriminação de gênero que se repete sem nos darmos conta”. Para a professora da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB) e especialista em gênero Tânia Montoro, a questão é histórica e social, e tem raízes na cultura de consumo tão difundida mundialmente. “Se não mudarmos a cultura do olhar masculino sobre o feminino, continuaremos a receber menos e a pagar mais por mercadorias”, explicou Tânia.

Temos uma demanda por beleza e por estética construída a partir de mecanismos de violência simbólica. E a publicidade se aproveita disso. Aqui, no Brasil, há uma forte necessidade de fazer cirurgias plásticas, pagar por manicure, escova, comprar certos produtos… As mulheres acabam consumindo muito e o varejo se adaptou a isso"
acrescentou Tânia Montoro

Procuradas pela reportagem, a Biotropic e a Track & Field não haviam enviado um posicionamento até a publicação desta matéria. A Luigi Bertolli afirmou que a empresa “prefere não se posicionar neste momento”.



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