Entenda por que mulheres não querem flores neste 8 de Março
Contra o feminicídio e a desigualdade, mulheres brasileiras usam as redes sociais para resgatar o caráter político do 8 de Março
atualizado
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No Brasil, a realidade das mulheres caminha em uma linha tênue entre a delicadeza dos gestos e a brutalidade dos dados: cerca de quatro brasileiras são assassinadas por dia vítimas de feminicídio.
Diante desse cenário, o movimento “Não me dê flores” ganha força nas redes sociais, propondo uma reflexão urgente. Mais do que rejeitar um presente, a campanha questiona a desconexão entre as homenagens românticas do Dia Internacional da Mulher e a persistente insegurança vivida dentro e fora de casa.
Entenda
- Resgate histórico: a data, que nasceu da luta por direitos trabalhistas e segurança, tem sido esvaziada por apelos comerciais e estéticos.
- Dissonância cognitiva: existe uma frustração coletiva ao receber flores em uma sociedade que ainda mantém altos índices de assédio e desigualdade salarial.
- Vigilância permanente: o medo da violência gera um impacto psicológico profundo, forçando mulheres a monitorarem constantemente roupas, horários e trajetos.
- Ação sobre símbolo: o movimento defende que o respeito e a segurança institucional devem preceder qualquer celebração simbólica.
Além do cartão-postal: o peso da realidade
Historicamente, as flores no 8 de Março simbolizam cuidado e valorização. Contudo, para a psicóloga clínica e sexóloga Alessandra Araújo, especialista no atendimento à mulher, o problema reside na transformação de uma data política em um evento puramente comemorativo.
“O 8 de março nasceu de movimentos de luta. Quando a data é tratada apenas como um momento de celebração, corre-se o risco de esvaziar seu papel de reflexão social”, pontua a especialista. Para ela, a crítica atual não é um ataque ao gesto de presentear, mas um alerta sobre a incoerência de celebrar a existência feminina enquanto o Estado e a sociedade falham em protegê-la.

O impacto psicológico do medo
Viver em um país em que a violência de gênero é estrutural cobra um preço emocional alto. De acordo com Alessandra, muitas mulheres vivem em um estado de “vigilância permanente”.
“As mulheres relatam constantemente o medo de serem a próxima vítima. Elas crescem aprendendo a monitorar horários e comportamentos para reduzir riscos. É um desgaste emocional que influencia profundamente a forma como elas se movem no mundo”, explica a psicóloga.
Nesse contexto, receber uma mensagem positiva ou um buquê pode gerar uma sensação de superficialidade. A homenagem, quando isolada de mudanças reais no cotidiano, acaba funcionando como um “silenciamento” das demandas por dignidade e segurança.
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Redes sociais como arena de mobilização
O ambiente digital tem sido o catalisador dessa mudança de percepção. Campanhas como a “Não me dê flores” rompem o silêncio sobre temas que, por muito tempo, foram tratados como problemas privados. Nas redes, a violência deixa de ser vista como um fenômeno individual e passa a ser debatida como uma construção cultural que normaliza o controle e o desrespeito.
Para a especialista, o movimento sinaliza uma maturidade no debate público: as mulheres estão reivindicando o direito de ocupar espaços com voz ativa, e não apenas como receptoras de mimos anuais.

Como valorizar de forma real?
Para que o reconhecimento seja saudável, a palavra de ordem é coerência. Segundo Alessandra Araújo, as flores podem continuar existindo, desde que acompanhadas de uma escuta genuína e do compromisso com a igualdade de oportunidades.
“A forma mais saudável de reconhecimento envolve garantir ambientes de trabalho seguros, combater a violência e incentivar uma cultura de respeito. As mulheres crescem e são felizes quando encontram espaço para se posicionar e colocar para fora o que têm de valioso”, conclui.
