Meu Último Desejo: site guarda e entrega mensagens pós-morte à família

Inspirado em casos reais e da ficção, o aplicativo oferece a chance de dizer aquilo que estava guardado

Stela Woo/Arte/MetrópolesStela Woo/Arte/Metrópoles

atualizado 26/10/2018 18:04

A morte se apresenta como o grande mistério da vida. Ninguém pode prever quando, como ou onde chegará o inevitável dia da partida. Pensando nisso, o empresário paulista Mário Cássio Maurício idealizou a plataforma on-line Meu Último Desejo. Nele, as pessoas registram suas derradeiras vontades e mensagens para serem entregues a familiares só depois da sua morte.

O objetivo da plataforma lembra a trama do filme PS. Eu Te Amo (2007). No longa-metragem dirigido por Richard LaGravenese, antes de morrer, Gerry (Gerard Butler) deixa uma série de cartas programadas à esposa, Holly (Hilary Swank), com instruções para que ela possa superar o luto.

De acordo com o idealizador, a ideia nasceu há 15 anos, quando ele mesmo passou pela experiência de ouvir a voz do pai falecido, gravada em uma secretária eletrônica. “Meu pai entrou no hospital para fazer apenas um exame, teve uma complicação, entrou em coma e 10 dias depois veio a falecer. Eu descobri naquele momento que não o conhecia”, lembra Mário.

Por ser o filho mais velho, coube a ele cuidar dos trâmites legais do sepultamento, e, mais uma vez, se viu perdido por nunca ter conversado com o pai sobre como ele gostaria de ser enterrado. “Quatro anos depois, eu acho a secretária eletrônica dele, aperto o play e ouço a sua voz. Àquilo para mim foi sensacional, um momento único. Daí comecei a pensar nesses dois sentimentos, o difícil e o prazeroso, e em como eu poderia proporcionar as pessoas uma experiência diferente da minha”, explica o idealizador.

Divulgação
O idealizador, Mário Cássio Maurício, diz que o site incentiva as pessoas a dizerem, também em vida, os sentimentos pelos parentes

 

Lançado em agosto deste ano, o Meu Último Desejo já conta com mais de 500 assinaturas. Em sua maioria, os planos são comprados por idosos ou pessoas com doenças terminais. A empresa trabalha com planos: o individual, com direito a 500mb de armazenamento, sai a R$ 2,99 por mês; o familiar, que agrega até três dependentes, custa R$ 5,98.

“A gente nunca diz ‘eu te amo’ como gostaríamos de dizer. Eu até digo, mas sempre acho que poderia falar muito mais”, afirma Márcia Maria Bergamo, de 67 anos.

A paulista já gravou duas mensagens para o filho único.”Na primeira, eu deixo orientações mais práticas, pois eu desejo ser cremada, e todas as vezes que tentei entrar nesse assunto, ele desviou. A outra é mais afetiva, carinhosa, dizendo o quanto ele me fez feliz em vida e de como eu sempre irei amá-lo, pensando muito mais nele, que em mim, como uma maneira de confortá-lo”, conta a aposentada.

Ao único neto, Márcia também preparou uma mensagem para ser entregue no dia em que a criança completar 13 anos de idade. “É uma idade complexa, onde ele estará entrando na puberdade. Deixei um vídeo onde falo sobre drogas, sexo e todas as questões da vida de um adolescente”, adianta.

Como funciona?
Vale tudo: vídeos, fotos, texto, músicas, documentos. Assim que a pessoa realiza o cadastro, ela deve escolher dois tutores. Aos “guardiões dos desejos” ficará o dever de informar à equipe do site a morte do assinante. Além disso, os escolhidos também ficarão incumbidos de avisar ao portal o momento de enviar as mensagens programadas para acontecimentos específicos como o ingresso de uma filha na universidade ou o casamento do filho.

Após a morte do titular da assinatura, os tutores ganham permissão para cadastrar outras duas pessoas e distribuírem com parentes e/ou amigos tamanha responsabilidade. “Normalmente, ao pensar em qual mensagem deixaria, e a quem, as pessoas começam a refletir, em vida, quem realmente importa. Assim, acabam percebendo, também, que ainda há tempo de dizer diversas coisas enquanto estão vivas”, acredita Mário Cássio.

Ação social
Até o fim de 2018, Mário Cassio Maurício pretende doar 1 milhão de desejos a idosos. “Durante o processo de pesquisa, nós fomos a asilos e percebemos que eles têm muito a dizer aos filhos e netos”, considera o criador do site.

Segundo eles, a equipe está cadastrando as entidades e ONGs, e a cada cinco cliques recebidos pela instituição, será doada uma assinatura. “Gostaria que todo mundo fosse parte disso, de envolver o maior número de pessoas. Transformar o momento da perda em algo mais humano, mais amoroso”, conclui.

 

Prática antiga
Em agosto deste ano, a história da inglesa Sophie George, de 27 anos, ficou conhecida ao redor do mundo. Diagnosticada com câncer terminal, a jovem decidiu escrever cartas para a filha Marcie Godfrey, de 1 ano. A pequena irá receber os recados da mãe em todos os aniversários, e, também, em datas especiais como o primeiro dia na escola. “Algumas crianças podem não ser muito gentis com você, mas não se preocupe, mamãe sempre vai te amar muito”, escreveu.

Em 2017, uma australiana de 34 anos, também decidiu escrever palavras para os filhos gêmeos Alfie e Hugh, à época com 3 anos, após descobrir um tipo de câncer incurável no cérebro. No texto, publicado pelo jornal The New Daily, a mãe tenta guiar os meninos. “Amem demais. Como dizem, é melhor ter amado e sofrido, do que nunca ter amado completamente….Prestem atenção aos estudos, mas saibam: há muito mais na vida escolar além do livros didáticos. Pratiquem esportes em equipe. Experimentem um instrumento musical. Aprendam um novo idioma. Sempre tentem o seu melhor. Nunca tenha medo do fracasso”.

Outro caso no início do ano passado também surpreendeu os leitores do Metrópoles. Um mulher, no leito de morte, decidiu deixar um recado para o marido que a traía. Na carta, ela assumia ao esposo saber de tudo. “Estou deitada na cama deste hospital por 24 horas esperando sua confissão no leito de morte. Tenho certeza que não vai vir. Você não vai aliviar sua consciência me dizendo a verdade, porque eu sei agora que você não tem uma. Embora eu tenha te amado por tudo que você fez, eu não vou deixar você dizer que me ama. Nem quando me trouxer flores. Por que você não me ama, certo? Por extensão, nem ela você ama”, concluiu.

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