“Comparo fim de Marielle ao de Luther King”, diz ativista Kenia Maria

Ela falou ao Metrópoles sobre sua carreira, racismo e prêmio em Nova York

atualizado 14/09/2018 18:01

Stela Woo/Metrópoles

Kenia Maria é um dos nomes mais importantes da luta contra o racismo no Brasil. Nascida no Rio de Janeiro, a escritora começou a militar com 14 anos e atribui à família seu despertar para causas sociais. Agora, aos 42, ela vai ser homenageada, ao lado do marido Érico Bras e de outros brasileiros — como o rapper Emicida e a ativista Djamila Ribeiro — na premiação Most Influential People of African Descent (pessoas mais influentes de descendência africana, em tradução livre).

No final de setembro, a ativista vai a Nova York para comparecer ao evento, onde personalidades como Meghan Markle, Colin Kaepernick e Chadwick Boseman também vão receber reconhecimento.

Kenia usa várias plataformas e técnicas para espalhar suas mensagens. Em 2013, a pedido da filha, a ativista criou o canal “Tá bom pra você?”, no qual buscava refletir qual papel os negros ocupavam na publicidade e na mídia de forma geral.

Depois, seguiu o lançamento de sua websérie (a primeira no Brasil a ser protagonizada por pessoas negras) e a publicação de dois livros infantis inspirados nos ensinamentos do Candomblé. A escritora foi escolhida pela ONU para ser defensora dos direitos das mulheres negras.

Em entrevista ao Metrópoles, Kenia contou sobre sua trajetória e carreira, além de comentar os casos de Marielle Franco e da advogada Valéria, que mobilizou as redes sociais na quarta-feira (14/9). Confira:

De onde veio o seu despertar para causas sociais?
Venho de uma família negra com consciência, tenho parentes mestres de capoeira – que usavam como ferramenta e militância – e pais de santo. Toda menina negra descobre ser negra quando percebe que não tem o cabelo padrão e não se vê em propaganda.

Morar em comunidade, estar em um lugar com maioria negra, também despertou esse lado. Aos 14 anos, comecei a participar de um bloco afro, isso nos anos 1990, e lá se falava do empoderamento por meio da estética e do cabelo. Eles já estavam parando de alisar os fios.

Qual a sua vertente do feminismo?
Eu me declaro feminista negra, porque a mulher negra tem questões diferentes. Quando meu povo veio para a América, foi diferenciado entre negro e mulher e foi construída uma pirâmide social para manter o racismo, com a mulher negra estando sempre por baixo.

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Com base nas suas viagens e morando em outros países, qual sua percepção do que é ser negro fora do Brasil?
Em 1997, morei na Venezuela, depois fui para o Peru e o Equador. Voltei para o Rio de Janeiro em 2009. Durante meu tempo na Venezuela, a discriminação racial ainda não era crime. O racismo é bem padrão na América Latina. Tenho muitos amigos americanos e, apesar de o país deles ser bem racista, eles comentam que o Leblon parece os Estados Unidos nos anos 1950, tempo de intensa segregação racial.

Tudo bem que tivemos histórias diferentes, o Brasil foi um dos últimos países a abolir a escravidão, passamos por uma ditadura, mas isso continua presente até hoje, como vimos ultimamente.

Comparo a morte de Marielle à de Luther King. Todo dia morre uma pessoa negra, mas ali morreu uma mulher na política, da favela e LGBT. É muito forte. Essa semana vimos o caso da advogada Valéria, me fez lembrar dos meus amigos americanos comentando como parece que ainda estamos nos anos 1950, 1960.

Qual tem sido o papel da internet na sua luta?
Ela tem sido uma grande aliada, porque conseguimos atingir mais gente em poucas horas, formamos grupos de pessoas conscientes. Em 2013, eu e minha família mudamos para um bairro de classe média alta, o que causou estranhamento para os moradores.

Minha filha Gabriela, na época com 13 anos e hoje com 19, começou a questionar a mídia e o prédio. Como resposta, lancei o canal e a websérie Tá bom pra você?, para questionar o lugar dos negros na publicidade. Meu marido Érico Brás e meu filho Matheus, atualmente com 22 anos, também participaram dos vídeos.

Os vídeos foram usados em algumas escolas e universidades. Foi ótimo, porque o racismo é um problema de todos os brasileiros, não só dos negros.

Você já recebeu ataques on-line?
Não tanto on-line, acontece mais no dia a dia, afinal o racismo é um hábito. Às sextas-feiras, saio de branco, por uma tradição do Candomblé, e sempre me confundem com a babá de alguém. O táxi não para, o garçom não me atende.

A última grande agressão foi em um avião e ganhei o processo na justiça. Botei a bagagem de mão embaixo do assento, como todo mundo faz, e o rapaz do meu lado socou minha bolsa, começou a falar alto. As pessoas desceram do avião dizendo que não iam voar comigo e meu marido e chamaram a polícia federal.

De onde veio o desejo de lançar livros infantis?
Sempre tive vontade. Quando era mais nova, ganhei um concurso de redação e me interessei. É uma coleção de cinco livros, e já publiquei Lindas Águas e Flechinha. Pego os ensinamentos do Candomblé sobre ecologia e misturo com a vontade de ver negros em lugar de poder, como reis e rainhas.

Você vai ser homenageada no Most Influential People of African Descent. O que isso significa para você?
É tanta coisa. Tem muito a ver com projeto familiar e uma recuperação ancestral. Tem a ver com a força da mulher negra e dedico à Gabriela.

O que te dá forças para continuar lutando?
Acabei de palestrar num colégio elitista do Rio para uma turma de crianças brancas de 12 anos. Um me fez vários questionamentos, se mostrou um menino extremamente incomodado com o racismo.

Tentei entender e percebi que são crianças ainda não atingidas por racismo e, realmente, não se nasce racista. Isso me dá esperança e ainda me emociona.

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