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Quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro em 2016, Marielle Franco (PSol) foi assassinada na noite dessa quarta-feira (14/3). Negra e oriunda do complexo de favelas da Maré, na Zona Norte da cidade, o perfil dela é típico das mulheres vítimas de violência letal em todo Brasil.

Marielle usava o mandato para lutar por causas relacionadas aos direitos humanos e denunciar a violência policial na cidade do Rio. Ela tinha 38 anos e foi morta com pelo menos quatro tiros. A Lupa reuniu alguns dados a repeito de homicídios de mulheres negras e da atuação da parlamentar, assassinada pouco mais de um ano depois de ser empossada.

2 horas
A cada 120 minutos, uma mulher foi assassinada no Brasil em 2016, de acordo com dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Foram 4.606 mortes naquele ano.

65,3%
Este é o percentual de negras entre as mulheres mortas no Brasil em 2015, segundo o Atlas da Violência, do Ipea – um total de cerca de 3 mil mulheres negras. Dez anos antes, em 2005, elas eram 54,8% das vítimas do sexo feminino no país.

22%
É o aumento da taxa de mortalidade de mulheres negras entre 2005 e 2015, conforme levantamento do Atlas da Violência. Em contrapartida, a taxa de homicídios de mulheres brancas caiu 7,4% no mesmo período.

2
Duas vezes mais. Mulheres negras jovens (15 a 29 anos) têm o dobro de chance de serem mortas, no comparativo com mulheres brancas em todo Brasil, aponta o Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência 2017. O estudo foi elaborado pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), com números de 2015.

396
É o número de homicídios dolosos cometidos contra mulheres no estado do Rio em 2016, segundo o Instituto de Segurança Pública do Rio.

63,7%
É o percentual de mulheres pardas e negras entre as quase 400 que foram mortas em 2016 no estado do Rio de Janeiro.

31,4%
Foi o percentual de votos que Marielle conseguiu, sozinha, sobre todos os votos para mulheres pretas e pardas para vereador no Rio de Janeiro nas eleições de 2016. De 51 pessoas eleitas, apenas duas eram mulheres não brancas, Marielle e Tânia Bastos (PRB), que se autoidentifica como parda. O número de mulheres negras candidatas não foi pequeno na ocasião: 255, ou 15,7% do total e 49,8% das mulheres. Elas receberam, entretanto, apenas 5,5% dos votos. Enquanto um homem branco recebeu, em média, 2,6 mil votos, mulheres não brancas tiveram apenas 580.

2
Foi o número de vezes que Marielle Franco foi interrompida durante seu último discurso na Câmara de Vereadores do Rio. No dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, ela ocupou a tribuna para discursar sobre a data. Foi interrompida pelo vereador Ítalo Ciba (PT do B), que lhe entregou uma flor no meio de sua fala e, depois, por uma pessoa não identificada na galeria da Casa. “O que cada uma de nós já deixou de fazer ou fez com algum nível de dificuldade pela identidade de gênero, pelo fato de ser mulher? A pergunta não é retórica, ela é objetiva, é para refletirmos no dia a dia, no passo a passo de todas as mulheres, no conjunto da maioria da população, como se costuma falar, que infelizmente é sub-representada”, disse, no discurso.

16
Foram os projetos de lei propostos por Marielle e que estão em tramitação na Câmara dos Vereadores. Veja alguns:

00711/2018: Criação do programa de desenvolvimento cultural do funk tradicional carioca.

00642/2017: Institui a assistência técnica pública e gratuita para projeto e construção de habitação de interesse social para as famílias de baixa renda e dá outras providências.

00555/2017: Criação do Dossiê da Mulher Carioca, para elaboração de estatísticas sobre a violência contra a mulher.

00417/2017 : Criação da Campanha Permanente de Conscientização e Enfrentamento ao Assédio e Violência Sexual no município do Rio.

00082/2017: Inclui o Dia da Visibilidade Lésbica no Calendário Oficial da cidade do Rio de Janeiro.

00016/2017: Institui o programa de atenção humanizada ao aborto legal e juridicamente autorizado no âmbito no município do Rio de Janeiro.

00103/2017: Inclui o Dia da Mulher Negra no calendário oficial da cidade, em celebração à Tereza de Benguela, líder quilombola do século XVIII.

*Com reportagem de Chico Marés, Clara Becker e Leandro Resende