Brasiliense é um dos pioneiros em estudos sobre masculinidade tóxica

Para Sérgio Barbosa, violência de gênero está ancorada na construção da masculinidade. Hoje, dedica-se a cortar o mal pela raiz

atualizado 21/11/2020 10:06

Uma das heranças mais persistentes do machismo é a ideia de que “homem de verdade” não chora, não leva desaforo pra casa e deve, constantemente, abrir mão do cuidado com própria aparência e saúde para não ser taxado de “marica”.

Essa compreensão tóxica do que é masculinidade, ainda presente no imaginário e reforçada até mesmo em discursos de autoridades, é a gênese de uma série de violências, cujo alvo quase sempre é o mesmo. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma em cada três mulheres no mundo já foi agredida fisicamente ou sexualmente por um homem.

O dado reforça a importância de iniciativas como as que vêm sendo conduzidas pelo brasiliense Sérgio Barbosa, especialista em masculinidades, relações e violência de gêneros. Aos 52 anos, ele é pioneiro no assunto no Brasil. Começou a estudar a associação entre masculinidade e violência doméstica ainda nos anos 1990, quando trabalhou em uma ONG com prostitutas e travestis.

À época, o senso comum considerava apenas esse público como sendo de risco, mas Sérgio descobriu que o principal obstáculo estava nos homens com as quais elas se relacionam.

“Comecei a falar sobre prevenção do HIV com a população masculina heterossexual”, diz ele. “Vi que essa problemática estava amparada em vários componentes de violência, como a dificuldade do homem em aceitar usar o preservativo. Ainda hoje, a mulher precisa negociar com o parceiro. Muitas vezes, essa tentativa de se cuidar já gera intolerância, xingamentos e maus-tratos”, explica Sérgio.

Foi a partir dessa experiência que o brasiliense radicado em São Paulo compreendeu a necessidade de encontrar uma forma de ajudar os homens a questionar, de forma crítica, suas identidades. Para isso, estudou o tema em intercâmbios no Canadá, Estados Unidos, México e Espanha e iniciou uma série de projetos em São Paulo, onde fixou residência.

Na metrópole, Sérgio realizou um trabalho de conscientização com detentos do Carandiru; criou grupos reflexivos; fez parceria com o Ministério Público de São Paulo; desenvolveu programas de prevenção da violência contra a mulher para empresas e poder público; participou de palestras do TEDx e, recentemente, criou um canal de atendimento emocional chamado Justiceiros. A iniciativa começou durante a pandemia de Covid-19, quando o aumento dos números de violência contra mulheres e crianças por conta do confinamento aumentaram em todo o país.

Não basta punir

O objetivo dessas iniciativas é solucionar o problema pela raiz. “A ideia é partir de uma perspectiva de transformar aquele sujeito em um autor de violência. Não de perdoá-lo ou colocá-lo em um papel de vítima e, sim, de fazê-lo compreender o processo que o levou a agressão. Dar a ele a oportunidade de ser protagonista de sua própria transformação”.

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Nos projetos conduzidos pelo professor de filosofia, o público masculino é levado a explorar os próprios sentimentos e perceber como algumas práticas são nocivas para todos. A metodologia está amparada na compreensão de que agressividade dispensada, principalmente às companheiras, nasce tanto dos privilégios gozados pelos homens, quando do sofrimento ao qual são submetidos.

“É o sofrimento da cegueira. Do homem que acha que não pode chorar, abraçar, ter acesso a outro homem, achar outro homem bonito, usar a roupa que quiser ou demonstrar qualquer fragilidade. O sofrimento vem dessa negação da individualidade. É como se nós, homens, estivéssemos em uma gaiola de ouro. É linda, mas não deixa de ser uma gaiola”, diz.

Sérgio acredita que não basta punir os autores desse conjunto de práticas e valores tradicionalistas, sexistas e misóginos associados à masculinidade. “Precisamos educar e ressocializar”, ressalta.

“Aquele pensamento de Simone de Beauvoir de que ‘não se nasce mulher, torna-se mulher’, ao meu ver, não faria qualquer sentido se mudássemos o foco para os homens. De nós, já existe uma série de padrões esperados. E durante muito tempo, o que se esperou foi o machismo. Por isso, quando pensamos em Deus, pensamos em homens. O mesmo com atleta, presidente, pensador, filósofo. O homem nasce com a missão de ocupar esses espaços de poder e, para isso, espera-se dele determinados comportamentos”, complementa o professor.

Não ser machista também não é suficiente

Em mais de 30 anos de estudo, Sérgio virou referência no combate à violência de gênero e ajudou a difundir o tema até mesmo em programas de tevê de grande alcance, como o Encontro com Fátima Bernardes, do qual participou para falar sobre os projetos de ressocialização de homens condenados por agressão. No entanto, quando o assunto é realização pessoal, Sérgio destaca a própria mudança de comportamento.

“Comecei a me libertar de padrões, de normas e de códigos que me faziam muito mal. E a entender que este modelo de masculinidade é um conjunto de valores performáticos que nunca serão alcançados”, destaca. “Olhando para mim, eu vejo que já mudei bastante, mas sei que terei de fazer isso até o fim dos meus dias. O mundo é machista e, se eu não fizer nada, vou reproduzir aquilo que ele quer”.

Ao explicar o posicionamento, ele menciona a chamada cultura do estupro. “A barbárie do estupro, por exemplo, não começa no toque indesejado, na penetração. Começa quando um homem ri de piadas misóginas, quando repassa nudes, quando faz piadas homofóbicas, quando se omite”, pondera.

“Eu, Sérgio, não agrido ninguém, não xingo, mas sei que isso não basta. Meu objetivo é fazer a minha parte para que a gente possa viver num mundo mais equilibrado e plural”, completa.

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