As histórias de mulheres que mudaram o Carnaval do DF

De pioneira à criadora de um dos blocos mais cobiçados da capital, elas estão mostrando o poder feminino na grande folia

atualizado 09/02/2020 18:38

Foto: Amanda Goes

No comando de blocos, à frente de bandas e até mesmo nos bastidores. O protagonismo feminino no Carnaval do Distrito Federal tem se tornado cada vez mais evidente, sobretudo aquele com viés ativista. Além de uma série de reivindicações contra o machismo e o assédio, elas comemoram a potência do encontro de mentes nada frágeis na folia.

Em meio a importantes discussões sobre os debates de gênero (que alcançam da política a reality shows globais), o Metrópoles apresenta iniciativas de mulheres da capital federal que lutaram para derrubar estereótipos e fizeram dos festins um cenário mais diverso e respeitoso para todos.

Pioneira dos blocos

Uma das primeiras mulheres a ressignificar o Carnaval local é exemplo de força e resiliência. Aos 39 anos, Jul Pagul mantém vivas as memórias de quando, há uma década, abria espaço na praça do extinto Balaio Café para festas e blocos com pegada feminista e a favor das causas LGBTQ. O movimento pela liberdade feminina ainda era incipiente na cidade, mas ela sabia que tinha uma missão a cumprir.

Em sua visão, ter contribuído para que as mulheres se mantivessem “inteiras e livres” foi um ato radical, praticamente de desobediência civil.

 Em tempos de necropolítica, o Carnaval é uma revolução. A cada ano, é mais desafiador trabalhar na folia

Jul Pagul

Após o que ela classifica como uma violência misógina sofrida por um ex-sócio, a carnavalesca resolveu criar o Bloco das Perseguidas, em 2012, junto com uma amiga.

“Um dia, surgiram cartazes na rua do Balaio com minha cara como uma macaca e a palavra ‘perseguida’. Naquela época, me abalei muito com essa atitude”, lembra Jul.

Facebook/Reprodução
Jul Pagul é produtora cultural e antiga proprietária do Balaio Café

No Carnaval do ano passado, ela foi responsável pela Praça dos Prazeres, um dos mais efervescentes espaços de folia do DF, que inclui blocos como o 8 de Março e o das Perseguidas, ambos com recorte militante em prol da causa feminina.

Pagul também está envolvida em outros projetos contra o machismo na festa mais tradicional do país. Entre eles, o Frente Ampla, Mulheres Antifascistas e a campanha Folia com Respeito.

“Costumo dizer que sou carnavalesca porque quero que minhas netas saibam que elas podem ser o que bem entenderem”, conclui a produtora.

Folia com respeito

Com o objetivo de prevenir a violência contra a mulher no Carnaval, a coordenadora e carnavalesca Letícia Helena está à frente da campanha Folia com Respeito, realizada desde 2016 nos blocos de rua.

Um dos propósitos do projeto é informar aos foliões, por meio de campanhas de conscientização, sobre como reagir quando uma vítima relatar alguma situação de assédio.

Reafirmar nossos espaços e o direito ao nosso corpo é fundamental para sermos respeitadas

Letícia Helena

A ideia, segundo a organizadora, é simples: empoderar a mulherada e ensinar o público a curtir os festejos respeitando a diversão alheia.

“Defender a integridade física da mulher é uma necessidade diária”, afirma a carnavalesca.

Essa Boquinha Eu Já Beijei

Pelo sétimo ano desfilando nas ruas brasilienses, o bloco Essa Boquinha Eu Já Beijei já está entre os maiores do Distrito Federal. No Carnaval de 2019, 40 mil foliões curtiram o evento na capital.

Produtora cultural e uma das idealizadoras do projeto, Mariana Miranda aponta que o principal objetivo é promover uma festa democrática e promover a diversidade. “Saímos às ruas para protagonizar essa retomada de espaço do Carnaval, de fomento da cultura, de visibilidade às comunidades e de reconhecimento à própria origem da data”, pontua.

“O Carnaval é um momento oportuno para pautar esses assuntos – não só o machismo e a falta de protagonismo feminino mas também a misoginia, o racismo e a LGBTIfobia –, justamente pela carga histórica e de resistência que ele carrega e porque não há nenhuma outra data em que os brasileiros ocupem os espaços públicos de forma tão significativa e orgânica”

Mariana Miranda, produtora cultural e uma das idealizadoras do Boquinha
Foto: Amanda Goes
Girl power: idealização e a produção do bloco é feita somente por mulheres

O fato de apenas mulheres integrarem a liga é avaliado pelo grupo como um marco e também “uma decisão política e afetiva”.

“As mulheres continuam sendo invisíveis no meio artístico e sofremos com a ausência de espaços em muitos contextos, com menos convites, sets mais curtos, remunerações inferiores e descrédito do nosso trabalho. A criação de um coletivo feminista, que apoie, fortaleça artistas e produtoras e confronte essa estrutura machista, era uma pauta urgente para nós”, defende.

Além da pauta feminista e LGBTI, o grupo abraça a conscientização dos foliões para o autocuidado. Conceito que será trabalhado tanto nas redes sociais quanto na apresentação deste ano, marcada para o dia 15 de fevereiro, na Funarte.

“Temos o manual do folião. Ele ressalta a importância de hidratar-se, ficar perto dos amigos, guardar o celular em local seguro, não vestir fantasias para minimizar ou se apropriar de outras culturas e usar a palavra de ordem que estabelecemos para avisar o bloco sobre qualquer episódio de violência ou assédio, que não serão tolerados”, evidencia.

Cenário

Se impor em dos feriados mais festejados pelo povo brasileiro é, de fato, um ato de resistência. Embora os crimes de violência física e sexual contra mulheres aconteçam cotidianamente, os relatos aumentam no período do Carnaval.

Dados do Disque 100 (Disque Direitos Humanos) e do Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher) divulgados em 2019 apontam que os casos de violência sexual crescem até 20% no mês de fevereiro.

Não à toa, assédio em festas e blocos de rua foi o grande estopim para que coletivos liderados por mulheres passassem a exigir uma mudança significativa por meio de campanhas, projetos e agremiações carnavalescas.

As fontes ouvidas pelo Metrópoles afirmam que o caminho é longo e de batalha. No que depender de nomes como Jul Pagul, Letícia Helena, Mariana Miranda e outras mulheres que se dedicam ao Carnaval brasiliense, esse é apenas o começo de uma grande revolução.

“Não é só nesse período de folia. Essa briga por espaço e respeito é fomentada por nós durante o ano inteiro, com várias atividades desenvolvidas e diálogos estabelecidos com o governo. Nos orgulhamos de pautar questões tão importantes como o combate ao machismo, ao racismo, à misoginia e à LGBTfobia”, conclui Mariana.

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