Birdnesting: modelo de guarda compartilhada coloca os filhos no centro

Em vez de as crianças se dividirem entre casas, os pais é que revezam a convivência no mesmo lar

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Birdnesting: modelo de guarda compartilhada coloca os filhos no centro
1 de 1 Birdnesting: modelo de guarda compartilhada coloca os filhos no centro - Foto: Getty Images

A separação de um casal com filhos costuma trazer uma série de mudanças na rotina, especialmente para as crianças, que passam a dividir o tempo entre duas casas. Mas um modelo de guarda compartilhada tem chamado atenção por propor justamente o contrário: no birdnesting, são os pais que se alternam, enquanto os filhos permanecem no mesmo lar.

O termo vem do inglês “bird nest” (ninho de pássaro) e faz referência ao comportamento de algumas aves, em que os filhotes permanecem no ninho enquanto os pais vão e voltam. Na prática, funciona assim: a casa da família continua sendo o espaço fixo das crianças, e os responsáveis se revezam para viver ali conforme uma escala previamente definida.

Em vez de as crianças se dividirem entre casas, são os pais que revezam a convivência no mesmo lar

Como funciona

A proposta tem como principal objetivo reduzir o impacto emocional da separação, mantendo estabilidade na rotina dos filhos, como escola, amigos e vizinhança. Especialistas apontam que essa previsibilidade pode ajudar na adaptação ao novo cenário familiar, diminuindo o estresse e a sensação de ruptura.

Por outro lado, o modelo também traz desafios. Além de exigir um alto nível de organização e diálogo entre os ex-parceiros, o birdnesting pode envolver custos maiores, já que os pais geralmente precisam manter outras residências individuais. Questões como privacidade, limites e convivência também precisam ser bem alinhadas para evitar conflitos.

Apesar de ainda ser pouco comum, o formato vem ganhando espaço em discussões sobre novas configurações familiares, especialmente entre casais que buscam alternativas mais centradas no bem-estar dos filhos após o fim do relacionamento.

Regulação emocional infantil

A psicóloga Juliana Gebrim explica ao Metrópoles que, do ponto de vista neuropsicológico, a previsibilidade e a manutenção da rotina são fatores muito importantes para a regulação emocional infantil.

“Quando a criança permanece na mesma casa, no mesmo quarto e na mesma rotina, o cérebro entende que, apesar da mudança familiar, o ambiente continua seguro e previsível, o que pode reduzir ansiedade, estresse e alterações comportamentais comuns após a separação dos pais.”
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Por outro lado, é importante que a criança compreenda claramente que os pais estão separados. “Quando não há uma comunicação clara, o birdnesting pode gerar confusão emocional, fantasias de reconciliação e até insegurança, porque a criança percebe que algo mudou, mas não entende exatamente o que”, ressalta a profissional.

Portanto, o modelo pode ser positivo, desde que haja diálogo, previsibilidade de quem estará com a criança e pouca exposição a conflitos.

Principais desafios

Juliana acrescenta que, para os pais, o principal desafio é emocional, não logístico. “A separação envolve um processo de luto, reorganização da identidade e redefinição de papéis. Quando os pais continuam compartilhando a mesma casa, mesmo que em momentos diferentes, esse processo pode ficar mais lento ou mais difícil, porque ainda existe uma sensação de território compartilhado.”

Além disso, esse modelo exige muita comunicação, combinados claros e maturidade emocional.

“É preciso alinhar regras da casa, rotina da criança, organização financeira, limpeza, privacidade e novos relacionamentos. Quando há conflito, ressentimento ou dificuldade de comunicação, o birdnesting pode aumentar o estresse dos pais e, consequentemente, afetar a criança, que percebe facilmente a tensão entre eles”, explica a psicóloga.

O termo vem do inglês “bird nest” (ninho de pássaro) e faz referência ao comportamento de algumas aves, em que os filhotes permanecem no ninho enquanto os pais vão e voltam

Outro ponto importante, segundo a profissional, é que o birdnesting funciona melhor como uma estratégia de transição, principalmente no primeiro momento após a separação, quando a criança ainda está se adaptando à nova realidade.

“A longo prazo, a tendência é que a dinâmica se torne mais complexa, especialmente quando surgem novos relacionamentos, mudanças de trabalho ou novas famílias”, afirma a expert.

Do ponto de vista emocional, o que mais protege a criança não é necessariamente o modelo de moradia, mas a qualidade da relação entre os pais após a separação.

“Crianças se adaptam bem a diferentes configurações familiares quando existe previsibilidade, estabilidade emocional, ausência de conflito intenso e a segurança de que continuam sendo cuidadas e amadas por ambos os pais”, finaliza a profissional. 

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