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Basta um piscar de olhos e a vida já não é mais a mesma. Quando recebeu diagnóstico de câncer de mama em estágio avançado, com metástase nos ossos e no pulmão, Elfriede Galera, aos 54 anos, pensou em tudo que deixaria para trás, caso não sobrevivesse. Os dois filhos, que não veria crescer, o marido, com quem não mais poderia envelhecer, e logo lembrou-se também de cada um dos sonhos que deixaria em aberto.

Um dos planos era o de construir um barco e dar a volta ao mundo nele. Quando o filho mais novo terminasse a faculdade, num futuro distante, o casal seguiria pelas águas do mar. “A ideia nasceu logo que nos casamos, mas não tínhamos dinheiro. Eu não conseguia engravidar e o médico me aconselhou a focar em outros projetos, para não ficar tão ansiosa. Meses depois de começarmos a construir o veleiro eu estava grávida pela primeira vez”, lembra Elfriede.

Ouvir as palavras câncer e metástase (quando a doença se espalha) na mesma frase tende a soar como uma sentença de morte, pois a expectativa de vida nesses casos pode ser de meses. Elfriede, porém, desafiou todos os prognósticos e convive com a doença há sete anos. Esse tempo foi marcado por luta.

Quando descobriu a enfermidade, ela estava aposentada e não tinha plano de saúde. Faz todo o tratamento pelo Sistema Único de Saúde e precisa batalhar de tempos em tempos na Justiça para ter acesso à medicação adequada. As sessões de quimioterapia — e os sonhos — ajudam a mantê-la viva. “Ter planos é o que me faz seguir em frente. Entre uma quimio e outra estava eu ajudando o Jadyr a construir o barco”, diz Elfriede.

Após 25 anos em construção, o barco verde e branco finalmente navegou. Percorreu uma pequena parte do litoral de São Paulo, onde a família vive, em 2014, após uma campanha de financiamento coletivo possibilitar essa aventura. Os filhos ainda estavam na faculdade e a maior parte da renda familiar ia para a educação deles.

Agora, Elfriede e o marido, Jadyr Galera, querem sair novamente em viagem: vão percorrer a costa brasileira até chegar ao Caribe. Novamente, vão recorrer à solidariedade alheia para dar forma a esse sonho, que sofreu adaptações no meio do caminho e ficou menos ousado, mas não menos importante. “A gente tem de se adaptar à vida. Não é porque um sonho não pode ser realizado da forma que você pensou que ele tenha que morrer”, diz Elfriede.

Uma nova vaquinha vai reunir o valor necessário (R$ 228 mil) para custear a viagem, que não se trata somente de lazer. Elfriede faz trabalho voluntário e dá palestras sobre superação do câncer por onde passa. Os destinos que visitar receberão esse trabalho social. A cada 20 dias, ela terá de voltar a São Paulo, para fazer quimioterapia.

“Desde o começo as pessoas olham para mim e dizem: ‘– Você nem parece ter câncer’. Nós precisamos nos livrar desse estereótipo da pessoa doente incapacitada. É possível viver com a doença, não vou desistir da vida”, afirma.

O barco ganhou o nome de Augenblick. Augen quer dizer olhos e blick piscar. Juntos, os termos formam a palavra alemã que significa “um momento”. Aos 61 anos e há sete lutando pela vida, Elfriede sabe que cada despertar é um pequeno milagre pessoal.

Serviço
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