“A dermatologia ainda é racista e excludente”, diz médico brasiliense

Especialistas em pele negra relatam desafios para vencer falta de representatividade em consultórios, em estúdios de tatuagem e nos salões

atualizado 16/11/2020 16:13

Racismo nos cuidados com a peleGetty Images

Ao longo da residência em dermatologia, André Moreira perdeu a conta de quantos pacientes negros chegaram ao seu consultório amargando experiências negativas com outros profissionais. O motivo, segundo o médico, é que mesmo sendo maioria da população brasileira e movimentando expressivos 1,7 trilhão de reais por ano no país, os pretos ainda tem suas especificidades desconsideradas em muitos espaços, como os destinados aos cuidados com a pele. “A dermatologia ainda é racista e excludente, sim”, afirma o médico.

Esse cenário vem mudando nos últimos anos. Principalmente, por conta do esforço de profissionais que já compreenderam, por experiência própria, o que é contratar um serviço e não ter sua individualidade contemplada por ele. André é um dos médicos engajados em fazer com que vivências como essas não se repitam. “Eu e meu paciente não queremos e nem precisamos passar um creme e ficar com aspecto acinzentado. É meu papel mostrar que existem opções pensadas para nossa pele, com a coloração adequada”, observa o médico.

Além da questão dos cosméticos, ele ressalta que existem procedimentos estéticos com indicações e equipamentos específicos. “A pele preta é mais propensa a complicações com laser, por exemplo. Portanto o procedimento tem que ser realizado por dermatologista com experiência. Os resultados são ótimos”, assegura.

O problema é que poucas especializações no Brasil abordam a temática e a bibliografia também é escassa. “Não temos pesquisa sobre o tema em território brasileiro, bem diferente do que acontece nos EUA”, conta.

É nesses materiais que André ampara seus estudos sobre questões étnicas relacionadas à pele, o que fez seu público acabar se segmentando. Hoje, 80% dos procuram seu consultório, em Brasília, são pessoas de ascendência negra ou asiática. “O dermatologista também precisa ser um profissional apto a oferecer um espaço de acolhimento. “Como médico, espero e luto para que o mercado veja, algum dia, que existe uma demanda importante de pretos que querem e merecem se cuidar”.

“Falamos muito sobre isso, porém, é importante reforçar: igualdade não é tratar todo mundo igual.  É compreender as especificidades de cada pessoa. Isso também vale para a estética”.

André Moreira, dermatologista da ADA Clínica Alfa
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“Exausta de ficar com a pele cinza”

Cansada dos profissionais que erravam o tom da base em sua pele, a influencer e maquiadora Micheline Ramalho, 35 anos, também decidiu se dedicar ao ramo. “Estava tão exausta de ficar com a pele cinza. Também queria transmitir meu conhecimento sobre a maquiagem de pele negra. Então, fiz vários cursos e usei as redes sociais para informar os seguidores”, conta ela, que atua há mais de oito anos na área.

Hoje, ela dá aulas sobre o tema na Caravana da Juventude Negra do Distrito Federal e em seu ateliê. “Dou sugestões de produtos e ensino quais são os melhores para usar na pele negra, por causa da pigmentação e de como se dá o processo de oxidação”, exemplifica.

Também faz parte do seu trabalho quebrar tabus como de que existe uma escala de cor determina para cada tipo de pele. “Esse é só mais um preconceito. Combinamos com todas as cores e temos liberdade de ser”

Micheline é influenciadora e maquiadora especialista em pele preta

O reconhecimento veio em 2016, com Prêmio EBSA Worlds, na categoria melhor blog com dicas de maquiagem de pele negra. Micheline também foi a única brasiliense selecionada para o reality show Make me Boti, de O Boticário, transmitido pelo canal Desejos de Make, no YouTube. Ela ficou em quarto lugar.

Em janeiro, o Metrópoles contou como o trabalho também ajudou Micheline a superar um câncer. “Me maquiar, estudar e testar make durante a quimio foi uma ‘válvula de escape’. Ajudar as mulheres negras a se olharem no espelho com autoestima e a se acharem lindas sem dúvidas é a maior recompensa”.

Tattoo com representatividade

Assim como nos consultórios e salões, a história se repete nos estúdios de tatuagem. Para vencer a falta de representatividade do mercado e dos portfólios dos profissionais, a brasiliense Karoline Souza abraçou a alcunha de Tatuadora Negra no Instagram e debruçou seus estudos sobre a comunidade da qual faz parte.

Sete anos depois de ingressar na profissão, comanda a iniciativa com a naturalidade de quem entra em contato com a própria ancestralidade.

“Minha vontade de tatuar pele preta surgiu junto com a minha vontade de tatuar minha própria pele. Já tive experiências negativas com profissionais que faziam trabalhos impecáveis em pele branca, mas quando eram tatuagens em pele negra, elas não ficavam tão legais”, conta.

Karoline Souza, tatuadora

Em seu atelier particular ou na The Flash House, na Infinu Bsb, onde também atende, Karolline busca quebrar tabus sobre a pigmentação e agregar referências afroturistas no seu trabalho. “Desde o início, minha inspiração são as pessoas negras que me rodeiam: a cultura que eu consumo, os artistas que admiro, as artes plásticas, a música. E parte também do desejo de resgatar a autoestima da população negra”, avalia.

Isso porque até mesmo desenhos de referência utilizados na maioria dos estúdios são inspirados em uma cultura branca e eurocêntrica. “Esse processo de recuperação da autoestima também passa pelo resgate de memórias. Tivemos a nossa cultura apagada, passamos, ainda hoje, por um silenciamento muito grande”, conclui.

Posicionamento da SBD

Após a publicação desta matéria, a Sociedade Brasileira de Dermatologia  entrou em contato com o Metrópoles por discordar da opinião do médico André Moreira, ouvido na reportagem.

Em nota, a SBD afirma que os dermatologistas “têm se desdobrado para fortalecer a assistência de todos os brasileiros no que se refere a doenças como hanseníase, câncer de pele e psoríase”, de modo a “melhorar os indicadores de saúde da população”. A carta diz que as atividades são conduzidas “de forma a valorizar os indivíduos por suas características pessoais, independentemente de etnia, gênero, nível socioeconômico e grau de instrução”.

Leia o posicionamento da entidade na íntegra:

“No mundo contemporâneo, onde a imprensa e a população se debatem para fortalecer o uso da comunicação de forma responsável, essa matéria não reflete a realidade. Apenas para ilustrar a ausência de fundamentos do que foi informado, a SBD lembra que seus especialistas estão, em sua maioria, vinculados ao Sistema Único de Saúde (SUS), onde atendem milhões de pacientes diariamente, pautando-se pelo respeito a todos.

Além disso, a SBD e seus dermatologistas têm se desdobrado para fortalecer a assistência de todos os brasileiros no que se refere a doenças como hanseníase, câncer de pele e psoríase, entre outros 3 mil transtornos catalogados, desenvolvendo amplas campanhas de esclarecimento.

Todas essas atividades, que têm ajudado a melhorar os indicadores de saúde da população, são conduzidas pelos dermatologistas brasileiros de forma a valorizar os indivíduos por suas características pessoais, independentemente de etnia, gênero, nível socioeconômico grau de instrução.

Exceções à regra, se ocorrem, devem ser tratadas como tal, fugindo do risco da generalização que denigre a imagem de um grupo de profissionais que, ao longo dos anos, tem trabalhado incessantemente para que o brasileiro tenha mais saúde e melhor qualidade de vida.”

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