Adultos assistem a dramas adolescentes em busca de alívio emocional
Terapeutas explicam o gatilho psicológico e a onda de nostalgia que fazem adultos devorarem séries sobre romances e dilemas adolescentes

Tramas que acontecem em colégios, primeiros namoros e desilusões amorosas, há muito tempo, deixaram de ser exclusividade dos jovens. Atualmente, uma enorme parcela do público adulto se vê encantada por produções focadas em crises de identidade, amizades intensas e paixões avassaladoras, que costumam estar ligadas aos adolescentes.
De acordo com especialistas em saúde mental ouvidos pelo Newsweek, as conexões afetivas dessas histórias conversam diretamente com as nossas próprias vivências, o que independe da idade. O interesse do público maduro por essas produções acende o alerta de plataformas de streaming, que investem pesado no formato.

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Ver todasO fenômeno de audiência de Overcompensating
Os recentes lançamentos provam que os dramas adolescentes e universitários possuem um espaço gigante no mercado de streaming. Um exemplo claro disso é o sucesso de Overcompensating, série da Amazon Prime Video. A produção rapidamente conquistou uma audiência massiva e barulhenta nas redes sociais, ao retratar, de forma ácida e romântica, os altos e baixos da vida jovem.
A narrativa acompanha as jornadas emocionais, os tropeços e os desajustes de estudantes na tentativa de se encontrar em um novo ambiente, equilibrando humor e vulnerabilidade. Esse formato de história, impulsionado por sentimentos à flor da pele, transformou a série em um dos maiores fenômenos recentes da plataforma.

Por que o público adulto ama essas histórias?
O hábito de maratonar séries é liderado justamente pelas gerações mais jovens de adultos, que preferem temporadas lançadas de uma só vez e episódios mais longos. A terapeuta familiar Alexandra Foglia aponta que o grande trunfo dos dramas adolescentes é transportar o espectador de volta para uma fase da vida em que as emoções eram vividas sem filtros, medos ou travas sociais.
Segundo Foglia, assistir a essas séries funciona como um portal para um período em que éramos “emocionalmente crus e sem muitas das defesas sociais, responsabilidades e paredes emocionais que se formam mais tarde na vida”.
Nostalgia e o conforto
Para a terapeuta Kati Morton, a psicologia por trás desse apego envolve uma forte dose de nostalgia. Mesmo para quem teve uma juventude difícil e estressante, assistir a uma versão roteirizada e esteticamente bonita desse período funciona como uma espécie de “reparação emocional”. Segundo a especialista, esses ambientes criam um espaço “onde relacionamentos parecem mais compreensíveis, previsíveis ou emocionalmente intensos, de uma maneira contida”.
Além disso, as tramas adolescentes trazem o conforto de roteiros previsíveis, com vilões claros, paixões intensas e finais bem amarrados. Essa estrutura reduz o cansaço mental de quem lida com o estresse crônico e com os relacionamentos cheios de ambiguidades da vida real, servindo como um porto seguro e relaxante para a mente.
Um espaço seguro
Essas séries também abrem um canal seguro para que os adultos analisem suas próprias dinâmicas afetivas. Enredos focados em lealdade, dores de rejeição e formação de caráter permitem que o telespectador revisite seus próprios padrões de apego e traumas antigos, sem correr risco real.
Esse processo é ainda mais comum em pessoas que sentem que não aproveitaram a juventude como gostariam ou que carregam pendências emocionais daquela época. No fim das contas, acompanhar esses personagens é uma forma acolhedora de lembrar que ser diferente, vulnerável ou passar por fases de transição não é algo ruim – gera empatia e acolhimento com o nosso próprio passado.


