O primeiro sucesso popular do teatro do DF tinha o Diabo como atração
A série Teatro 061 revive àquela que é considerada a primeira peça de alcance popular: “O Homem que Enganou o Diabo… e Ainda Pediu Troco”
atualizado
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O chamado foi feito em junho de 1975. Naquele momento, todos os caminhos de Brasília desembocavam na 508 Sul. A peça “O Homem que Enganou o Diabo… e Ainda Pediu Troco” inaugurou o Teatro Galpão e, a cidade abraçou o teatro feito por aqui. Em cena, os folguedos e manifestações nordestinas indicavam que a nova capital sentia sede dessa cultura antropofágica vinda de tantos cantos. Havia ainda o traço de crítica social e política, já indicado no teatro dos anos 1960.Esta noite o circo mudou. Um circo sem anão, sem fera equilibrista, sem o homem que engole espada e sem animais. Mas o que tem de especial no circo é o Diabo
Você tem razão, Diabo. Não adianta nem ficar cego, surdo e mudo. É preciso também não ter nenhum outro sentido funcionando. É preciso não cheirar, não ter tato, perder toda a sensibilidade ao frio e ao calor, ao golpe e à carícia.
Trecho da peça
A montagem, com direção de Laís Aderne, foi um sucesso de público e de crítica. Havia filas para assistir às peripécias de um homem comum em torno do Diabo, com direito a charanga ao vivo e mensagens sociais contundentes, mesmo em plena ditadura militar.
A dramaturgia era assinada pelo jornalista Luís Gutemberg, alagoano que bebeu em seu imaginário de infância.
“A quem devemos o viver apressado, o morrer antecipado e toda opressão dessa situação. Da senzala à favela, do grilhão à miséria, do senhor ao patrão, a mesma escravidão” (trecho da peça)
Em uma pesquisa sobre dramaturgia brasiliense dos anos 1960 e 1970, Carlos Mateus Castelo Branco defende que a peça de Luís Gutemberg reforça a tese de que a dramaturgia brasiliense não trata unicamente dos problemas da nova capital, justamente por esta ser originalmente miscigenada.
Eu não sou um autor brasiliense típico, pois fui muito marcado pelos folguedos de natal
Luís Gutemberg
Longe de mim. Quero apenas que haja paz social, equilíbrio, prêmio para os que mais e melhor trabalharem e, naturalmente, castigo para os que não fizerem jus à fortuna. Desejo, apenas, que o sistema do mérito permaneça, defendo a competição, o lucro para o mais capaz, a fortuna para o mais sagaz (trecho da peça)
A montagem tinha como ator e assistente de direção Dimer Monteiro, além de João Antonio de Lima Esteves e Neio Lúcio no elenco, com coro de 14 integrantes. A repercussão da peça foi tanta que aumentou a fé cênica no teatro feito em Brasília.
Quem estava na plateia era o jovem Chico Sant´Anna, hoje um dos mais importantes atores do DF e do Brasil. O rapaz que pretendia seguir o caminho de administrador de empresas ficou impressionado com a peça e, tempos depois, viu o seu destino se modificar no curso de teatro de Dimer Monteiro, na UnB.
“No programa da peça, havia os nomes dos atores sem indicar qual personagem faziam. Adorei o espetáculo e não sei por que cargas d’água enfiei na cabeça que aquele maravilhoso “ator gordinho” que fazia o diabo e, também, uma cartomante usando sapato de salto alto, era o Dimer Monteiro. Tempos depois, quando fui estudar teatro com Dimer, descobri que era João Antonio de Lima Esteves”, conta Chico Sant´Anna.
O sucesso de “O Homem que Enganou o Diabo… e Ainda Pediu Troco” reflete a ascensão do teatro amador no DF. A peça de Luiz Gutemberg foi publicada, em 1975, pela Editora Artenova S.A., do Rio de Janeiro, mas foi escrita em Brasília e participou do VI Congresso Nacional de Dramaturgia do Serviço Nacional de Teatro, em 1974, ocasião em que fez parte das 18 peças selecionadas pelo júri.
Um dos raros exemplos de peça da cidade publicada em seu tempo
Carlos Matheus Castelo Branco
Ah, não imagina o que o espera. Mil pessoas cairão em cima de você feito urubus famintos, dissecando-o com mil perguntas: Quanto ganha? De onde é sua família? É bom do juízo? Tem casa própria? É formado? É católico? Tem automóvel? Sofre do coração? Em política, é da direita ou da esquerda? E esse cabelo grande, porque não corta? E essa barba comprida, porque não rapa? Escova os dentes todos os dias? Onde mora? Quando pensa casar? Quantos filhos quer ter? É a favor ou contra o divórcio? Tem parentes tuberculosos? Dorme cedo? Acorda tarde? Não é muito velho pra namorar? Não é muito moço pra casar? (trecho da peça)
FONTES:
Acervo do Correio Braziliense
“(A)bordar Memórias, Tecer Histórias: Fazeres Teatrais em Brasília 1970-1990”, dissertação de mestrado de Elizângela Carrijo
“Dramaturgia Brasiliense nos anos 1960 e 1970: Questões Sobre Teatro e Política”, tese de Carlos Mateus de Costa Castello Branco
“A Paixão de Honestino”, de Betty Almeida
“Histórias do Teatro Brasiliense”, de Fernando Pinheiro Villar e Eliezer Faleiros de Carvalho
“Panorama do Teatro Brasiliense em 1968”, artigo de Carlos Mateus de Costa Castello Branco, publicado na revista “Intercâmbio”
“A Cidade Teatralizada”, de Celso Araújo
“Educação Pela Arte: o Caso Brasília”, de Maria Duarte de Souza
“Canteiro de Obras”, Notas Sobre o Teatro de Brasília, de Glauber Coradesqui











