Etty Fraser, a mamma que o teatro brasileiro nunca vai esquecer

Atriz ajudou a modernizar a cena nacional fundando o Teatro Oficina e participando de montagens históricas

atualizado 03/01/2019 14:40

Reprodução/TV Globo

Quando estava bem de saúde, Etty Fraser costumava andar pelas ruas do elegante bairro de Higienópolis, em São Paulo, onde residia e guardava um pedaço da história do teatro brasileiro em seu apartamento. Certa vez, eu a encontrei por acaso.

A gente sorriu quase simultaneamente e eu a abordei um tanto encabulado. Falei que se pudesse queria assisti-la em Os Pequenos Burgueses, peça em que atuou por três vezes ao longo da vida (1963, 1978 e 1990). Etty ouviu com um certo espanto, gargalhou e disse: “Pensei que você fosse falar sobre meu programa de culinária. Que alívio. Os deuses do teatro são sempre bondosos comigo”.

Dos idos dos anos 1980, o programa (Record e Bandeirantes) é um marco na carreira midiática de Etty Fraser, que, com o fim da TV Tupi, afastou-se dos estúdios de novela. É. sem dúvida, uma lembrança forte no imaginário popular. Porém, passa longe de representar o significado e a importância
de sua carreira como atriz para o teatro, o cinema e a televisão.

Etty Fraser trazia a vocação de atriz de menina, quando, aos oito anos de idade, encenava fábulas na garagem de casa.

Uma vez, montei a Chapeuzinho Vermelho e minha mãe me disse que eu era gordinha para o papel. Daí, quis fazer o lobo, mas a máscara não entrava em minha cabeça. Acabei ficando com o papel da mãe da Chapeuzinho. Tempos depois, na vida profissional, eu representei a todas as mammas possíveis

O caminho para o palco foi traçado quase que naturalmente. Quando Etty percebia, o teatro lhe rondava. Foi assim quando foi estudar o colegial num internato nos arredores de Londres e uma das professoras, amante dos palcos, organizava montagens estudantis.

Ali, Etty viu-se reconhecida pela mestra que a aconselhou a seguir carreira. Depois, ao voltar ao Brasil, foi ensinar inglês e uma de suas alunas a convidou para assistir à peça amadora Vento Forte Para Papagaio Voar, com direção de Amir Haddad e texto de Zé Celso Martinez Corrêa, ambos jovens de 20 e poucos anos.

Ao final da peça, Zé Celso me convidou para fazer um teste. Fui lá e passei. Estreamos em A Incubadeira. No Festival de Estudantes de Santos, com Cacilda Becker e Pagu no júri, ganhei meu primeiro prêmio de atriz

Quem via Etty Fraser em cena ficava encantado com um equilíbrio entre força e leveza. Adolfo Celli, grande diretor italiano e egresso do Teatro de Comédia Brasileiro (TBC), foi um deles. Ao final de uma sessão de A Incubadeira, foi ao camarim e perguntou quanto Etty ganhava como professora.

Ele ofereceu a metade. No dia seguinte, liguei para mamãe e perguntei se ele podia me assegurar cama e comida. Ela me respondeu que, se fosse para a minha felicidade, estaria tudo certo

Ainda na década de 1960, Etty Fraser estreou no teatro profissional ao lado de Paulo Autran e Tônia Carrero, construindo uma das carreiras mais coerentes do teatro brasileiro, passando pela batuta dos principais diretores, como Antunes Filho na antológica montagem brecthiana de A Feiticeira de Salem, ao lado de uma jovem e talentosa atriz chamada Nilcedes Brito, hoje a consagrada Glória Menezes.

Depois de uma passagem pela rádio BBC de Londres, onde narrava peças de teatro para a filial brasileira, Etty Fraser reencontrou Zé Celso. Estavam às vésperas de ensaiar Os Pequenos Burgueses e queriam profissionalizar o grupo. Era 1963 e surgia o Teatro Oficina. Etty já estava ao lado do grande ator Chico Martins, com quem ficou casada por 41 anos (até a morte dele em 2003). Eram um grupo de jovens sonhadores que saía pela rua vendendo uma cartela em troca de cinco sessões que ainda não existiam.

Me lembro que nós convidamos a Cacilda Becker para ser nossa madrinha e a Cacilda veio. A gente fez ela com uma marretinha, dar a primeira marreta na parede, para simbolizar a construção do teatro. Caíram uns tijolos e caiu um São Jorge sem cabeça, era uma macumba que tinha lá

O Oficina surgiu com a força para fazer um teatro novo no Brasil. Nas montagens seguintes, Etty estava lá como um destaque. Como O Rei da Vela, que ela não gostou do texto no início, mas depois se apaixonou com a reação da plateia.

Eu achei um horror. Falei: Essa peça, não sei… Aí o Zé falou: ‘Não fala antes de ver o que que eu vou fazer dessa peça’. Realmente, ficou um deslumbramento

Nessa época, Etty Fraser e o cenógrafo e figurinista Flávio Império tinha o sonho impossível de unir o Oficina ao Arena. Apesar de ambos ajudarem a renovar o teatro brasileiro, tinham linhas formais bem distintas. O Oficina era mais lúdico e antropofágico. O Arena, mais político e autoral. Ambos combativos à ditadura militar, que levou Etty e Chico ao Dops para exaustivo depoimento.

O menino Tony

Uma vez, estava sentada no Oficina e chegou um garoto de uns 14 anos querendo trabalhar com a gente. Disse a ele que não tinha papel. Era menino de tudo. Tempos depois, encontrei-o em Nino, O Italianinho, um sucesso da Tupy e nunca mais nos separamos

O menino era Tony Ramos, hoje um dos maiores atores brasileiros em atividade. Ficaram tão próximo que, quando Etty e Chico resolveram se casar no religioso, 30 anos depois do primeiro beijo – ele e Lidiane foram os seus padrinhos de batismo. Consta que Tony Ramos, silenciosamente, como é do seu feitio, ajudou Etty com custos relacionados à saúde.

Ele me liga sempre. Muito cuidadoso. Chamo-o de dindinho

Etty Fraser seguiu naturalmente para as novelas da TV Tupi e ganhou fama nacional com Beto Rockfeller. Na Globo, estreou tardiamente em Torre de Babel nos anos 1990 ao lado de Claudia Jimenez. Roubaram a cena. O risco de embolia pulmonar que sofreu devido ao excesso da ponte-aérea Rio-SP e o amor incondicional a capital paulista a fizeram declinar de posteriores convites.

No teatro, seguiu firme até 2014, quando participou da montagem A Última Sessão, de Odilon Wagner, que reuniu grandes amigos como Laura Cardoso, Nívea Maria e Miriam Mehler. Conhecida pela consciência de classe, Etty Fraser ainda fica na história como um artista que vendeu broches de teatro em período de crise e organizou campanha para adquirir remédios para artistas com HIV.

Para relembrar toda a sua força, é só a assistir em Durval Discos, de Anna Muylaert, filme que ensaiou como se fosse uma peça de teatro.

Carmita é uma personagem que levo comigo. Nos deu sete Kikitos em Gramado e um prêmio de melhor atriz para mim em Pernambuco. Uma glória

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