Patrimônio imaterial, Praça dos Orixás é pedaço da África em Brasília

Como espelho do país, o DF nunca tratou com a devida importância e respeito a influência das matrizes negras em nossa formação

atualizado 14/12/2018 15:42

Leonardo Arruda/Especial Metrópoles

A Praça dos Orixás e a Festa de Iemanjá (realizada à meia-noite de Ano-Novo) foram declaradas patrimônios imateriais do Distrito Federal. A importância de preservação acaba de ser proferida por decisão do Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural do DF (Condepac). Serão, portanto, incluídas no Livro dos Lugares e no Livro das Celebrações, resguardado pela Secretaria de Cultura. Foram destinadas assim porque representam um espaço de reverência cultural à religiosidade afro-brasileira. Cabe ao estado laico do DF protegê-las.

Vulnerável, a Praça dos Orixás precisa de ações concretas de proteção e salvaguarda. Quem frequenta o espaço, por exemplo, relata a falta de segurança e a precária infraestrutura para que visitantes laicos e de fé professa nas religiões de matrizes africanas possam usufruir dela em paz.

No final de semana, carros costumam invadir o espaço e estacionam à beira do lago, onde humanos fazem churrasco, poluem as águas e abrem o porta-malas com som altíssimo. Integrantes do candomblé contam que frequentemente são zombados enquanto realizam suas preces e oferendas aos orixás. Por ali, instalam-se constantemente moradias provisórias e precárias.

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Há também o gravíssimo registro de ataques de ódio ao conjunto de esculturas que representam os orixás africanos. Ali, está a obra concebida pelo artista plástico baiano Tatti Moreno, o mesmo criador das peças que parecem flutuar no Dique do Tororó, formado um dos mais belos cartões-postais de Salvador. A tentativa de demonizar essas forças das natureza, por vezes, perpetrada por correntes radicais de fé, resultou em série de atentados ao conjunto artístico da Prainha. Algumas das estátuas foram vilipendiadas em ações de ódio, como a queima das obras. Na madrugada, o espaço não tem policiamento algum.

Uma visita à Praça dos Orixás, antes de tudo, é histórica. Estão simbolicamente fincados ali os orixás, forças da natureza, que vieram para o Brasil nos corações dos negros arrancados e escravizados. Não é difícil imaginar que, por meio dessa fé, parte do povo africano subestimado encontrou algum sentido de vida para resistir à brutalidade de “cristãos” brancos que os tratavam como inferiores diante do seu Deus.

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É importantíssimo que a Secretaria de Educação promova visita de estudantes de escolas públicas para que possam entender o significado e a importância cultural da matriz negra na formação do povo brasileiro. Ali, os primeiros moradores do DF, nos anos 1960, iniciaram a Festa de Iemanjá.

Como espelho do país, Brasília nunca tratou com a devida importância e respeito a influência das matrizes negras em nossa formação. Os nossos terreiros, por exemplo, não conseguiram resistir nos endereços mais nobres destinados ao culto espiritualista. Havia históricos locais na área das 900 da Asa Sul, que sucumbiram à especulação imobiliária. Foram encaminhados, em sua maioria, para o entorno do Plano Piloto.

Vão dizer que o som dos atabaques não condiz com a convivência dos moradores. Vão afirmar que os cantos entoados rompem a noite. Sabemos, no entanto, que igrejas de cultos barulhentos seguem de portas abertas a metros das entrequadras. Há sempre uma justificativa para escamotear o preconceito. E essa talvez seja a nossa principal falha como povo brasileiro: não somos capazes de abrir os nossos porões e encarar as mazelas que nos corroem.

No Distrito Federal, a maioria dos terreiros fica a dezenas de quilômetros do Plano Piloto. Nessa geografia desigual, a Praça dos Orixás, na Prainha, é um espaço de fé e de resistência, que precisa ser zelado e vigiado

Independentemente de religião, essas representações reafirmam, na capital federal, a importância do culto de matriz africana na formação do povo brasileiro. É possível, ao ficar diante das obras, entender o sincretismo religioso, a perseguição aos integrantes dos cultos afro e a luta histórica da resistência dos terreiros.

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