Mãe Stella de Oxóssi, a sacerdotisa que sucedeu Castro Alves

Primeira mãe de santo a ocupar a Academia de Letras da Bahia, a maior e mais importante mãe de santo do Brasil morreu aos 93 anos

Reprodução/Youtube

atualizado 29/12/2018 17:36

Quando a notícia da morte de Mãe Stella de Oxóssi ecoou, eu estava tranquilamente sentado num café localizado no bairro do Itaigara, em Salvador. Como se diz na Bahia, era meio da tarde da última quinta-feira de 2018 (dia de Oxóssi) e eu aguardava a chegada de duas amigas. Como um rastilho de pólvora, o alerta pipocou primeiramente no celular de uma mulher da mesa ao lado. Assustada, ela comentou em voz alta, de rompante: “Meu deus, morreu Mãe Stella”.

Imediatamente, uma estranha cumplicidade se estabeleceu naquele lugar. As pessoas saíram de seus pequenos mundos e algumas passaram a mexer os dedos frenéticos em busca de informações. Partilhavam detalhes. As conversas passaram a ser coletivas e audíveis. Não podia ser diferente. A Bahia acabara de perder uma rainha e o Brasil, a sua maior ialorixá, defensora inconteste da cultura afrobrasileira.

MAURO AKIIN NASSOR/FOTOARENA/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO
Saída do cortejo fúnebre, com caixão da ialorixá Mãe Stella de Oxóssi, do terreiro Ilê Axé Opó Afonjá, em São Gonçalo do Retiro, Salvador

 

A morte de Mãe Stella de Oxóssi aos 93 anos de idade representa o fechamento de um ciclo para a Bahia de todos os santos e axés. O fim da era das míticas guardiãs do candomblé baiano, como a inesquecível Mãe Menininha. Desde da morte da rainha do Gantois, ninguém defendia com tanta veemência as tradições do candomblé como Mãe Stella de Oxóssi, do Ilê Axé Opô Afonjá, uma das casas-santuários de Salvador, fundada em 1910 por Eugênia Anna dos Santos, Mãe Aninha.

Mãe Stella não só preservava os ritos seculares como fazia os seus ouvintes e leitores refletirem sobre a sua importância. Literata e autora de seis livros, ela escrevia contundentes artigos e colocava em exposição a importância do candomblé para o legado da Bahia e do Brasil. Assim, tornou-se doutora honoris causa pela Universidade do Estado da Bahia (Uneb)..

O tempo leva o que não se escreve

Mãe Stella

Não era só uma grande sacerdotisa. Tinha o propósito de defender o legado cultural do candomblé materializando as histórias orais, as vivências nos barracões, os mitos e as lendas. Os seus livros publicados a levaram a ser a primeira mãe de santo a se tornar imortal da Academia de Letras da Bahia (ALB). Tornou-se, não por acaso, a dona da cobiçada cadeira 33, que pertenceu a Castro Alves, o poeta defensor dos escravos.

É especial ocupar a cadeira 33. A força dos versos de Navio Negreiro calou fundo na sociedade brasileira ao reconhecer nos escravos africanos pessoas iguais a qualquer outra

Mãe Stella

Lembro-me de uma vez ficar diante de um artigo assinado pela sacerdotisa num jornal baiano, que questionava as benesses do sincretismo, quando os escravos tiveram que adorar santos católicos para driblar os senhores brancos da fé nos orixás africanos. Ali, Mãe Stella defendia o quão isso historicamente estava defasado e sem sentido no aqui e agora. Era preciso assumir o candomblé de frente.

O bom e o bonito é que cada um se fixe na sua crença, nos seus símbolos, na sua energia e não precise se segurar no outro para mostrar potencialidade

Mãe Stella

Dona de opiniões fortes, conquistou um séquito de súditos e a fama internacional. Quem tinha o mínimo de curiosidade sobre o candomblé não poderia passar pela Bahia sem ir (ou tentar ir) à sua casa. A procura por Mãe Stella era altíssima o que tornava as consultas e aconselhamentos difíceis. No entanto, ela sempre estava ali para uma conversa rápida que fosse. Tinha curiosidade sobre quem chegava.

Certa feita, levei uma amiga que se encantou com a fama do terreiro, situado em São Gonçalo, no populoso bairro do Cabula. Mãe Stella não tinha como abrir o jogo de búzios, mas nos recebeu com um sorriso largo e palavras encorajadoras, apesar da idade avançada e das responsabilidades que acumulava como sacerdotisa. Saímos de lá encantados com a doçura e a hospitalidade.

O meu dia de atender era quarta-feira, mas é tanta gente que vem… Fico com pena de ver as pessoas chegarem e voltar chorando

Mãe Stella

Os últimos tempos foram motivos de bafafá na vida de Mãe Stella. Ela e sua companheira, Graziela Dhomini, saíram, sem dar explicações, de dentro do terreiro e foram morar em Nazaré das Farinhas, cidade do Recôncavo, deixando os filhos e filhas de santos aflitos e a Bahia em polvorosa. Na época, Mãe Stella alegou que não era mais ouvida pelos súditos.

Perdi o encantamento

Mãe Stella
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A quinta ialorixá a comandar o mítico terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, Maria Stella de Azevedo Santos foi enfermeira e graduou-se em farmácia. Tornou-se sacerdotisa em 1976 e era autora de seis livros, um importante legado para a preservação da memória do candomblé. Também foi agraciada com a Comenda Maria Quitéria (Prefeitura de Salvador), Ordem do Cavaleiro (Governo da Bahia) e Ordem do Mérito Cultural do Ministério da Cultura.

Tudo que eu aprendi foi com o livro na mão

Mãe Stella

 

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