Olhos que Condenam: 5 motivos para ver a ótima série de Ava DuVernay

A diretora traz justiça e visibilidade a grupo de adolescentes julgados erroneamente pelo estupro de uma mulher nos anos 1990

Atsushi Nishijima/NetflixAtsushi Nishijima/Netflix

atualizado 26/06/2019 13:32

A série mais vista da história da Netflix pertence a uma diretora negra: Ava DuVernay é o nome por trás de Olhos que Condenam, obra em quatro episódios que conta a história de cinco adolescentes condenados injustamente pelo estupro de uma mulher em Nova York, em 1989. O seriado bateu todos os recordes de visualizações nas duas primeiras semanas de lançamento.

O caso ganhou notoriedade na época por alguns motivos. Nova York passava por uma dita “epidemia de estupros” e uma das vítimas, Trisha Meili, foi encontrada praticamente morta pela polícia – além de não recordar de nada do episódio, a jovem de 28 anos foi tão severamente agredida que ficou com sequelas físicas para o resto da vida. No momento em que o crime aconteceu, um grupo grande de adolescentes negros dava um “rolêzinho” pelo parque: a investigação nomeou seus suspeitos ali mesmo, sem qualquer prova, depois de horas a fio interrogando agressivamente os cinco garotos – Antron McCray, Kevin Richardson, Yusef Salaam, Raymond Santana e Korey Wise.

À época, Donald Trump, em franca campanha pela condenação dos adolescentes, pagou US$ 85 mil aos principais jornais de Nova York pela circulação de uma carta pedindo a volta da pena de morte no estado. O anúncio foi feito antes mesmo do julgamento dos acusados. DuVernay lembrou do episódio em seu Twitter, na ocasião do lançamento da série. Anos mais tarde, o real culpado do estupro – preso no mesmo lugar que Korey – admitiu a autoria do crime.

O Metrópoles elencou cinco motivos para começar o seriado. Veja:

Didático, mas severo

Olhos que Condenam não é simplesmente a dramatização de uma história real, mas uma reflexão sobre o racismo estrutural na sociedade americana. O tratamento da polícia com o grupo de adolescentes é absolutamente truculento: não são garotos, são “animais”. O termo é usado livremente pelos oficiais e pela investigação. Na sanha de prender e condenar alguém – qualquer um, qualquer negro – pelo crime de estupro, o Estado se fia à violência institucionalizada, a confissões ditadas pela polícia e a mentiras. Pouco importa se os garotos tinham idades entre 14 a 16 anos, possivelmente incapazes de estuprar uma mulher adulta: pela condenação rápida, macular a vida de cinco jovens negros foi uma troca automática. A série fala, sem aliviar para ninguém, de empatia… ou da falta dela.

Direção de atores brilhante

Ava DuVernay provou, com Olhos que Condenam, que não é preciso ter muito tempo de tela para um grande papel. Mesmo contando a história de cinco famílias muito diferentes, com saltos no tempo e troca de atores, a diretora consegue mostrar, em pé de igualdade, a trágica trajetória daqueles garotos. Ela também se furta de emitir juízo de valor sobre algumas atitudes dos personagens, como a ação de Bobby McCray de praticamente empurrar o filho rumo à confissão do crime, ou o fato de que Raymond Santana virou traficante de drogas pouco depois de conquistar a liberdade. DuVernay está mais interessada em exibir, da maneira mais impactante possível, os fatos. Um excelente exemplo é o diálogo cru e ao mesmo tempo teatral entre Antron, Yusef, Kevin e Raymond ao final do piloto.

Os cinco do Central Park

Os atores do núcleo adulto da série que me perdoem, mas o sucesso de Olhos que Condenam se dá, em grande parte, pelas atuações brilhantes dos cinco adolescentes. Os rapazes não aparecem como uma massa aglutinada, cinco garotos com um problema em comum: cada um com seus dramas, sua personalidade, seu estilo, sua vivência. O quinteto consegue equilibrar em seus personagens a inocência do menino nem sabe o que é um estupro, mas entende muito bem o racismo: ter a pele negra e estar sob o olhar enviesado de um policial é um grande risco de vida.

Veracidade histórica

O cuidado com os detalhes impressionou quem acompanhou o caso de perto: na tentativa de mostrar as coisas como realmente aconteceram, DuVernay apela para a veracidade histórica, desde transmissões de TV da época (Trump aparece defendendo seu anúncio na imprensa em entrevista) até na escolha de figurinos. Uma página de fãs da diretora apontou que muitas das cenas têm paralelos assustadores com imagens reais da investigação, como no depoimento de Korey Wise – a caracterização do ator e do ambiente aumentam a qualidade do material.

É preciso continuar

Se DuVernay é didática ao apontar como um Estado racista tem o poder de arruinar a adolescência de cinco garotos inocentes, ela mostra que a vida, em algum momento, deve continuar. A diretora presta uma verdadeira homenagem às resilientes famílias dos meninos, que, como puderam, estiveram ao lado deles durante os piores momentos de suas vidas. Depois, mostra como cada um deles se reinventou em seu tempo, como pôde: seja com um novo amor, com um emprego digno ou com a ajuda da religião. Ava nunca apontou favoritos, mas sua admiração incondicional por Korey Wise é evidente. Ele é o o único do quinteto a continuar vivendo em Nova York, após ter criado um serviço gratuito de aconselhamento legal para apenados acusados erroneamente.

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