007 e A Pequena Sereia: Hollywood insere diversidade racial no cinema

Mesmo que ainda pontual, negros e negras quebram barreiras e se destacam na indústria cultural

Jose Haro/ABC/DivulgaçãoJose Haro/ABC/Divulgação

atualizado 15/07/2019 19:29

No começo do ano, o mundo do cinema apostou (relativamente) alto na vitória de Pantera Negra ou Infiltrados na Klan na categoria de Melhor Filme no Oscar 2019. Nenhum dos dois levou a estatueta principal, que ficou com Green Book. Os três longas tinham protagonistas negros – mesmo que o vitorioso tenha recebido críticas negativas em razão de sua trama. O fato, de certo modo, indica para uma presença maior de negros e negras na direção e papeis principais em Hollywood, apesar de ainda serem minoria. As notícias recentes confirmam a tendência: a versão live-action de A Pequena Sereia será protagonizada pela cantora Halle Bailey e, nessa segunda (15/07/2019), anunciou-se Lashana Lynch como a nova 007.

Sempre que a mudança de paradigma atinge a indústria cultural, há uma saraivada de críticas. A escolha de duas mulheres negras para papeis icônicos da cultura pop receberam menções negativas nas redes sociais. Os dados ainda não mostram se foram minoritárias as reclamações, porém, é fato que a inclusão da diversidade racial também recebeu inúmeros elogios.

007

Lashana Lynch (Capitã Marvel) viverá a agente secreta 007 no 25º filme da franquia. De acordo com as informações divulgadas pela imprensa britânica, a atriz será Nomi, que assumirá o posto deixado por James Bond (Daniel Craig).

Marvel/Disney/Divulgação

Em produção e sem título definido, o longa deve estrear nos cinemas em abril de 2020. Britânica de 31 anos e descendente de jamaicanos, Lynch começou a carreira em meados da década de 2000. Antes de ficar conhecida no filme Capitã Marvel, atuou em séries como Bulletproof (2018).

“Colocar uma atriz negra para viver papéis icônicos é um passo importante para retificar o racismo e o sexismo histórico que leva a esses personagens serem, desproporcionalmente, homens brancos”, escreveu o The Guadian.

A Pequena Sereia

No caso de A Pequena Sereia, o protagonismo ficará com a cantora Halle Bailey, uma jovem estrela negra do show business. Ao lado da irmã, Chloe, ela forma o duo Chloe x Halle. No cinema, a atriz começou sua trajetória em 2006, surgindo, ao seis anos de idade, em As Férias da Minha Vida, com Queen Latifah e LL Cool J.

Slaven Vlasic/Getty Images

Baseado vagamente no conto A Pequena Sereia, do dinamarquês Hans Christian Andersen, o filme conta a história de Ariel, sereia princesa que sonha em se tornar humana e paga um alto preço por isso. A animação, 28ª da história da Disney, foi dirigida por Ron Clements e John Musker. Alan Menken e Howard Ashman assinaram a trilha sonora do filme.

Críticas

Boa parte dos descontentamento em relação às novas personagens negras é a alegação de “descaracterização” das personagens. Mestre em direitos humanos e pertencente ao Ubuntu – frente negra de ciência política, a pesquisadora e militante Nailah Neves avalia a origem dessas críticas.

“Discutimos bastante o tema e a nossa conclusão é que o branco se acostumou com o protagonismo de tal maneira que, quando vem um negro nesse papel, eles implicam. São argumentos sem racionalidade, como no caso da Beyoncé. Ao anunciarem ela como dubladora da Nala [em O Rei Leão], falaram que a cantora e atriz não tinha voz de Leão. O que é isso?”, indaga Nailah Neves.

Reprodução/YouTube

O argumento da pesquisadora encontra respaldo nos números. Um estudo da Universidade do Sul da Califórnia (USC) alertou que os 100 melhores filmes de 2017 tinham 70% de personagens brancos. A situação se repete atrás das câmeras: em 10 anos (1997 a 2017), apenas quatro diretoras negras estiveram à frente dos principais filmes hollywoodianos.

No Brasil, os números são parecidos. Pesquisa da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) mostra que pretas e pardas não figuraram nos filmes nacionais de maior bilheteria (entre 2002 e 2012), apesar de serem a maior parte da população feminina do país (51,7%).

Mudanças

Além dos recentes anúncios, mudanças pontuais têm sido observadas na indústria cultural. 12 Anos de Escravidão, por exemplo, ganhou o Oscar de Melhor Filme em 2014 – apesar de dirigido por Steve McQueen, teve maior parte de produtores brancos, incluindo Brad Pitt.

Nos seriados, produções com protagonistas negros e negras têm ganhado destaque, como Cara Gente Branca e Sempre Bruxa. “São seriados que mostram os desafios e as diversidades dentro da população negra, isso é muito importante. Historicamente, os personagens negros não tinham história, estavam lá para ser apoio aos brancos”, opina Neves.

Divulgação
Série Cara Gente Branca, da Netflix

A pesquisadora também refuta a crítica sobre ser somente uma questão comercial. “É óbvio que tem um lado de marketing, mas o movimento negro se apropriou disso. Nós nos organizamos para grupos de negros irem ver o filme e mostrar que eles podem dar lucro. Queremos incentivar a indústria a seguir nessa linha”, conclui.

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