Neurologista explica por que treinar pernas pode ajudar o cérebro
Treinar pernas ativa substâncias que protegem o cérebro, melhoram a memória e podem reduzir risco de doenças neurológicas
atualizado
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Muitas pessoas associam o treino de pernas apenas a benefícios estéticos ou de força física. Porém, pesquisas recentes mostram que trabalhar grandes grupos musculares pode ter um impacto direto na saúde do cérebro, influenciando a memória, o aprendizado e até a prevenção de doenças neurológicas.
De acordo com o neurocirurgião Mateus Tomaz Augusto, da Doctoralia, os músculos esqueléticos, especialmente os das pernas, funcionam como verdadeiros órgãos que produzem substâncias importantes para o organismo.
“Durante o exercício, os músculos liberam proteínas sinalizadoras chamadas miocinas. Elas conseguem atravessar a barreira hematoencefálica e exercer efeitos neuroprotetores no sistema nervoso central”, explica.
Além disso, a atividade física aumenta o débito cardíaco e melhora a circulação, ampliando a chegada de oxigênio e nutrientes ao cérebro.
Treinar pernas pode melhorar memória e aprendizado
Outro ponto importante é que exercícios que trabalham pernas ajudam a estimular substâncias relacionadas ao funcionamento cognitivo.
Uma das mais importantes é o BDNF (Brain-Derived Neurotrophic Factor), proteína essencial para a formação de novas conexões entre neurônios.
“O BDNF participa da neurogênese da criação de novas sinapses e da plasticidade do hipocampo, área fundamental para memória e aprendizado”, afirma Mateus.
O médico do esporte Páblius Braga, do Hospital Nove de Julho, acrescenta que as miocinas também desempenham um papel relevante nesse processo.
“Entre elas está a irisina, que tem efeito anti-inflamatório no tecido cerebral e ajuda no bom funcionamento dos neurônios”, explica.
Exercícios podem proteger contra doenças do cérebro
A ciência também aponta que manter força muscular, especialmente nas pernas, pode ajudar a proteger o cérebro ao longo do envelhecimento.
Estudos de longo prazo mostram que pessoas com maior força nos membros inferiores apresentam menores risco de declínio cognitivo e de doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson.
Entre os mecanismos envolvidos, estão:
- Aumento da produção de BDNF;
- Redução de inflamação no organismo;
- Melhora da sensibilidade à insulina no cérebro;
- Redução do acúmulo de proteínas neurotóxicas.
Segundo Páblius Braga, uma revisão científica recente também reforça essa relação entre exercício e saúde cerebral.
“O treinamento físico melhora a liberação de miocinas e reduz a resistência à insulina no cérebro, fortalecendo a comunicação metabólica entre músculos e sistema nervoso central”, explica.
A circulação das pernas também influencia o cérebro
A musculatura das pernas desempenha ainda um papel importante na circulação sanguínea. Durante o exercício, esses músculos funcionam como uma espécie de “bomba venosa”, ajudando o sangue a retornar ao coração e, consequentemente, ao cérebro.
Esse processo melhora a oxigenação cerebral e favorece o funcionamento de áreas ligadas à memória, atenção e tomada de decisões.
Além disso, o exercício regular pode estimular a formação de novos vasos sanguíneos no cérebro, processo conhecido como angiogênese.
“Um cérebro bem vascularizado funciona melhor e tende a envelhecer com mais resiliência”, destaca o neurocirurgião.
Com que frequência treinar pernas para beneficiar o cérebro
Para obter benefícios neurológicos, especialistas recomendam incluir exercícios de força no treino semanal.
As diretrizes internacionais indicam:
- De duas a três sessões semanais de treino de força;
- Pelo menos 150 minutos de atividade aeróbica por semana.
Páblius complementa que treinar pernas cerca de três vezes por semana já pode trazer benefícios importantes para a saúde muscular e cerebral.
Movimento do corpo também fortalece a mente
A relação entre músculos e cérebro tem sido cada vez mais explorada pela ciência. O que antes era visto apenas como um benefício físico do exercício, hoje é entendido como um mecanismo biológico importante para a saúde neurológica.
Treinar pernas, por envolver grandes grupos musculares, desencadeia uma série de processos no organismo, desde a liberação de miocinas até a melhora da circulação e da oxigenação cerebral. Esses fatores contribuem para fortalecer conexões entre neurônios, estimular áreas ligadas à memória e ajudar na proteção do cérebro ao longo do envelhecimento.
Por isso, especialistas destacam que a atividade física regular deve ser encarada como parte da estratégia de prevenção em saúde.
Em outras palavras, dedicar tempo ao treino de pernas não é apenas uma questão de condicionamento físico. Também pode ser uma forma eficaz de manter o cérebro ativo, saudável e mais resistente ao passar dos anos.
