Trauma na infância pode alterar o cérebro e afetar a saúde, diz estudo
Estudo em animais mostra mudanças nas células cerebrais após estresse precoce e ajuda a explicar risco maior de ansiedade ao longo da vida

Quem passa por situações difíceis na infância pode carregar efeitos disso por muitos anos. Um estudo publicado na revista Neuron, em 7 de agosto, investigou como isso acontece no cérebro e identificou alterações que podem ajudar a explicar por que o trauma precoce aumenta o risco de problemas de saúde mental no futuro.
Pesquisadores dos Estados Unidos analisaram uma região chamada área tegmental ventral, que participa do controle da dopamina, substância ligada à motivação, à sensação de recompensa e às respostas ao estresse. Em experimentos com camundongos, eles observaram que o estresse vivido nos primeiros anos de vida muda o funcionamento dessas células.
Segundo o estudo, o estresse precoce faz com que o DNA dentro dos neurônios dessa região fique mais “aberto”. Na prática, isso deixa os genes mais acessíveis e prontos para serem ativados. Isso significa que, quando o indivíduo enfrenta novas situações estressantes mais tarde, essas células reagem de forma mais intensa. O resultado pode ser um desequilíbrio na dopamina, associado a sintomas como ansiedade.

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Ver todasOs cientistas também identificaram o papel de uma enzima chamada SETD7 nesse processo. O estresse aumentou a presença dessa enzima, que facilita a ativação de genes nas células ligadas à dopamina. Quando os pesquisadores elevaram artificialmente a SETD7, mesmo sem estresse, os animais apresentaram mais sinais de ansiedade. Já a redução dessa enzima ajudou os camundongos a lidar melhor com situações estressantes.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles Saúde e CiênciaEfeito pode durar anos
Os achados ajudam a entender por que experiências negativas na infância podem ter efeitos duradouros. As alterações observadas funcionam como uma espécie de “marca” nas células cerebrais, que influencia a forma como o organismo reage ao estresse ao longo da vida.
Embora o estudo tenha sido feito em animais, os pesquisadores consideram que mecanismos semelhantes podem existir em humanos, já que há semelhanças biológicas entre as espécies.
Próximos passos
A pesquisa também aponta caminhos para pesquisas futuras. Os cientistas querem entender se experiências positivas, como apoio social e boa alimentação na infância, podem proteger essas mesmas células e reduzir os efeitos do estresse.
Ainda não há aplicação direta em tratamentos, mas os resultados ajudam a identificar alvos no cérebro que podem ser investigados no futuro. A ideia é compreender melhor como prevenir ou reduzir os efeitos do trauma vivido nos primeiros anos de vida.



