“Serrana vacinará toda a população em duas semanas”, diz pesquisadora

Em entrevista ao Metrópoles, a pesquisadora Natasha Nico, contou sobre o estudo que avalia a eficácia populacional da vacina Coronavac

atualizado 28/03/2021 8:13

Natasha Nicos - infectologistaReprodução/Zoom

Dentro de duas semanas, cerca de 28 mil habitantes da cidade de Serrana, em São Paulo, terão recebido as duas doses da vacina fabricada pelo Instituto Butantan. O Projeto S, como é chamada a fase 4 dos testes no Brasil da vacina Coronavac, caminha para ser concluído.

Em entrevista ao Metrópoles, Natasha Nicos Ferreira, médica infectologista do Hospital Estadual de Serrana (HE) e uma das pesquisadoras envolvidas no estudo, falou sobre a adesão da população à iniciativa e os principais desafios que serão enfrentados até que o Brasil consiga atingir a imunidade de rebanho coletiva, patamar necessário para conter a transmissão do vírus Sars-CoV-2, causador da Covid-19.

Estudos clínicos de fase 3 mostraram que a Coronavac tem taxa de eficácia de 50,38%. Agora, a médica e outros pesquisadores do HE e do Butantan querem saber qual a eficácia do imunizante no chamado “mundo real”, quando ele é aplicado em uma população inteira.

Os pesquisadores buscam respostas para perguntas como: “Qual será a redução da taxa de positividade da Covid-19 na cidade após a vacinação?”, “A vacina reduzirá a internação nos hospitais?”, “O número de casos graves e a transmissão do coronavírus vão cair?” e “Qual a proteção da Coronavac contra as novas variantes?”.

Projeto S

Serrana está localizada na região de Ribeirão Preto, a 279 km da capital de São Paulo. Suas características foram cruciais para que a cidade fosse escolhida para o estudo: é uma região pequena, tem alto fluxo intermunicipal e conta com um hospital de referência para o tratamento de Covid-19, o Hospital Estadual de Serrana, que é ligado à Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (USP).

O projeto, que teve início em 17 de fevereiro, tem cronograma de oito semanas, sendo dividido em dois ciclos de um mês para a aplicação da primeira e da segunda doses da vacina. A cidade de 45 mil habitantes tem 28.380 pessoas inscritas para participar do estudo, com taxa de adesão de 97,3% na primeira fase.

A população foi dividida em quatro grupos – verde, amarelo, cinza e azul -, sendo que um deles foi vacinado por semana. A estratégia é chamada de “vacinação em ondas” e serviu para que os pesquisadores organizassem a fila de imunização de modo a respeitar o prazo necessário entre as duas doses.

“Apesar de estarmos comparando a cidade inteira com outras cidades da região, também vamos comparar o primeiro e o último grupo vacinados dentro dela. Teoricamente, a gente espera que o primeiro grupo tenha uma redução de casos antes dos outros”, explica a infectologista.

 Novos modelos de vacinação

A pesquisa também ajudará a responder qual é a melhor estratégia de imunização em um cenário de pandemia, no qual não dá doses suficientes para todos. Autoridades de saúde divergem sobre a recomendação de seguir a bula e guardar a segunda dose para garantir que o tempo entre as aplicações seja respeitado ou usar todas as doses disponíveis de uma só vez, para que a imunização tenha um alcance maior.

A infectologista acredita que o Projeto S poderá responder a essa pergunta, uma vez que não depende das doses oferecidas pelo Programa Nacional de Imunização (PNI). “A vacinação em ondas pode vir a ser um modelo novo mais para frente”, indica Natasha.

Fase final do estudo

Neste domingo (28/3), será concluída a vacinação da segunda região do estudo (grupo amarelo), restando portanto outras duas regiões (grupos cinza e azul), cujos moradores serão totalmente vacinados até 11 de abril, de acordo com o cronograma.

Apesar de o número de infecções ter reduzido na cidade, ainda é cedo para afirmar que isso é consequência da vacinação, de acordo com a infectologista. Os resultados só devem ser observados dentro de quatro semanas, quando o primeiro grupo (verde) estará totalmente imunizado, contando com as duas doses da injeção e o tempo de resposta do organismo aos anticorpos.

Adesão da população à vacina

A Coronavac é uma vacina aplicada em duas doses, com intervalo de 14 a 28 dias. A pesquisadora chama atenção para que a população respeite o prazo e retorne aos postos de saúde para receber a segunda dose. “Uma dose não é suficiente. A gente não sabe qual é a eficácia de uma dose só, a gente sabe a eficácia de duas e (pede) para as pessoas não desistam”, conta Natasha.

Imunidade coletiva

A imunidade coletiva para uma doença só é atingida quando uma porcentagem elevada da população é vacinada. Em geral, essa taxa varia entre 60 a 80%. No caso da Covid-19, os cientistas ainda buscam essa resposta.

“Se surge uma variante mais transmissiva, o número de pessoas vacinadas tem que ser maior para causar uma proteção. Isso é muito variável”, explica a infectologista.

Desafios para a vacinação no país

A pesquisadora considera que o Brasil ainda tem muitos desafios para alcançar uma vacinação rápida, com resultados satisfatórios.

Eles vão desde a complexa logística de distribuição das doses em um país heterogêneo e de dimensões continentais até as disputas políticas a respeito da segurança da vacina. “Em muitos locais, vacina virou briga política ao invés de ser uma questão de saúde pública, que todo mundo deveria se preocupar independente de partido. Isso pode ser um entrave porque nós precisamos que os órgãos regulatórios e os gestores tenham interesse em adquirir a vacina”, conclui a médica.

Saiba como as vacinas contra Covid-19 atuam:

0

Últimas notícias