Morar em ruas com mais árvores pode reduzir risco cardiovascular

Pesquisa analisou 350 milhões de imagens e constatou que outras coberturas vegetais, como gramados, não mostram o mesmo efeito protetor

atualizado

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rua arborizada - Metrópoles
1 de 1 rua arborizada - Metrópoles - Foto: Freepik

Viver em áreas urbanas com maior cobertura arbórea está associado a uma redução de 4% no risco de doenças cardiovasculares. Em contrapartida, morar em regiões com outros tipos de vegetação, como grama, arbustos e moitas, está ligado a uma maior probabilidade desses problemas. É o que aponta um estudo publicado em janeiro na revista Environmental Epidemiology.

Pesquisadores de diversos centros de pesquisa nos Estados Unidos e na Europa analisaram 350 milhões de imagens de ruas nos EUA, ao redor da residência de cerca de 89 mil mulheres, acompanhadas por quase duas décadas. Diferentemente da maioria dos estudos anteriores, que utilizaram índices gerais de vegetação medidos por satélite, a equipe conseguiu separar tipos específicos de cobertura vegetal visíveis: copas de árvores, gramados e outros elementos verdes, como arbustos e moitas.

Apesar da associação benéfica entre árvores e saúde cardiovascular identificada na análise, isso não significa uma relação direta de causa e efeito. “Não conhecemos todas as características associadas às imagens de street view analisadas. Pode não ser apenas ‘qual verde’, mas onde e como esse verde está inserido”, observa Lis Leão, líder do grupo de pesquisa e-Natureza, do Centro de Ensino e Pesquisa Albert Einstein, do Einstein Hospital Israelita.

Outros fatores podem estar em jogo, como bairros com predominância de gramados serem mais dependentes de carro e menos caminháveis, o que estimula hábitos mais sedentários na população. O estudo também levanta hipóteses como uso de pesticidas ou características do desenho urbano, mas essas variáveis não foram medidas diretamente.

Por outro lado, árvores estão ligadas, indiretamente, a benefícios à saúde dos vasos e do coração, por meio da redução da poluição do ar, do alívio de ilhas de calor, da diminuição do ruído e do favorecimento à prática de atividade física e convivência social. “Do ponto de vista psicofisiológico, ambientes naturais modulam o sistema nervoso autônomo e reduzem a ativação simpática crônica, que está ligada ao risco cardiovascular”, detalha Leão.

A relação entre natureza e saúde vem sendo estudada há pelo menos quatro décadas. “Já nos anos 1980, a Teoria da Recuperação do Estresse, proposta por Roger Ulrich, mostrava que até observar uma paisagem natural pela janela podia acelerar a recuperação fisiológica após uma cirurgia”, relata a pesquisadora.

Mas é claro que a paisagem, sozinha, não faz milagre — para uma saúde boa, é preciso também adotar uma alimentação balanceada, fazer atividade física, dormir bem, fazer acompanhamento regular junto a um médico e manejar o estresse. Nesse último caso, a natureza certamente é uma grande aliada. “Há base suficiente para pensar em cidades mais arborizadas como estratégia estrutural de promoção da saúde. No futuro, usufruir da natureza poderá ser visto como parte das recomendações de saúde, assim como hoje incentivamos a prática regular de atividade física”, especula Lis Leão.

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