Queda histórica da malária: saiba o que mudou no combate à doença
Número de casos e mortes em 2025 marca menor registro desde 1979 e reflete avanços no diagnóstico, tratamento e vigilância da malária
atualizado
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O Brasil registrou em 2025 o menor número de casos de malária desde 1979. De acordo com o Ministério da Saúde, houve redução de 15% nas notificações em comparação com o ano anterior. Os dados também apontam queda de 28% nas mortes e diminuição de 30% nos casos provocados pelo Plasmodium falciparum, forma mais grave da doença.
A secretária de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde, Mariângela Simão, afirma que parte desse resultado está ligada ao fortalecimento da vigilância epidemiológica. Segundo ela, o monitoramento mais preciso dos casos permite direcionar melhor as ações de controle da doença.
“Ao saber onde há mais casos de malária, conseguimos direcionar melhor os investimentos, treinar profissionais de saúde para identificar precocemente a doença e reforçar campanhas de informação para que as pessoas procurem atendimento mais rapidamente”, explica.
O que é a malária?
- A malária é uma doença infecciosa causada por parasitas do gênero Plasmodium, transmitidos ao ser humano pela picada de fêmeas infectadas do mosquito Anopheles, conhecido como mosquito-prego.
- Os sintomas incluem febre, fraqueza intensa, confusão mental, convulsões, dificuldade para respirar, queda de pressão, sangramentos e, nos casos mais graves, há risco de morte.
- No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, a maior parte dos casos ocorre na região amazônica, que abrange estados como Amazonas, Pará, Acre, Rondônia e Roraima.
- O tratamento da doença é simples, eficaz e gratuito. No entanto, o diagnóstico e o início rápido do tratamento são essenciais para evitar complicações graves.
Diagnóstico rápido e tratamento precoce
O avanço no diagnóstico também tem papel central no controle da malária. O infectologista David Salomão Lewi, do Hospital Israelita Albert Einstein, reforça que a queda nos casos é resultado de várias ações combinadas.
“A redução está ligada ao fortalecimento da vigilância epidemiológica, à ampliação do diagnóstico rápido, ao tratamento mais eficaz e ao uso de mosquiteiros impregnados com inseticida”, diz.
Ele também destaca o controle do mosquito transmissor e a atuação das equipes de saúde nas regiões mais afetadas. “Políticas públicas contínuas e a integração entre estados e municípios também ajudaram a reduzir a transmissão da doença”, acrescenta.
Para o infectologista Ralcyon Teixeira, do Hospital Sírio-Libanês, identificar a doença logo no início é fundamental para interromper o ciclo de transmissão.
“A malária depende de uma pessoa infectada para continuar circulando. Quando diagnosticamos cedo e tratamos rapidamente, diminuímos o tempo em que o parasita permanece no sangue e reduzimos a chance de transmissão para novos mosquitos”, explica.
Medicamento em dose única
Outra medida estratégica apontada pelo Ministério da Saúde foi o uso da tafenoquina, medicamento utilizado no tratamento da malária causada pelo Plasmodium vivax. Teixeira explica que a principal vantagem é que o tratamento pode ser feito com dose única.
“A tafenoquina atua contra formas do parasita que permanecem adormecidas no fígado. O fato de ser administrada em dose única melhora muito a adesão ao tratamento e reduz as recaídas”, afirma.
Além do tratamento, a ampliação dos testes rápidos no Sistema Único de Saúde (SUS) também tem facilitado o diagnóstico em regiões onde o acesso a exames laboratoriais é mais limitado.
Desafios para eliminar a doença
Apesar da redução, os especialistas alertam que a eliminação da malária ainda enfrenta obstáculos importantes no país. De acordo com Lewi, muitos desses desafios estão ligados às características da região amazônica.
Entre os principais fatores estão a dificuldade de acesso a áreas remotas, a mobilidade populacional associada a atividades como garimpo e migração e a necessidade de manter financiamento contínuo para as ações de controle.
Também preocupam possíveis resistências do parasita a medicamentos e do mosquito transmissor a inseticidas, além da possibilidade de subnotificação ou diagnóstico tardio em regiões isoladas.
