Quebra-pedra deve ser o primeiro fitoterápico do SUS. Conheça a planta

Medicamento padronizado à base de Phyllanthus niruri pode ajudar a reduzir a formação e a recorrência de cálculos renais 

atualizado

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Imagem mostra a planta quebra-pedra, uma folha pequena e ramificada - Metrópoles
1 de 1 Imagem mostra a planta quebra-pedra, uma folha pequena e ramificada - Metrópoles - Foto: Wikimedia Commons

A formação de cálculos renais, popularmente conhecida como pedra nos rins, é uma condição frequente e dolorosa que leva milhares de brasileiros a pronto-socorros, internações e procedimentos de alta complexidade todos os anos. Além do sofrimento dos pacientes, o problema pressiona filas e gastos do Sistema Único de Saúde (SUS).

Nesse cenário, o Brasil avança no desenvolvimento do primeiro fitoterápico à base do quebra-pedra. A planta Phyllanthus niruri é tradicionalmente usada na medicina popular e agora irá integrar a lista de medicamentos distribuídos pelo SUS. O remédio está sendo desenvolvido por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

A proposta é oferecer uma opção padronizada, segura e com potencial de auxiliar na prevenção e no manejo dos cálculos renais, especialmente em pacientes que sofrem com o problema de forma recorrente.

Como o quebra-pedra atua no organismo

Segundo o urologista Alex Meller, do Hospital Vila Nova Star, em São Paulo, a ação do quebra-pedra vai além do senso comum de destruir o cálculo já formado. De acordo com ele, a planta atua principalmente na prevenção.

“Ela ajuda a prevenir a formação do cálculo ao interferir na cristalização e na agregação dos cristais que dão origem às pedras”, explica.

Meller afirma que o fitoterápico pode modificar a estrutura do cálculo, dificultando que os cristais se juntem e se fixem dentro do rim. Esse efeito pode reduzir tanto o surgimento de novas pedras quanto a recorrência em pacientes que já tiveram o problema.

Além disso, há indícios de que o quebra-pedra possa auxiliar na eliminação de fragmentos após tratamentos como a litotripsia, procedimento que destrói o cálculo renal com ondas de choque. “É um problema grave para a saúde pública, com filas longas e tratamentos complexos, que exigem tecnologia e alto investimento”, diz.

Ao reduzir a formação e a recorrência dos cálculos, o novo fitoterápico pode diminuir internações e procedimentos, ajudando a desafogar o sistema público.

Para Meller, o medicamento pode ser especialmente útil para pacientes que formam cálculos de maneira crônica e que hoje contam basicamente com mudanças de hábitos, ajustes na dieta e algumas medicações para controle metabólico como tratamento.

Imagem mostra xícara de chá amarelo de quebra-pedra em cima de mesa com toalha listrada - Metrópoles
O chá de quebra-pedra é utilizado há séculos por populações tradicionais, inclusive indígenas, principalmente para problemas urinário

Do uso tradicional ao medicamento padronizado

A nutricionista Thaís Barca, especialista em fitoterapia, explica que o quebra-pedra é utilizado há séculos por populações tradicionais, inclusive indígenas, principalmente para problemas urinários.

A planta contém compostos como alcaloides, flavonoides (quercetina e rutina), lignanas e taninos, associados a ações diuréticas, anti-inflamatórias, antioxidantes e relaxantes da musculatura lisa.

Esses compostos atuam em diferentes frentes: dificultam a agregação dos cristais de oxalato de cálcio, podem modificar a estrutura dessas partículas, tornando-as menos aderentes ao trato urinário, e ainda aumentam a produção de urina, o que facilita a eliminação de microcristais e pequenos fragmentos.

“Mas é importante reforçar que não há evidência de que a planta consiga quebrar pedras grandes já formadas. O efeito é mais observado em cálculos pequenos ou na prevenção. O fitoterápico não substitui o tratamento médico”, ressalta.

Thaís chama atenção para uma diferença essencial: o uso caseiro da planta não é o mesmo que um fitoterápico padronizado. Chás, extratos e preparações artesanais variam muito em concentração, qualidade e identificação correta da planta, o que aumenta riscos de ineficácia ou efeitos adversos.

Já o medicamento desenvolvido passa por controle rigoroso de matéria-prima, padronização dos compostos ativos, testes de estabilidade e avaliação farmacêutica antes do registro.

“Isso garante previsibilidade de dose, efeito e segurança, além de reduzir riscos de contaminação ou uso de plantas incorretas”, explica a nutricionista.

Apesar dos resultados promissores, Thaís ressalta que ainda faltam grandes ensaios clínicos randomizados e controlados para confirmar, de forma definitiva, o grau de benefício em humanos.

“Os dados são encorajadores, mas ainda preliminares. É um caminho parecido com o de muitos medicamentos fitoterápicos atuais, que começaram com o uso popular e depois foram validados pela ciência”, afirma.

Embora o quebra-pedra seja considerado relativamente seguro, os especialistas alertam que “natural” não significa inofensivo. Em doses elevadas, pode causar efeitos gastrointestinais, como diarreia e vômitos, além de hipotensão em pessoas mais sensíveis.

Gestantes, lactantes e crianças devem evitar o uso, devido à falta de estudos de segurança nessas populações. Também há risco de interações medicamentosas, especialmente com diuréticos e remédios para diabetes, já que a planta pode potencializar esses efeitos.

“Nunca se deve usar fitoterápicos por conta própria. A orientação de um médico ou nutricionista especializado em fitoterapia é fundamental”, reforça Thaís.

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