Dia da mentira: psiquiatra explica quando a invenção vira transtorno
Especialistas explicam quando a mentira deixa de ser pontual e passa a prejudicar relações, a autoestima e a saúde mental
atualizado
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A mentira faz parte das interações humanas e pode surgir em situações cotidianas, como brincadeiras ou pequenas omissões sociais. No entanto, quando o hábito de distorcer a verdade se torna frequente, rígido e começa a afetar relacionamentos ou a própria vida da pessoa, especialistas alertam: o comportamento pode indicar um problema emocional ou até estar associado a transtornos mentais.
De acordo com o psiquiatra Tales Cordeiro, do Hospital Samaritano Higienópolis, em São Paulo, não existe um diagnóstico específico para “mentira patológica” na psiquiatria. Mesmo assim, o comportamento pode se tornar preocupante dependendo do impacto que causa.
“Na psiquiatria, consideramos que um comportamento passa a ser patológico quando provoca prejuízo para a própria pessoa ou para terceiros. Se a mentira começa a gerar conflitos, perdas ou sofrimento emocional, ela passa a exigir atenção”, explica o médico.
Quando a mentira vira padrão de comportamento
Segundo a psicóloga Veruska Vasconcelos, do Hospital Alvorada Moema, também em São Paulo, a mentira recorrente raramente surge como um traço isolado. Na maioria das vezes, ela se desenvolve como uma estratégia emocional.
“É comum observar esse comportamento em pessoas que tiveram experiências em que dizer a verdade gerava punição, rejeição ou exposição emocional intensa. Com o tempo, a mentira passa a funcionar como uma forma de proteção psíquica”, afirma.
Nesse contexto, a pessoa pode usar a mentira para evitar sentimentos difíceis, como vergonha, culpa ou inadequação. O problema é que, quando o padrão se repete, ele acaba afetando a confiança nas relações.
Outro fator frequente é a dificuldade de lidar com frustrações ou críticas. Para alguns indivíduos, alterar a realidade se torna uma forma de sustentar uma imagem mais positiva de si mesmos.
Especialistas observam que a mentira frequente costuma estar ligada a uma autoimagem fragilizada. Pessoas que se sentem inadequadas ou pouco valorizadas podem recorrer a exageros ou histórias distorcidas para parecer mais admiradas ou aceitas socialmente.
“Em muitos casos, a pessoa tenta sustentar uma versão de si mesma que pareça mais valorizada. Mas esse recurso gera o efeito contrário: quebra de confiança nas relações e aumento do sentimento de inadequação”, explica Veruska.
Com o tempo, esse ciclo pode reforçar ainda mais o comportamento, criando um padrão difícil de interromper sem ajuda profissional.
Mentira não é diagnóstico, mas pode indicar transtornos
Apesar de não existir um diagnóstico específico para a mentira compulsiva, o comportamento pode aparecer como sintoma em alguns transtornos mentais.
Segundo Cordeiro, alguns transtornos de personalidade estão entre os mais associados a esse padrão, especialmente quando a mentira se torna um recurso frequente para manipular situações ou construir uma imagem idealizada. Os principais exemplos são transtornos de personalidade narcisista, borderline ou personalidade histriônica.
“Em alguns casos, a pessoa utiliza a mentira para obter vantagem direta. Em outros, o comportamento ocorre mesmo sem um benefício claro, tornando-se quase um hábito”, afirma o psiquiatra.
A pessoa pode acreditar na própria mentira?
Sim. Com o tempo, a repetição constante de uma narrativa pode fazer com que a pessoa passe a acreditar parcialmente nela.
Isso acontece porque a memória humana não funciona como um registro fiel dos fatos. Cada vez que uma história é repetida, o cérebro tende a reforçar aquela versão como coerente e familiar.
Além disso, acreditar na própria narrativa pode funcionar como um mecanismo de proteção emocional, reduzindo o contato com sentimentos difíceis, como culpa ou vergonha.
Quando a mentira passa a causar prejuízos nas relações pessoais, sociais ou profissionais, a busca por ajuda especializada pode ser fundamental.
Na psicoterapia, o objetivo não é apenas confrontar o comportamento, mas compreender qual função emocional ele cumpre. Muitas vezes, a mentira surge para evitar sofrimento psicológico ou sustentar uma identidade considerada mais aceitável. O tratamento envolve desenvolver consciência sobre o padrão, identificar gatilhos emocionais e construir formas mais saudáveis de lidar com a verdade.
Cordeiro afirma que não existe medicamento específico para parar de mentir. Por isso, a abordagem principal costuma ser psicoterapêutica.
Como lidar com alguém que mente com frequência
Conviver com a mentira recorrente pode ser desgastante e afetar profundamente a confiança nas relações. Por isso, especialistas recomendam equilíbrio entre empatia e limites.
Evitar confrontos agressivos é importante, pois eles podem aumentar a defensividade. Ao mesmo tempo, estabelecer limites claros sobre o impacto da mentira ajuda a proteger a relação.
Incentivar a busca por apoio profissional também pode ser essencial quando o comportamento se torna persistente.
Veruska destaca que, por trás da mentira repetitiva, muitas vezes existe uma dificuldade emocional significativa. Quando o padrão começa a gerar prejuízos consistentes, afetivos, sociais ou profissionais, a intervenção especializada se torna fundamental.
