Pesquisa da UnB usará canabidiol para tratar viciados em crack

Estudo pretende avaliar se a substância derivada da maconha é mais eficaz do que as opções atuais de tratamento. Grupo procura voluntários

atualizado 18/08/2019 14:02

Há quatro anos, Andrea Gallassi, professora do curso de terapia ocupacional da Universidade de Brasília (UnB), busca formas de levar adiante sua pesquisa com usuários de crack, usando como medicamento a ser testado o canabidiol (CBD). Gallassi submeteu seu projeto de pesquisa a um longo caminho burocrático até receber, recentemente, o sinal verde da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para importar a substância. Agora, a pesquisadora procura usuários da droga dispostos a se livrar do vício para dar início ao estudo. O objetivo é descobrir se o CBD é mais eficaz que tratamento padrão para acabar, ou, pelo menos, diminuir o vício.

A ideia é reunir 80 usuários e dividi-los, aleatoriamente, em duas equipes. “Um grupo será tratado com óleo de canabidiol e três comprimidos placebo (sem efeito). O outro receberá o tratamento padrão feito hoje para dependentes de crack: três comprimidos de medicamentos reais, mais um óleo placebo”, detalha Andrea, que também coordena o Centro de Referência Sobre Drogas e Vulnerabilidades Associadas (CRR), que fica na unidade da UnB em Ceilândia.

Os medicamentos serão fornecidos pela equipe e, após a ingestão, os participantes responderão a questionários comportamentais. Depois, voltarão à vida normal, retornando ao local de pesquisa semanalmente, ao longo de 11 semanas. “Toda vez que retornarem, eles responderão a questionários sobre como estão se sentindo, se usaram mais ou menos crack, se estão dormindo melhor, se estão comendo e outras questões comportamentais”, explica Andrea Gallassi.

Segundo a pesquisadora, alguns estudos indicam que a substância derivada da cannabis atuaria com eficiência no tratamento de efeitos colaterais do uso da droga, como a falta de sono e de fome. “É um medicamento com atuação cientificamente documentada na diminuição da ansiedade, aumento no apetite e melhora no padrão de sono, sintomas relatados pelos próprios usuários”, reforça. “Queremos descobrir se, com o canabidiol, as pessoas diminuem o uso ou mesmo se param de usar a droga, além de avaliar se ficam menos irritadas, se começam a se alimentar melhor, etc”.

Atualmente, a professora explica que o tratamento para dependentes de crack consiste em medicações que amenizam os sintomas da abstinência, como antidepressivos e estabilizadores de humor. “Esses medicamentos têm muitos efeitos colaterais e são tóxicos para o organismo”, cita Andrea.

Um ponto importante da pesquisa, de acordo com a estudiosa, é o fato de que os participantes não ficarão internados. Geralmente, em estudos de novos medicamentos, as cobaias são internadas para serem observadas e monitoradas 24 horas por dia. “Nosso estudo testa o medicamento na vida real dos pacientes”, completa Andrea. “Isso permite que a gente os acompanhe no próprio cotidiano deles, não em uma realidade imaginada.”

No dia 19 de agosto, está prevista uma consulta pública da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sobre o plantio da maconha para fins medicinais no Brasil. O ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, declarou nessa sexta-feira (16/08/2019) que o governo tem planos para desburocratizar e tornar mais rápida a chegada de remédios à base de canabidiol no país.

Como participar da pesquisa
Para participar da pesquisa, os interessados precisam ter feito uso de crack no último ano. O recrutamento vai até outubro e a estimativa é que o estudo seja finalizado em dezembro de 2019. O acompanhamento dos participantes do ensaio clínico será feito no Centro de Atenção Psicossocial de Álcool e Drogas (CAPS) da Ceilândia.

Candidatos podem entrar em contato com a equipe pelo endereço ou pelo telefone abaixo:
Centro de Atenção Psicossocial de Álcool e Drogas (CAPS)
QNN 1, Conjunto A, Lote 45/47 (rua da Beth & Lili confecções, travessa da Avenida Via Leste)
Telefone: (61) 99996 7060

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