Período eleitoral pode aumentar ansiedade entre grupos minoritários
Polarização, divergências de opiniões e receio de perder direitos podem aumentar a sensação de insegurança e o desgaste emocional

O período eleitoral costuma aumentar a exposição a discussões, conflitos, notícias e opiniões divergentes. Brigas entre familiares e amigos, excesso de informações e a polarização podem tornar a rotina mais desgastante. Para pessoas que pertencem a grupos que já enfrentam discriminação ou violência, porém, o período do pleito pode gerar uma preocupação ainda maior.
Pessoas LGBTQIA+, mulheres negras, indígenas, pessoas com deficiência, minorias religiosas e indivíduos em situação de vulnerabilidade socioeconômica podem acompanhar o período com receio de que mudanças políticas afetem seus direitos, sua segurança ou as condições em que vivem. Nesses casos, a disputa eleitoral pode deixar de ser percebida apenas como uma escolha política.
“Quando direitos, identidade, segurança ou pertencimento aparecem repetidamente no centro de discussões públicas, algumas pessoas podem experimentar maior sensação de ameaça e entrar em um estado de hipervigilância”, explica a psicóloga Flávia Marsola, do Hospital Brasília, em Águas Claras.
Segundo ela, esse estado faz com que a pessoa permaneça atenta ao que pode acontecer. Como consequência, podem surgir ansiedade, irritabilidade, tensão e dificuldade para se desligar das notícias.
A psicóloga Danielle Ferreira, do Instituto Caminhar, em Brasília, explica que a preocupação com uma eleição é esperada. O sinal de atenção aparece quando ela deixa de ser pontual e passa a ocupar a rotina.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles Saúde e Ciência“Temos observado esse tema aparecer, inclusive, em processos terapêuticos, principalmente entre pessoas que temem que determinadas mudanças políticas possam representar a perda ou a restrição de direitos básicos, de proteção social ou de segurança”, afirma.
Nesses casos, o resultado da eleição pode ser percebido como algo capaz de produzir consequências concretas na vida da pessoa. É essa percepção de ameaça que, segundo Danielle, pode intensificar a ansiedade e o sofrimento psicológico.
Quando as redes sociais aumentam o desgaste
Acompanhar notícias e discussões políticas não é, por si só, um problema. A dificuldade aparece quando o consumo de informação passa a ser compulsivo.
A pessoa pode acordar e já procurar informações, acompanhar pesquisas durante todo o dia, verificar redes sociais repetidamente e sentir necessidade de responder a cada nova discussão. Esse comportamento mantém o cérebro em estado de alerta por longos períodos.

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Ver todas“As redes sociais podem favorecer a exposição repetida a conteúdos emocionalmente intensos, principalmente medo, indignação e conflito. Quando isso acontece durante muitas horas, pode aumentar a irritabilidade, a ansiedade, a dificuldade de concentração, além de provocar alterações no sono”, explica Danielle.
As discussões também podem ultrapassar as redes sociais e chegar às relações pessoais. Conflitos políticos entre familiares, amigos e parceiros podem aumentar o desgaste quando toda divergência passa a ser interpretada como uma ameaça pessoal.
Quando é hora de buscar ajuda
Sentir preocupação, medo, irritação ou ansiedade durante um período de grande disputa política não significa, por si só, que exista um problema de saúde mental. A situação merece atenção quando essas emoções provocam sofrimento significativo ou começam a prejudicar a rotina.
Alterações persistentes no sono ou no apetite, crises de ansiedade, irritabilidade intensa, dificuldade de concentração, queda no rendimento no trabalho ou nos estudos, isolamento social e conflitos frequentes estão entre os sinais citados por Flávia. Também é importante observar se a pessoa sente uma ameaça constante ou não consegue interromper pensamentos relacionados às eleições.
“Se esses sintomas forem intensos, persistentes ou interferirem na rotina, nos relacionamentos ou na capacidade de cuidar de si, é importante buscar avaliação de um profissional de saúde mental”, orienta Flávia.
Como acompanhar a eleição sem se desgastar
Uma das estratégias é estabelecer limites para o tempo dedicado às notícias e escolher fontes confiáveis, em vez de permanecer conectado durante todo o dia.
Flávia também recomenda avaliar quais discussões acrescentam informações e quais apenas aumentam o desgaste. Nem todo comentário precisa de resposta e nem toda provocação exige participação.
Manter atividades que fazem parte da rotina também ajuda a preservar outros espaços além da política, como sono, alimentação, atividade física, trabalho, lazer, vínculos afetivos e descanso.
“É possível continuar presente no debate sem permanecer emocionalmente disponível para ele 24 horas por dia”, destaca Flávia.
