Ozônio, cloroquina, ivermectina: o que o brasileiro mais busca no Google?

As promessas de tratamento para Covid-19 com remédios já existentes ganharam popularidade no Brasil à medida que a doença avança pelo país

atualizado 07/08/2020 8:51

ilustração comprimidosArte/Metrópoles

O desespero diante do avanço da Covid-19, que já parou o mundo e matou mais de 700 mil pessoas, fez estudos e pesquisas se popularizarem entre, até, pessoas menos interessadas em ciência. Enquanto vacinas estão sendo criadas, remédios já existentes no mercado ganharam popularidade entre os brasileiros.

Depois da “famosa” cloroquina, amplamente defendida pelo presidente norte-americano, Donald Trump, e por Jair Bolsonaro (sem partido), a ivermectina virou alvo de interesse popular após uma universidade australiana divulgar  pesquisa sobre o uso do remédio. Por último, o polêmico método para tratar a Covid-19, sugerido pelo prefeito de Itajaí-SC, com aplicação de ozônio pelo ânus chamou a atenção. Nenhum dos três tratamentos tem comprovação científica de que funcionam no combate à Covid-19.

Um levantamento do (M)Dados, núcleo de análise de dados do Metrópoles, avaliou as buscas no Google por essas terapias e percebeu que os picos acontecem, sem nenhuma coincidência, ao mesmo tempo em que publicações científicas em fases iniciais, fake news ou declarações não oficiais ganham espaço nas redes sociais.

Perceba no gráfico, por exemplo, que até o final do mês de março, as pesquisas eram quase inexistentes. Em 19 de março, o nome cloroquina disparou, alcançando o ápice dois dias depois, quando Bolsonaro anunciou o uso de laboratório do Exército para produzir estoque do medicamento.

Em outro dia, já em abril, a notícia de uma pesquisa publicada pela Universidade de Monash, na Austrália, sobre o resultado positivo do uso da ivermectina in vitro, fez o brasileiro correr para a internet e pesquisar o assunto. Mais para frente, no início de maio, um outro pico de buscas aconteceu exatamente quando alguns estados anunciaram a aquisição de milhões de doses do remédio para piolho.

A cloroquina, no entanto, reassumiu a dianteira em 20 de maio, assim que o governo decidiu mudar o protocolo e autorizar o uso do produto para casos leves de Covid-19. A popularidade durou só até o fim desse mês.

O anúncio do prefeito Volnei Morastoni (MDB) veio e impulsionou as buscas por ozônio. Nas redes sociais, o método entrou na “disputa”, virou polêmica e chegou aos trending topics do Twitter no último dia 4 de agosto.

Ainda que nenhum desses remédios tenha comprovação científica, os nomes continuam a ser de interesse dos brasileiros nos buscadores. Até a publicação desta reportagem, os três tratamentos seguem populares por lá.

O que se sabe até agora?

O uso da cloroquina não é consenso entre médicos e especialistas. Um estudo brasileiro, feito por uma coalizão de hospitais e publicado no final de julho no New England Journal of Medicine, afirma não ter encontrado eficácia ou benefícios na administração do remédio, sozinho ou associado à azitromicina, em pacientes leves ou moderados com Covid-19. Além disso, pesquisadores detectaram alterações nos exames de eletrocardiograma de pessoas que tomaram os medicamentos, assim como sinais de lesão hepática no mesmo grupo.

A ivermectina segue caminho semelhante. De acordo com a plataforma Clinical Trials, que mostra estudos clínicos feitos ao redor do mundo, há 32 pesquisas sendo feitas com a substância – duas delas no Brasil, inclusive. A maioria está ainda em fase de recrutamento de voluntários, e muitos esperam resultados apenas para dezembro de 2020 ou 2021. Por aqui, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) se posicionou sobre o assunto afirmando que não há recomendação para a utilização da ivermectina em pacientes infectados ou mesmo como forma de proteção.

E a ozonoterapia, técnica mencionada por Volnei Morastoni (MDB) como tratamento para Covid-19, é conhecida uma terapia de risco. A falta de comprovação científica nesse tipo de técnica, sobretudo em relação ao novo coronavírus, é criticada por especialistas e não é procedimento indicado pelo Ministério da Saúde.

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