Movimento lança guia para transformar o diálogo sobre depressão e suicídio

Instituições mostram a forma certa de apoiar quem precisa de ajuda especializada, usando como exemplo comentários impróprios corriqueiros

atualizado 28/08/2020 7:03

Flor em mãosLina Trochez/Unsplash/Divulgação

A primeira descrição que a maioria das pessoas dá ao ouvir sobre depressão é que é “frescura”. E a simples palavra, dita muitas vezes sem pensar, se coloca como uma das barreiras mais comuns para mais de 300 milhões de pessoas doentes em todo o planeta, que querem ajuda para tratar a doença. Na tentativa de desmistificar o tema e ampliar o conhecimento sobre depressão e suicídio, um grupo de instituições voltadas à saúde mental lançou o Movimento Falar Inspira Vida.

O objetivo é fazer com que a pessoa saia da conversa ensaiada inúmeras vezes dentro da mente, – adiada sempre que algo parece que vai melhorar – e parta para a ação, que é buscar ajuda. E preparar amigos e familiares para lidar com a situação se torna fundamental neste processo. Para isso, a primeira iniciativa desta coalizão foi criar um guia, que explica de forma adequada e simplificada sobre depressão e suicídio, usando como base comentários corriqueiros como o citado no início do texto. O conteúdo está disponível no site www.falarinspiravida.com.br, e pode ser baixado e compartilhado de forma gratuita.

O grupo destaca que a busca por conhecimento é o primeiro passo para diminuir a distância entre os pacientes, a família e os especialistas. “Mais do que trazer frases que carregam julgamentos, explicamos por que elas não ajudam e sugerimos formas de mudar o tom da conversa”, explicou em nota o diretor médico da Janssen, Fábio Lawson. A empresa farmacêutica da Johnson & Johnson é quem lidera o movimento lançado este mês.

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Além da Janssen, a coalizão é formada pela Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos (Abrata), Centro de Valorização da Vida (CVV), Departamento de Psiquiatria da Unifesp, Instituto Crônicos do Dia a Dia (CDD), Instituto Vita Alere, Vitalk e a revista Veja Saúde.

Em setembro, mês em que é realizada a campanha Setembro Amarelo, de prevenção ao suicídio, o movimento deve levar o diálogo sobre os temas para o cotidiano das pessoas. Em São Paulo, por exemplo, a linha amarela do metrô terá um vagão personalizado com essas expressões que muitas vezes são utilizadas pelas pessoas para falar de alguém com depressão e que precisam ser requalificadas. Vídeos animados nas telas dos vagões de toda a linha amarela também farão um convite à população para buscar informação.

É impossível lutar sozinho

A depressão é um desequilíbrio biológico que afeta todo o organismo e tem se intensificado na população por conta da vida estressante, violência e a pressão sofrida todos os dias. “Nos casos graves, a sensação de angústia, pensamentos mórbidos podem fazer com que a que pessoa tenha impulsos suicidas porque ela não suporta a dor que está sentindo e não vê saída para aquela situação”, explicou o chefe do Departamento de Psiquiatria e Psicologia Médica da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), dr. Jair Mari.

Ela afeta cerca de 300 milhões de pessoas no mundo, segundo dados mais recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS). O número corresponde a 4,4% da população mundial. No Brasil, a prevalência é um pouco maior do que a média: 5,5%. Ou seja: no país, são 11,5 milhões de brasileiros com depressão, número que, nas Américas, só é superado pelos Estados Unidos.

Os dados sobre suicídio também tem preocupado a OMS. No Brasil ocorrem aproximadamente 11 mil suicídios todos os anos. Em todo o planeta, são mais de 800 mil pessoas que decidem tirar a própria vida. Em 97% dos casos, os suicídios estão relacionados a transtornos mentais, principalmente a depressão.

Depressão na pandemia

Desde o início da pandemia de coronavírus, houve aumento no número de pessoas que sofrem de depressão. Um levantamento da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), com 1.460 residentes de 23 estados brasileiros, constatou que houve alta de 90% no número de pessoas com a doença entre março e abril deste ano.

Estudos realizados por especialistas da Espanha, Estados Unidos e América Latina alertam para a importância de dar visibilidade aos transtornos mentais, especialmente em populações vulneráveis como crianças, pacientes diagnosticados com problemas de saúde mental ou Covid-19 e profissionais de saúde.

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