Mieloma múltiplo: terapia moderna permite que dançarino volte ao forró
Novo esquema terapêutico chamado D-VRd permitiu que Ezequiel voltasse a trabalhar e dançar forró apesar de continuar com mieloma múltiplo

Sentir dor nas costas costuma ser um sintoma ao qual não damos muita atenção. Com uma rotina atribulada, o cabeleireiro Ezequiel Fazzio Paulino, de 68 anos, achou que as dores que começou a sentir em 2019 eram consequência das suas várias atividades, mas eram, na verdade, os primeiros sinais de um câncer na medula óssea, o mieloma múltiplo.
Foi o início de uma longa luta de Ezequiel contra o câncer. Ela só encontrou respiro com um tratamento inovador que permitiu que a doença ficasse “pausada” nos últimos seis anos, uma progressão que era quase impossível quando ele começou o tratamento.

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Ver todasA descoberta do câncer ignorado
Levou meses até que Ezequiel se convencesse que seu problema era mais que uma lesão por esforço. “Sentia muita dor nas costas e elas foram aumentando com o tempo. Sempre fui muito ativo, fazia academia todos os dias: caminhava, nadava e ainda dançava forró. Aos 62 anos, me sentia firme e forte, levantava bastante peso, e no início achei que a dor era apenas por estar exagerando nos treinos”, lembra.
Como a dor persistia, ele procurou diversos tratamentos, desde massagem a terapias alternativas como a reflexologia. Foi só depois de cinco meses de dores intensas que ele recebeu uma orientação para exames mais detalhados.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles Saúde e Ciência“Um ortopedista, cliente meu, percebeu que eu estava andando de forma estranha. Eu tinha começado a sofrer quedas e contei para ele, que me pediu exames mais detalhados. Fiz uma ressonância e o resultado apareceu rapidamente. Cerca de 20 dias depois desse alerta, já estava operando a coluna”, lembra o morador de Botucatu (SP).
Tratamento para pausar mieloma
Mieloma múltiplo é um tipo de câncer em que ocorre a proliferação desordenada de uma célula do sangue, o plasmócito, que cresce anormalmente e passa a produzir proteínas tóxicas ao organismo. A doença pode levar à anemia, alteração da função renal, hipercalcemia, fraturas e ainda evoluir para complicações fatais.
A doença estava muito avançada. Ezequiel corria o risco de ficar tetraplégico se os pinos não fossem colocados em sua coluna o mais rápido possível. “Os médicos me disseram que eu tinha só 5% de esperança de continuar andando. Pensar que não poderia mais trabalhar ou dançar forró me arrasou, mas me agarrei naquela esperança”, afirma.
Após a cirurgia, o quadro dele ainda inspirava muitos cuidados e os médicos temiam que a quimioterapia não fosse eficaz. O estado avançado da doença permitiu que Ezequiel fosse habilitado logo de cara a fazer um protocolo, àquela época experimental, de tratamento.
Ele foi tratado com um novo esquema terapêutico chamado D-VRd, que combina uma série de quatro medicamentos, desde anticorpos até moléculas anticâncer. O objetivo é fazer um tratamento agressivo para aumentar a sobrevida livre de progressão da doença, já que o câncer em si não tem cura definitiva e pode ser apenas controlado.
O protocolo, aprovado pela Anvisa em outubro de 2024 para pacientes com casos graves, desde março deste ano é uma opção também para indivíduos recém-diagnosticados, independente de poderem ou não fazer um transplante de medula óssea.
“O mieloma múltiplo é uma doença desafiadora e dinâmica. Iniciar o tratamento com regimes mais eficazes no contexto de primeira linha oferece aos pacientes maior oportunidade de resultados duradouros a longo prazo, prevenindo recidivas”, afirma a hematologista Vânia Hungria, da Clínica São Germano, pesquisadora do protocolo Cepheus que testou o tratamento.
Tanto no Cepheus (em pacientes que não receberam transplante) quanto no Perseus (em pessoas que receberam transplante), os resultados mostraram que o tempo sem doença é muito mais longo do que o alcançado em tratamentos regulares.
As projeções indicam resultados promissores: pacientes que não são elegíveis ao transplante podem ter a doença controlada por cerca de oito anos com a nova técnica, comparado a quatro anos com a terapia convencional. Para aqueles que são elegíveis, o tratamento com D-VRd projeta uma sobrevida sem progressão de até 17 anos, um aumento significativo em relação aos sete anos do tratamento tradicional.
“Com as novas opções, os pacientes passam a ter uma melhora rápida nos sinais e sintomas do mieloma. Isso significa menos dor, mais mobilidade e mais disposição para retomar atividades cotidianas. Esses ganhos clínicos se traduzem diretamente em uma melhor qualidade de vida, permitindo que muitos pacientes voltem a ter uma vida ativa e produtiva”, constata a hematologista.
Tirando o mieloma para dançar
Para Ezequiel, o resultado tem sido fenomenal. Ele não tem progressões da doença há seis anos graças ao protocolo. Durante quatro meses, o tratamento ocorria quatro vezes por semana. Depois, passou a ser uma vez por semana, evoluiu para 15 dias e, hoje, é a cada 28 dias.
“Quando ouvi que tinha câncer, a primeira coisa que pensei foi na morte. Hoje, sou grato a Deus, aos meus médicos e à clínica. Tenho qualidade de vida, mesmo com as limitações. Voltei a trabalhar e a dançar. Se não fossem os pinos, eu estaria praticamente normal. Encontrei no lazer uma grande força: danço quatro vezes por semana. Danço três músicas, depois descanso três, e assim vou levando. Isso me dá ânimo, alegria e a certeza de que ainda posso viver mais e bem”, conclui o cabeleireiro forrozeiro.
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