Homem é reanimado após passar 5h exposto a -20ºC e ter morte clínica

Homem na Rússia foi reanimado após 5h de morte clínica por hipotermia. Ele ficou sentado em banco e adormeceu no frio intenso

atualizado

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Foto: Reprodução/Hospital Regional Central de Mirny
Médico consultando paciente
1 de 1 Médico consultando paciente - Foto: Foto: Reprodução/Hospital Regional Central de Mirny

Um homem voltou à vida e se recuperou sem sequelas depois de passar 5 horas e 34 minutos em estado de morte por frio. O caso aconteceu na cidade de Mirny, na região de Yakútia, na Rússia, conhecida como um dos lugares mais frios do planeta.

A notícia foi divulgada pelo Hospital Regional Central de Mirny no início desta semana. O incidente aconteceu em março, quando os termômetros da cidade registravam -20ºC. Segundo o relato, o paciente tinha feito consumo de bebida alcoólica, se sentiu cansado e adormeceu ao ar livre após sentar em um banco.

A equipe médica foi acionada e encontrou o homem sem batimentos cardíacos, com pressão arterial zero e linha reta no eletrocardiograma.

Diante da situação, as manobras de reanimação foram iniciadas imediatamente. A estratégia usada para trazer o homem de volta durou cerca de quatro horas, elevando a temperatura corporal do paciente de 24°C para 34°C de forma gradual. Após atingir esse nível de temperatura, foi iniciada a reanimação cardiopulmonar, com massagem cardíaca indireta, ventilação artificial e administração de medicamentos.

Após 25 minutos de reanimação, os médicos observaram fibrilação ventricular, indicando retorno da atividade elétrica do coração. Foi aplicada uma descarga elétrica que restabeleceu o ritmo cardíaco e permitiu a retomada da circulação sanguínea.

O paciente permaneceu em coma induzido por um dia, mas recuperou a consciência sem comprometimento das funções vitais. A função renal foi preservada e ele recebeu alta hospitalar após cinco dias.

Protocolo é aplicado no Brasil?

A técnica utilizada pelos médicos russos não é uma exclusividade estrangeira. Segundo a médica Aliã Siqueira Vieira, pós-graduanda em Medicina Aeroespacial, o princípio de que o paciente não está morto até que esteja quente é uma diretriz internacional seguida rigorosamente nos hospitais brasileiros.

Baseada nas recomendações da American Heart Association, a norma é aplicada no Brasil principalmente em casos de afogamento em águas frias, comuns na região Sul, ou em vítimas de exposição em serras e altitudes elevadas. Pelos protocolos atuais, sinais tradicionais como pupilas dilatadas ou ausência de pulso não são considerados confiáveis sob frio extremo.

“A reanimação cardiopulmonar deve ser mantida durante o transporte e continuada até que o paciente seja reaquecido”, explica a médica.

Em centros avançados no Brasil, utiliza-se inclusive a ECMO (oxigenação por membrana extracorpórea), uma máquina que oxigena e aquece o sangue fora do corpo. Os esforços médicos só são interrompidos se o paciente permanecer sem sinais vitais após o reaquecimento completo ou se houver lesões letais óbvias.

Diferente da morte encefálica (irreversível), a morte clínica é a interrupção dos batimentos e da respiração. No caso russo, a baixa temperatura reduziu o metabolismo a quase zero, impedindo que as células morressem por falta de oxigênio, um estado de quase hibernação.

O frio congela o coração?

De acordo com o cardiologista Marcelo Bergamo, o frio extremo não “congela” o coração no sentido literal. O que ocorre é uma desorganização progressiva da atividade elétrica do miocárdio.

A hipotermia interfere nos canais iônicos (sódio, potássio e cálcio), que são responsáveis pela geração e condução do impulso elétrico. Com isso, a condução elétrica fica mais lenta. “O coração em hipotermia fica extremamente irritável, então estímulos mínimos, como movimentar o paciente, podem desencadear a arritmia”, explica o cardiologista.

Ou seja, o coração não para por congelamento mecânico, e sim porque perde a organização elétrica necessária para se contrair de forma eficaz.

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